Afeto

Acolhida que transforma vidas

Programa “Família Acolhedora” proporciona amparo a crianças e adolecentes que seriam encaminhados para abrigos do município

Carlos Queiroz -

Em março deste ano, o programa “Família Acolhedora” completou quatro anos em Pelotas. Desde lá, tem garantido acolhimento, afeto, amor e carinho, a crianças e adolescentes afastadas de suas famílias por decisão judicial. A iniciativa proporciona um lar provisório a menores que seriam encaminhados para um abrigo. Bom para as famílias, melhor ainda para o desenvolvimento dos acolhidos.
“O interesse inicial é ajudar, mas depois percebemos que quem recebe a ajuda somos nós, que começamos a dar valor para outras coisas”. Esse é o relato da Kelly Carvalho, 40 anos, uma das participantes. Há três anos no programa, já acolheu nove crianças e atualmente está abrigando duas, com 11 e 15 anos. Uma está há cinco meses sob seus cuidados e a outra há um ano e meio. Mãe de outros cinco filhos com idades entre sete e 22 anos, ela conta que a integração entre eles acontece de forma positiva e natural. A fala é confirmada quando o pequeno Gael de apenas sete anos - um de seus filhos - responde: “é tudo a mesma coisa, tudo irmão”.
A servidora pública diz que ao prestar acolhimento é possível proporcionar uma mudança na vida de cada um, já que em alguns casos, a bagagem negativa dos menores que muitas vezes passaram por algum trauma ou não receberam o carinho de uma família se torna evidente. “Eles vêm com medo, tristes, não confiam, não sabem limites e tu tem o poder de transformar essa criança e dar aquilo que ela não teve”, comenta Kelly. Ela ainda conta detalhes sobre o processo de acolhimento. “É muito boa essa troca, mas tem muita conversa, muito diálogo, exige paciência e dedicação. É muito satisfatório ver o desenvolvimento deles depois”, finaliza.
Feliz, a adolescente de 15 anos, uma das acolhidas, classifica o programa como ótimo. “O primeiro dia que eu vi a Kelly, achei que não iria dar certo. Dá! E é muito melhor ter uma família do que num abrigo. Confio e admiro muito ela”, comenta.

Impacto em Pelotas

Desde sua implantação no município, 157 crianças e adolescentes com idades entre zero e 18 anos já foram acolhidos pelo programa. Atualmente, 25 estão abrigados nesses lares provisórios. Segundo a coordenadora e assistente social do projeto Mariângela Sposito, o número caiu consideravelmente na pandemia. Mesmo assim, das 20 famílias aptas para o acolhimento, apenas quatro estão disponíveis, as demais se encontram prestando assistência aos menores. Sempre há famílias em processo de habilitação, fazendo com que o número aumente. Cada família recebe o auxílio de um salário mínimo por criança acolhida. São verbas da União. Além disso, cada família pode receber mais de uma criança por vez.

Como funciona


Ao serem afastadas de suas famílias por estarem em situação de risco, os menores são encaminhados para abrigos ou para os lares das famílias acolhedoras. Para a juíza da Infância e da Juventude, Alessandra Couto, o programa tem o intuito de substituir os abrigos. Ela destaca a eficácia da iniciativa na formação das crianças e adolescentes por conta do cuidado individualizado proporcionado pelo Família Acolhedora, algo que em um abrigo não ocorreria.”Eu acredito muito neste programa. Estudos da neurociência percebem como o afeto ajuda no desenvolvimento delas”, comenta Alessandra.
Depois que os menores são encaminhados para as famílias, inicia o processo de acompanhamento. Tanto do menor, como da família que está acolhendo e a família biológica. Uma equipe com psicólogo, pedagoga e assistente social faz esse monitoramento. Para Alessandra, é muito importante que mais famílias se candidatem para participar do projeto. Caso haja interesse, é necessário ir até a Secretaria de Assistência Social (SAS) do município e informar a vontade. Logo após é necessário levar os documentos solicitados para dar início ao processo de habilitação que consiste em uma avaliação social e psicológica, além de um curso de capacitação. Ao final, a equipe do programa emite um laudo informando se a família está ou não apta ao acolhimento.
A juíza ainda conta que podem participar casais ou pessoas solteiras, que possuam ou não filhos, mas é obrigatório que todos da casa estejam aptos e de acordo com a entrada no programa. Outra regra importante é que a família interessada não pode estar cadastrada para adoção já que o acolhimento é algo apenas provisório e não definitivo. Os menores ficam sob o cuidado das famílias durante o andamento do processo jurídico que definirá se a criança ou adolescente retorna para a família biológica ou será encaminhada para adoção. Em média, esse processo tem duração de seis meses, podendo se estender no máximo até dois anos.
Com a ajuda do programa, atualmente em Pelotas, não chega a 25 o total de crianças ou adolescentes nos três abrigos da cidade. Este número poderia ser menor, mas elas acabaram não sendo incluídas no programa devido à adaptação ou por não se incluírem no perfil das famílias acolhedoras.
O secretário de Assistência Social, José Olavo Passos, conta que o programa já existia em outras cidades como Porto Alegre e Santo Ângelo antes de ser instituído em Pelotas. Para ele, o programa pode ser considerado um sucesso devido ao desenvolvimento proporcionado na vida dos acolhidos e também pela forma como é conduzido pelas equipes. “Qualquer processo exige adaptação e muitas vezes traz medo. Esse acolhimento proporciona um contexto familiar e evita a institucionalização dessas crianças e adolescentes, algo que é muito ruim, péssimo”, ressalta Passos.

Sobre o apego entre acolhedores e acolhidos


Ainda existe muito receio das famílias e da comunidade em geral com relação ao medo de se apegar com os menores, já que em algum momento eles irão precisar deixar o lar provisório.
Segundo a psicóloga do Família Acolhedora, Mariza Legemann, a construção e o rompimento de vínculos fazem parte do desenvolvimento. Ela destaca que as famílias não precisam ter receio de acolher, pois é para “um bem maior”. “É preciso perceber a importância deste momento, que é a possibilidade de ver a criança se desenvolver em uma família”, comenta Mariza. Ela ainda ressalta que o programa é acompanhado por equipe de profissionais que auxilia no processo de acolhimento.

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