Presencial
Ainda superando os obstáculos da pandemia
Faculdade de Odontologia da UFPel passou por reformas em sua estrutura para retomar as aulas práticas e o atendimento à população
Carlos Queiroz -
Por Vitória Leitzke
vitoria@diariopopular.com.br
Referência para a Metade Sul do Rio Grande do Sul, os atendimentos no Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) Jequitibá, localizado no campus da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), vêm sendo adaptados para seguir recebendo pacientes de média complexidade mesmo durante a pandemia. Paralelo a esse cuidado aos moradores de Pelotas e região, o cuidado com alunos, professores, servidores e terceirizados também está fazendo com que haja adaptações na estrutura do prédio, oferecendo esperança para aqueles que tanto sonham em se graduar.
O diretor do curso, Evandro Piva, explica que a Odontologia é um dos cursos mais impactados pela Covid, sendo a única profissão da área da saúde que lida com paciente sem máscara durante os procedimentos. “A gente lidou com desafios como hepatite, Aids, mas eram todos ligados a fluídos, sangue, saliva. Dessa vez é pelo ar, não sabemos se está vindo uma terceira onda, então temos que ser conservadores, seguindo a lógica de ter uma retomada gradativa das atividades”, afirma.
Segundo Piva, segunda-feira (9) retornaram os alunos do 3º, 4º e 7º semestres. Para esse retorno, que também já incluiu alunos do 9º e 10º semestres, foram instaladas divisórias de acrílico em bancadas de procedimentos para proteção e transformadas clínicas comunitárias em consultórios individualizados. Além das mudanças físicas, uma outra alteração feita na rotina do campus é em relação ao uniforme - o tradicional branco foi substituído por roupas hospitalares azuis disponibilizadas para as equipes. Após o uso, o material é encaminhado a uma lavanderia.
“Dependemos muito de estrutura para aula prática, nosso currículo não tem como avançar porque ele está interligado com práticas, então damos todas as aulas na internet e quando chega o momento de fazermos a prática, a disciplina tranca”, destaca o diretor, que frisa que o baixo orçamento do curso é um grande agravante: antes o orçamento mínimo era R$ 400 mil por ano e, até o momento, a gestão conta com pouco mais de R$ 100 mil.
“Estamos sobrevivendo este ano com a economia do ano passado. O que me preocupa é a sustentabilidade desse sistema. Nós estamos com custos operacionais elevadíssimos, somos uma das únicas faculdades de Odontologia que ainda recebe praticamente 100% SUS. É um grande alerta em relação ao ano que vem, porque para fazermos o curso seguir funcionando, vamos ter que inovar”, comenta Piva.
Atualmente, o CEO Jequitibá é o segundo local referência para procedimento de média complexidade para a prefeitura. Durante a pandemia, serviços de radiologia, patologia, residência em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial e de residência em odontopediatria seguiram de forma reduzida. Enquanto antes da Covid-19 o prédio recebia em torno de 200 pessoas para atendimento de urgência para livre demanda, hoje são recebidos apenas pacientes referenciados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
A chefe do setor de Saúde Bucal da SMS, Letycia Gonçalves, conta que a demanda para agendamento de atendimentos odontológicos nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) está bastante elevada. “Observamos um acúmulo de demanda reprimida por serviços odontológicos. Casos que poderiam ser facilmente resolvidos de forma conservadora, agora necessitam de tratamentos mutiladores. Teremos que intensificar ainda mais a prevenção para evitar o agravo dos problemas de saúde bucal no município”, alerta.
“Esses agendamentos ocorriam em até 15 dias antes da pandemia. Hoje, em muitos locais, o usuário precisa aguardar um mês para a consulta. Além dos atendimentos agendados, os dentistas precisam atender as situações de urgência, que também aumentaram”, ressalta Letycia. Em relação aos atendimentos no CEO Sorrir, o tempo de espera para realização de procedimentos especializados também aumentou em cerca de quatro meses.
A angústia de uma graduação cada vez mais distante
A preocupação para os alunos do oitavo semestre é ainda maior. É o caso do aluno Gabriel Schimitt, que não vê uma perspectiva de conclusão do curso, anteriormente prevista para este mês. “Quando a faculdade parou e perdemos a previsão do retorno, o meu mundo desabou e o que eu estava vivendo parou de fazer sentido”, desabafa.
“Quando a maior parte das demais profissões teve que se adequar dentro das mais diversas dificuldades, a nossa educação pública e de qualidade nos deixou na mão. A faculdade perdeu o sentido, a profissão perdeu o sentido e a minha vida perdeu o sentido também. Nós nos sentimos abandonados e sem perspectiva. Ou seja, não só por conta da Covid-19, minha vida ficou refém do calendário de nossa faculdade de Odontologia, onde muitas vezes pensei em desistir, pois não me sentia mais vivo”, complementa.
Conforme o diretor da Odontologia, um imprevisto administrativo atrasou o retorno das atividades práticas para este semestre, porém ele afirma que o colegiado do curso e o departamento envolvido já estão buscando uma solução para ofertar a disciplina o quanto antes. A previsão de volta presencial para essa turma é no próximo mês.
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