Dança
Depois do curta-metragem, Axêro - a obra cênica estreia em Pelotas
Protagonizado por dois dançarinos, espetáculo aborda a dor e a superação do preconceito racial no cotidiano da cidade
Fio da Navalha - Especial DP - Gessi Könzgen e Jão Cruz performann a si mesmos e também se transmutam e, assim, louvam antepassados
Pouco mais de um ano depois do lançamento do curta-metragem, estreia Axêro, a obra cênica que deu origem ao audiovisual homônimo. Com direção de Maria Falkembach e produção do grupo Tatá, o espetáculo de dança-teatro, protagonizado e idealizado por Gessi Könzgen e Jão Cruz, aborda questões comuns à negritude, relacionadas ao sofrimento imposto pela discriminação racial, especialmente pelo perspectiva feminina. As apresentações ocorrerão de quinta-feira (30) a sábado (2 de dezembro), às 20h, no espaço da companhia Outro Dances, em frente ao Mercado Central.
Axêro teve a produção iniciada em 2018 e a estreia no palco impedida por causa das restrições impostas durante a pandemia. Como o espetáculo era financiado pelo Procultura municipal, a solução encontrada pelo grupo foi transpor a obra para o audiovisual. A estreia ocorreu em julho do ano passado e desde então, o curta tem sido exibido em eventos e escolas.
A diretora explica que fazer o curta não foi algo simples. A maior preocupação é que o filme se tornasse tão potente quanto o espetáculo do palco. "Foi um super aprendizado fazer o curta, mas sempre ficou aquela vontade de retomar para a cena presencial, que é o nosso lugar", diz Maria Falkembach. O que finalmente vai acontecer na próxima semana.
Vigor corpóreo
Se transpor o espetáculo cênico para uma linguagem audiovisual foi um grande desafio, retomar a montagem para o palco demandou também um novo esforço. Os ensaios ocorreram neste mês e embora a estrutura estivesse pronta, a parte que envolve o vigor corpórea foi a que exigiu mais cuidado.
"Esse mês foi puxado, porque é retomar muita coisa. A construção de uma linguagem cênica e uma dramaturgia a gente tinha, mas ficam muitos detalhes, porque a gente quer fazer um espetáculo que seja forte, que pegue as pessoas. A gente tem levado o filme para as escolas e sempre é muito forte, produz muita reflexão, então a gente não pode deixar isso de lado no momento que faz com as presenças", comenta a diretora.
A própria idealizadora e dançarina Gessi Könzgen diz que não é fácil se manter no palco durante uma hora, que é a duração do espetáculo. "A gente quer fazer um trabalho de primeira linha, porque é um assunto muito importante, então tu quer dar o teu melhor, mas é muito cansativo e a gente fica muito nervoso também, porque não tem como repetir. O potencial de cada um de nós tem que ser o máximo para que passe verdade no que a gente quer dizer", fala.
Tanto a diretora, quanto a bailarina destacam a perspectiva afro-referenciada da obra ou seja as vivências na Pelotas negra são descritas pela negra e pelo negro. Quem sofre com as situações de repressão e invisibilidade impostas no convívio social tem toda a propriedade para falar sobre o tema, defende Gessi.
Toda essa experiência é descrita em cena de forma ritualística. "Então desde a concepção do espetáculo essa ideia de relação com o público ela traz essa perspectiva, é um ritual, a gente busca um lugar de encontro, no qual o público vai se encontrar com aqueles corpos que também fazem a história dessa cidade", diz Maria.
Na obra, Gessi e Jão performam a si mesmos e também se transmutam e, assim, louvam antepassados. Denunciam a história glamourosa e o cotidiano dessa cidade, forjada pelo racismo e pelo trabalho escravizado. Seus corpos e vozes não deixam dúvida: Pelotas é preta.
Gessi diz que a linha que conduz o espetáculo trata da invisibilidade da população negra. Axêro também tem como objetivo dar vez e voz às mulheres. A direção é de uma mulher e o texto, de uma mulher negra.
A dançarina enfatiza que esta não é exatamente a sua própria história, mas sim de toda uma comunidade negra. "São situações relacionadas ao que a gente passa, não exatamente da mesma forma, mas são da vida da mulher negra. Isso tudo nasce da gente não se ver nas histórias que nos contam como crianças ou nas que não nos contam."
Sobre o grupo
O grupo Tatá foi criado em 2009, sob coordenação da artista e professora Maria Falkembach, como um espaço de criação cênica para alunos dos cursos de Dança e Teatro da UFPel. Suas obras anteriores marcaram a cena artística de Pelotas e região: Tatá dança Simões (2010), Terra de muitos chegares (2013), e Quando você me toca (2018). Em 2020, o grupo criou sua primeiro videodança: Endless - ou esqueci de lembrar. Em 2022 lançou a obra Quando Você me Toca - versão em vídeo e Axêro - o filme.
Serviço
O quê: espetáculo Axêro, do grupo Tatá
Quando: na quinta-feira (30), sexta-feira (1º, de dezembro) e sábado (2, de dezembro), às 20h
Onde: no espaço-sede da Outro Dances, praça Sete de Julho, 36, Sala 102 - em frente ao Mercado Público de Pelotas
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos: R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia entrada)
Garanta seu ingresso: https://forms.gle/9s8Nc7ihaADhxVNM7
Apoio: Centro de Artes - UFPel e Outro Dances
Contato: 53 984376773
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