Criatividade

A história do bloco de um homem só

Aos 88 anos de idade, Rodolfo Araújo inventa instrumentos caseiros, músicas e distribui aos vizinhos na rua onde mora

Carlos Queiroz -

Não é à toa que muitos falam que a terceira idade é a melhor de se viver. Para Rodolfo ‘Xavante’ Araújo, de 88 anos, esse momento é o que reflete todo o aprendizado conquistado nos anos anteriores de vida. Musicista e artesão autodidata, fora muitas outras funções, ele tem passado a pandemia em casa, criando o que lhe dá alegria. “Completei no dia 5 de setembro 88 anos, sou casado há 62 anos com a minha esposa e tô naquela idade que nós precisamos aproveitar a vida”, define-se.

Seu Rodolfo é uma figura conhecida na rua onde mora há mais de 30 anos. Durante o tempo que a reportagem esteve no local, mais que meia dúzia de vizinhos passaram com saudações. O musicista também é conhecido nas arquibancadas do estádio Bento Freitas, lar do Xavante, o time do coração que dá cor não somente às roupas, como para as invenções do idoso. O mais novo invento é uma bicicleta que leva música para todas as casas da rua. “Eu não sou cantor, não aprendi nada de música em escola, mas adoro cantar e fazer música”.

Em cima da amiga de duas rodas, Rodolfo leva um rádio antigo que a filha não usava mais, um microfone atado no peito com a ajuda de uma gambiarra com dois elásticos e uma espuma, um pandeiro e um timbal. Juntos, a nova invenção dá som a um pequeno bloco carnavalesco, formado por um homem só. “Desde pequeno participei dos desfiles de carnaval, principalmente do Bafo da Onça, meu bloco. É uma beleza estampar a felicidade do amor ao bloco na camiseta”, lembra. Quem não pode deixar de passear junto é a cegonha: feita de madeira e acompanhada das bonecas rubro-negra; o objeto é característica principal do passeio.

A pandemia da Covid-19 forçou um distanciamento social, principalmente por Rodolfo pertencer aos grupos de risco da doença. Mas ele não se importou, o gosto é por ficar em casa, cuidando da esposa e dedicando tempo às invenções. Nos últimos anos, também criou a ‘violeta’, um violino de uma corda só, e um cavaquinho. Fora os objetos em madeira, como os caminhões e carrinhos para crianças.

“Já trabalhei como alfaiate e costureiro, engenheiro, trabalhei em fábrica de óleo e de lata, em farmácia e na ferramentaria da Escola Técnica. Nisso tudo aprendi muita coisa. Quando vem uma ideia na cabeça faço essas coisas todas”, conta, recordando os tempos de anos atrás, como os que passou no atual Instituto Federal Sul-riograndense (IFSul).

Por mais que a vida com a música lhe dê bastante alegria, seu Rodolfo leva consigo muita tristeza dentro do peito. A esposa, Iolanda, está com Alzheimer e precisa de cuidados constantes. Atualmente, ele é pai de três filhos - “duas gurias e um rapaz”, como conta - e, anos atrás, um dos rapazes acabou se suicidando. “Passei por muita coisa ruim, hoje ando bastante esquecido por causa da idade. E faz parte. Agora precisamos aproveitar a vida”, completa.

Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

Força Nacional vai reforçar combate aos incêndios no Pantanal Anterior

Força Nacional vai reforçar combate aos incêndios no Pantanal

Pelotas está na bandeira laranja pela sexta semana seguida Próximo

Pelotas está na bandeira laranja pela sexta semana seguida

Deixe seu comentário