Artes Plásticas

Exibição inédita traz a arte gráfica produzida por Magliani a Pelotas

Malg/UFPel recebe cerca de 70 obras da artista nascida no município; a mostra itinerante é uma realização do do Sesc-RS em parceria com o Instituto Estadual de Artes Visuais

Fotos: Carlos Queiroz - DP - Conjunto de gravuras foi produzido pela artista no final da sua vida, entre os anos de 2008 e 2012

A pelotense Maria Lídia Magliani está de volta à terra natal por meio de uma exposição inédita, a partir de um recorte na intensa e variada obra da artista falecida em 2012. Magliani obra gráfica, que está no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo da Universidade Federal de Pelotas (Malg/UFPel), surge por iniciativa do Núcleo Magliani, com realização do Sesc-RS em parceria com o Instituto Estadual de Artes Visuais, instituição vinculada à Secretaria de Estado da Cultura (IAV/Sedac-RS). A visitação pode ser feita até o dia 28 de janeiro de 2024, na praça Sete de Julho,180, de terça a sábado, das 12h30min às 18h. A entrada é franca.

A exposição tem foco em um conjunto de 78 gravuras, especialmente xilogravuras, produzidas pela artista, sobretudo no final da carreira da artista, entre os anos de 2008 e 2012, no Estúdio 19, na cidade do Rio de Janeiro. Mas traz ainda obras criadas com outras técnicas, explica o curador Julio Costa.

Por exemplo, a mostra traz ainda algumas pinturas, que pelo traço se assemelham a uma gravura. Concomitantemente à produção gráfica Magliani produziu muitas pinturas. "Ela conseguia manter as linguagens em simultâneo, mas em alguns momentos uma linguagem contaminava a outra", comenta Castro, que é gravador e era encarregado pela artista de imprimir a maior parte desta produção, quando os dois dividiram o mesmo ateliê na capital carioca.

Algumas das obras também foram impressas postumamente por Julio Castro, através do Núcleo Magliani, fundado por ele após a morte de Maria Lídia. O projeto é um centro de referência da obra da artista desde 2013.

O Núcleo Magliani funciona no Estúdio Dezenove e tem apoio oficial da família de Magliani. Com a missão de preservar e difundir o acervo deixado pela artista, reúne pinturas, desenhos, gravuras, documentos pessoais e material de referência da obra, onde anteriormente foi seu atelier. "Fiz um contrato de parceria com os herdeiros que me permitiu pesquisar, divulgar, promover a obra dela. O Núcleo existe porque há essa concordância e parceria fluída com os herdeiros", comenta Castro.

A mostra, que homenageia a pintora, desenhista, gravadora, ilustradora, figurinista e cenógrafa, iniciou-se por Pelotas. Com caráter itinerante, no próximo ano a exibição passará por Caxias do Sul e Santa Maria. O encerramento será realizado em Porto Alegre. A diretora do IAV, Adriana Boof, destaca a importância de mostras como essa saírem não ficarem só na capital. "Descentralização, resgate, a gente poder circular com Magliani, essa artista importante, a ideia é poder cada vez mais ajudar a fazer essa descentralização. Existe uma carência no interior do Estado, isso ajuda a ajuda a ativar a cultura nos locais."

Marcas da infância

Maria Lídia Magliani nasceu em Pelotas, mas a família da artista se mudou para Porto Alegre quando ela era criança. Mesmo assim, a cidade natal marcou a sua vida e de alguma forma essa referência aparecia na sua obra. No texto de abertura da exposição, assinado por Julio Costa e por Sérgio Viveiros, os curadores abordam que: "no fundo tudo tudo estava aqui, os pêssegos maduros, as pompas fúnebres da praça Coronel Pedro Osório, isso nunca saiu ela".

"Volta e meia ela se referia a isso, tanto que nós temos uma ligação forte com Pelotas pelo imaginário que ela nos passou", comenta Viveiros. Ela chegou a ganhar o título de duquesinha do Pêssego, com menos de cinco anos, e, refletem os amigos, essas coisas nunca saíram do seu imaginário. "Ela chegou a comentar conosco que não voltaria à praia do Laranjal, porque a que ela conhecia não era mais a mesma. Ela queria guardar na memória aquele lugar da infância", recorda Viveiros.

Sérgio Viveiro relembra que Magliani teve uma vida sofrida em alguns momentos, mas sempre guardou o que eles chamam de "chic pelotense". Extremamente culta e educada, falava francês fluentemente, além do italiano e espanhol e, por sua personalidade forte, é descrita como uma pessoa ímpar. "Ela me forneceu um ponto de vista a mais sobre as coisas da vida, de como se colocar no mundo como artista, como se manter e não ceder a tentações fáceis, a recursos fáceis. Tinha uma integridade forte como artista e pagou um preço alto por isso", diz Castro.

Como uma mulher e negra teve de enfrentar por vezes o preconceito e a desconfiança, mas, os amigos dizem que se mantinha altiva, sem perder a elegância, manteve-se íntegra no propósito de ser artista e de construir uma obra. "Ela sempre frisava que o negro poderia entrar em qualquer espaço e ser um ser universal. Dizia: 'Não admito ser fatiada, ser engavetada'. Não admitia que se colocassem o negro como um ser folclórico ou estereotipado, que fizesse apenas a arte afro-brasileira. Ela era uma pessoa de ponta, o pensamento dela era muito avançado para a sua época", comenta Sérgio Viveiros.

A formação artística passou pelo Instituto de Artes em Porto Alegre, tornando Magliani a primeira aluna negra a se formar na Escola de Artes da UFRGS. Mesmo afastada da terra natal, Magliani expôs muitas vezes em Pelotas, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, quando a cidade viveu uma grande efervescência das artes plásticas.

Em 1966, ainda estudante, realizou sua primeira exposição individual e, ao longo do tempo, tornou-se uma figura emblemática da sua geração por ter realizado várias exposições de sucesso nas décadas de 1970 e 1980 em Porto Alegre. Além de reconhecida pintora, trabalhou intensamente no teatro e foi ilustradora nas redações dos jornais Folha da Manhã e Zero Hora. Ainda era atriz e estreou textos dramáticos como Medeia e O negrinho do pastoreio.

 
Multitalentos

Pintora, escultora, desenhista, gravadora, ilustradora, figurinista e cenógrafa, Magliani produziu muito ao longo dos anos, especialmente na área da pintura. Segundo Julio Costa, apesar dos multitalentos, considerava-se uma pintora. "Essa exposição faz um recorte dentro desse grande lastro produtivo", fala Castro.

Essa obra, apesar de estar em acervos de importantes museus brasileiros, como: Museu de Arte Moderna de São Paulo, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Artes do Rio Grande do Sul (Margs), Museu de Arte Contemporânea (MAC/RS), Museu Afrobrasil (SP e BA), Fundação Vera Chaves Barcelos (RS) e Malg, entre outros, também está espalhada por coleções públicas e privadas pelo país.

Para promover o Núcleo Magliani, Castro mapeou coleções em busca dessas referências, trabalho de pesquisa que foi a base da retrospectiva do ano passado na Fundação Iberê. "Até então eu tinha mapeado quase 200 coleções, entre públicas e privadas, de uma a duas obras, até coleções de maior porte. Dá pra dizer que o Margs seja o que mais tenha obras da Magliani e a do Museu Afrobrasil de São Paulo também é bem significativa", diz o curador.

Castro conta que a proposta desta exposição é criar uma relação, entre as gravuras, que na época ela produziu, com a obra pictórica. "Tem uma pintura aqui que as pessoas acham que é uma gravura, mas é uma pintura, onde é possível perceber uma relação com o corte da madeira, onde há uma repetição dessa pincelada curta, que se pode pensar que é um gesto gravado", explica.

Sobre as influências absorvidas pela artista, Castro destaca a do desenhista, ilustrador e gravador brasileiro Oswaldo Goeldi. "Ela cita que Goeldi foi a maior influência na pintura dela. Goeldi é realmente um um dos grandes artistas do movimento expressionista no Brasil, um gravador por excelência. É curioso pensar que ela, como pintora, destaca Goeldi como uma das principais influências como artista."

Mas dá para citar o holandês Van Gogh e o austríaco Axl Leskoschek. Magliani trazia para a própria obra o repertório do drama expressionista. Porém, como uma artista que mostrava diferentes facetas criativas, no final da vida surpreendeu seus admiradores com obras mais líricas e menos dramáticas.

Viveiros destaca o legado de Magliani como atual. Ele cita como exemplo o fato de obras da série Os dançantes (2009/2010) ilustrarem uma exposição sobre o funk no Museu de Arte do Rio. "As pessoas ficam espantadas quando descobrem que a autora nasceu em 1946."

O curador ainda comenta que jovens artistas estão descobrindo Magliani. "Tanto é que no Núcleo Magliani recebemos várias solicitações de pesquisas para teses e dissertações sobre ela. A Universidade de Jaguarão deu o nome dela para a galeria da Universidade, Galeria Intercultural Magliani. Há um movimento de permanência da obra, um reconhecimento dessa produção", fala Viveiros.


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