Recomeço

A chance de uma nova história

Despejado há três semanas, Elói Brasil passou a morar na rua e busca nova casa para viver

Carlos Queiroz -

A pandemia gerou uma crise econômica capaz de tirar o emprego de muita gente. Uma destas vítimas foi Elói Brasil, 50, morador de Pelotas. Demitido no final do mês passado, sucumbiu às dificuldades financeiras. Sem renda, foi despejado da casa onde morava e passou a procurar abrigo na rua. Sem pensar em deixar para trás as duas cachorras que fazem companhia, improvisou uma pequena barraca de lona em um banco da Praça Piratinino de Almeida e, ali, tem buscado sobreviver aos dias de frio. Pela primeira vez na vida, se viu sem casa.

Brasil conta que até então trabalhava como profissional de lavagem de carros, caminhões, entre outros automóveis. Após o desligamento, as contas foram se acumulando, a ponto de não conseguir mais pagar o aluguel. "As dívidas estavam crescendo. O senhor que era o proprietário me tratava bem, mas eu não tinha como pagar e não podia deixá-lo na mão. Eu tava desempregado, não tinha nenhuma alternativa. Peguei meus bichinhos e vim embora."

Morando pela primeira vez na rua, Brasil acabou recebendo ajuda da comunidade. Seja em doação de roupas, da lona que o ajudou a improvisar uma barraca para dormir ou, até mesmo, na entrega de refeições. Até ração para suas cachorras lhe foram entregues. "As pessoas estão me ajudando. Nessa crise, é muito mais difícil. Eu pensei que não ia conseguir. Pensei que ninguém fosse olhar pra mim, que não fosse conseguir ajuda. Mas decidi esperar e rezei bastante. Agradeço bastante a todas as pessoas que me ajudaram e a Deus, que não me deixou faltar nada", destaca.

Pouco antes de ser despejado, o trabalhador desempregado procurou a Secretaria de Assistência Social (SAS) em busca de auxílio. Não para ele, mas para as cachorras Fri e Meggie. "Não queria deixá-las na rua. Infelizmente, tem pessoas que não cuidam e que acabam maltratando os animais. Queria que a secretaria pudesse cuidar, não tinha como ir com elas pra rua", explica. Na busca por ajuda aos animais, conheceu Viviane Ficca, que atua na secretaria. Ela conta que, diante da situação de despejo e preocupação com os animais, passou a apoiar Brasil. "Quando ele foi despejado, saíram ele, a bicicleta e as cachorras da casa. Fiz uma postagem no Facebook e conversei com algumas pessoas e criamos uma verdadeira corrente do bem, que o ajudou com alimentos, roupas e outros mantimentos para que pudesse viver enquanto procurávamos solucionar a situação dele", explica Viviane.

Em busca de uma nova oportunidade

Diante do momento de dificuldades vivido por Brasil, a comunidade resolveu ajudá-lo com mais que doações. Foi criado um grupo no WhatsApp, com uma vaquinha que conseguiu arrecadar fundos para alugar uma casa nova para o trabalhador desempregado morar com as cachorras. O dinheiro já foi recolhido e agora falta apenas a definição de qual imóvel será a nova moradia. Além da quantia para o novo aluguel, a mobilização também resultou na doação de móveis, ou seja, ele irá alugar uma nova residência já mobiliada.

Brasil ainda foi inscrito no programa de auxílio emergencial do governo federal e deve receber os repasses em breve. Segundo Viviane, ele foi integrado ao plantão social da SAS, que realiza acompanhamento. E não foi só Brasil que recebeu ajuda da comunidade. Suas cachorrinhas também receberam atenção especial. Além da ração doada neste tempo nas ruas, na quinta-feira elas foram castradas e estão prontas para o novo lar.

"Tô contente, na espera de uma casinha pra mim. Sempre pensei que preciso trabalhar, manter a cabeça no lugar. Quero trabalhar pra valer e suar a camisa. Tô muito feliz com todo mundo que me ajudou e com todos que se esforçaram para me dar esse auxílio. Na expectativa de ir com meus bichinhos, que tanto cuidei. Elas são muito especiais pra mim", diz o trabalhador, ansioso por trocar a barraca de lona por um teto de verdade e reconstruir a vida. Com um emprego, claro.

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