Restauração
Teoria e prática para salvar acervo histórico do Rio Grande do Sul
Projeto de Extensão traz ao curso de Conservação e Restauração da UFPel relíquias oriundas das Missões Jesuíticas gaúchas, que estão sendo restauradas neste semestre
Foto: Jô Folha - DP - Imagem de Santo Isidro, que deu início ao projeto, foi pintada de forma equivocada e vai passar pela remoção da atual pintura
Por meio de acordo de cooperação técnica com o Museu Antropológico Diretor Pestana, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do RS (Unijuí), o curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis, da Universidade Federal de Pelotas, está restaurando um dos acervos mais antigos e importantes que já passou por esta unidade acadêmica. Trata-se de dez obras, a maioria são imagens de santos, do século 18, mais especificamente, oriundas das Missões Jesuíticas, na região noroeste do Rio Grande do Sul. O projeto de Extensão começou a ser feito em junho e deve ser finalizado no início do próximo ano.
De acordo com a professora Daniele Fonseca, Doutora em Memória Social e Patrimônio Cultural, que coordena este trabalho, o primeiro contato feito pelo Museu tinha o objetivo de recuperar uma imagem de Santo Isidro, que foi pintada equivocadamente. Uma pintura inadequada tirou o valor histórico da peça e no momento em que a direção da entidade percebeu o equívoco, recorreu ao curso da UFPel para que o problema fosse resolvido. Por fim, foram enviadas outras nove esculturas. Das dez obras, três delas não são missioneiras, as outras sete possivelmente são do período.
Para que aconteça a parceria é necessário que a entidade tutora das obras transporte o material para a Universidade e faça a doação dos materiais necessários ao trabalho. A UFPel entra com a mão de obra especializada, além da participação dos alunos em treinamento.
As maiores peças são: um Santo Isidro e uma imagem de Nossa Senhora da Glória, esculpida em um tronco maciço e que deve pesar em torno de 250 quilos, a mais pesada que o laboratório já recebeu, além de um anjo missioneiro e um castiçal, também em madeira. Juntos com elas, foram trazidas três esculturas missioneiras pequenas.
O laboratório de restauro atende, entre outras especificações de materiais, obras em madeira, até mesmo mobiliários, mas por causa do tamanho, este tipo de restauração é mais restrita. Para os próximos anos, a professora quer ampliar o atendimento para as esculturas em gesso, que têm bastante mercado em Pelotas, por este motivo é importante que os alunos tenham contato com o trabalho neste tipo de material.
As obras são possivelmente do século 18, do fim do período missioneiro, comenta a professora Daniele. Para que as datas de construção das peças fiquem mais precisas, foi acionada a professora Patrícia Bilhalva, do curso de Engenharia Madeireira, que vai fazer a análise das madeiras. “A Patrícia vai fazer uma análise morfológica para identificarmos os gêneros das madeiras, a maioria consta como cedro, mas só de olhar vemos que não, até por diferença de peso entre elas, isso ajuda também a identificar o que de fato é missioneiro”, explica a professora.
O trabalho ainda envolve um processo rigoroso de documentação, a partir do controle das cores, exames com luz ultravioleta, que ajuda a identificar contaminações biológicas e até mesmo o estado de envelhecimento das camadas pictóricas, além do infravermelho que pode mostrar algum desenho por baixo das tintas. “Essas esculturas missioneiras, de um modo geral, refletem o que aconteceu na história das Missões. Não são esculturas que chegam muito conservadas, a gente olha para elas e vê um pouco do reflexo da guerra que aconteceu. Porque elas passaram muitos anos abandonadas ou foram escondidas no mato, tiveram dentro de igrejas ou capelas que incendiaram, tudo isso reflete no aspecto que elas têm hoje e isso não é apagado.”
As marcas do tempo são vistas pelos restauradores como uma forma de entender o contexto histórico no qual aquela peça esteve inserida. Daniele lembra que estas imagens não estão, atualmente, em um contexto religioso ativo, ou seja, não são mais usadas em celebrações ou cultos, diferentemente do tratamento que se dá a uma peça que está em uma igreja, por exemplo. “Aqui é mais o interesse do Museu em preservar questões históricas e etnográficas.”
Neste caso o trabalho que está sendo feito é de consolidação. Por exemplo, uma das peças que tem danos causados por cupins terá as falhas preenchidas para que a imagem não se quebre, mas esteticamente essa interferência vai aparecer. Fortalecendo a ideia de que a restauração não pretendia levar a obra a seu estado original, a intenção é preservar o que se tem. “Esse tipo de acervo a gente não tem na nossa região do Estado, é a primeira vez que estamos recebendo aqui no curso. Para os alunos é muito interessante”, comenta Daniele.
A intenção é que ao final do trabalho as peças sejam apresentadas ao público do município, em uma exposição. “Isto já está acertado com o Museu, vamos montar uma exposição para mostrar as esculturas e o processo de restauração, conversar com as pessoas sobre esse aspecto da aparência das obras, que é importante para se entender porque se restaura desta forma.” A proposta também vai proporcionar que pessoas da Zona Sul conheçam um acervo que não costuma ser trazido para a região.
Material de pesquisa
Cerca de 20 alunos estão trabalhando em duplas nestas obras, uma produção de conhecimento que vai da prática à teoria, na produção de um farto material acadêmico, entre estudos de caso até Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC). Outro professor envolvido, Bruno da Silveira Noremberg, que ministra a disciplina de Química do curso, pós-doutorando no Programa de Pós-graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, que vai capitanear o desenvolvimento de estudo sobre as tintas, dos materiais que foram utilizados nas obras.
O objetivo é identificar, por exemplo, que aglutinantes e pigmentos eram usados nas tintas, a fim de compor um volume de documentos que ajudem a entender a sequência de pinturas pelas quais as peças passaram naquela época. A pintura do Santo Isidro, neste caso, será removida para que o estado mais próximo do original apareça.
Para isso foi feito um estudo para se descobrir qual o solvente mais adequado para se remover aquela camada de tinta. “Neste caso é mais tranquilo porque a gente consegue remover, mas se tu faz uma intervenção com um material irreversível você só pode remover mecanicamente, o que vai danificar ainda mais as camadas que estão em baixo, que era o que deveria ser preservado”, comenta o professor Noremberg.
Em função de acontecimentos como esse, Daniele faz um apelo para que as pessoas não saiam pintando ou fazendo intervenções em obras antigas. “Uma pintura original descascada pode valer muito mais do que com uma pintura comum por cima.”
Na prática
Aluna do terceiro semestre do curso e monitora da disciplina de restauro em madeira, Lilia Waltzer está começando nas práticas e justamente neste projeto, o que a deixou encantada com o trabalho que está sendo desenvolvido. “Ainda não tinha trabalhado com esculturas em madeira. Estou adorando, é muito interessante ver todo o trabalho do pessoal.”
O laboratório do curso ainda tem a coordenação da restauradora Kelly Scolari, que já trabalhou com obras missioneiras do Museu de Artes do Rio Grande do Sul (Margs), antes de entrar para a UFPel. “É um trabalho que, quando tem intervenção é difícil, como é o caso deste Santo Isidro, é bem desafiante.”
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