Inclusão
Alternativas em braille ainda são raras
Poucos são os bares e restaurantes que oferecem cardápios com acessibilidade
Jô Folha -
Ler liberta. Não apenas a literatura, ou o conhecimento geral. Qualquer leitura, da Metamorfose de Kafka ao cardápio que apresenta a kafta no restaurante, é ela quem faz o sujeito tornar-se dono da situação - da vida ou da escolha do prato da noite - pelo poder da informação. E todo mundo tem que ter esse direito: por isso, nessa semana foi celebrado o Dia Mundial do Braille, sistema de escrita e leitura utilizado por pessoas cegas ou de baixa visão. Em Pelotas, porém, não é fácil encontrar essa opção.
O diretor da Escola Louis Braille, Dilmar Rodrigues, relata que a instituição oferece o serviço de impressão de cardápios, folhetos e outros produtos gráficos com a linguagem em braille para empresas. Mas, até hoje, foram poucas as que solicitaram o material. “Fizemos para o Sebrae, apenas, que produziu para empresas. E percebemos que é algo que faz falta, em restaurantes, bares, trailers e até em hotéis da cidade”, comenta. Atualmente, está com o Congresso Nacional, após aprovação no Senado, um projeto de lei que torna obrigatória a opção em braille de cardápios em bares e restaurantes brasileiros.
Na Imperatriz Doces Finos, doceria presente no Mercado Central, a opção está disponível desde 2019, justamente através da consultoria do Sebrae. O proprietário, David Jesk, conta que a empresa providenciou o cardápio a partir da observação de um cliente cego que estava de passagem por Pelotas. “É um desafio tornar a loja cada vez mais acessível. Estamos nos reinventando sempre que possível”, comenta
Para Rodrigues, além de medidas práticas para aumentar a oferta de leitura em braille, é preciso que as empresas invistam mais em treinamento para os funcionários. “Sempre que vou acompanhado em um restaurante, o garçom pergunta a essa pessoa o que vou querer. É preciso que esses atendentes saibam como lidar conosco e, para isso, é necessário uma orientação.”
Além do braille, a população cega de Pelotas também espera contar com outras formas de acessibilidade para usufruir de serviços de entretenimento. A audiodescrição no cinema e eventos gerais, por exemplo, como cita o instrutor de informática da Louis Braille, Guilherme Pinheiro. “Fora o que é básico e muitas vezes não temos: sinalização para sabermos onde estamos e para onde precisamos ir, além de instrução para os atendentes”, completa.
A pelotense Patrícia Dornelles, de 47 anos, joga luz em ainda outro setor que não costuma contar com tradução em braille: alimentos e medicamentos. “Em alguns até vem, mas são poucos. Acho que principalmente os remédios a gente tinha que ser melhor orientados”, comenta.
Outras demandas
Patrícia salienta que, além da falta de oferta de versões em braille de textos, a população cega encontra outras muitas dificuldades na cidade. Como principais, ela cita melhorias em rampas de acesso, requalificação de diversas calçadas - principalmente da região central e do Pop Center -, além da falta de orientação para motoristas e cobradores do transporte público para lidar com essas pessoas. Já para o diretor da escola Louis Braille, Dilmar Rodrigues, seria importante que Pelotas pudesse oferecer sinaleiras sonorizadas. “Temos caminhado, em termos de acessibilidade. Mas não a passos largos”, enfatiza.
O que tem sido feito
Em relação a essas demandas, a prefeitura informou em nota ao Diário Popular que “tem trabalhado desde 2017 para promover melhores condições de acessibilidade aos cidadãos cegos, com baixa visão ou algum tipo de deficiência. Nesse sentido, reestruturou o Comitê Gestor Municipal de Políticas de Inclusão das Pessoas com Deficiência através do Decreto nº 6.000, que tem como função promover a articulação dos órgãos e entidades envolvidos na implementação das ações relacionadas à inclusão das pessoas com deficiência, bem como monitorar e avaliar essas iniciativas.”
A prefeitura também informa que existe a demanda por uma sinaleira para cegos tanto na frente da Escola Louis Braille, quanto na General Osório com Padre Felício. “Há a promessa de que quando fosse realizada a compra de nova sinalização semafórica, seria adquirido esse tipo de equipamento, o que não foi possível no ano passado. No entanto, a STT destaca que isso está previsto para ocorrer em 2021”, diz o texto.
Mais prazo
O governo federal prorrogou o prazo para que as salas de cinema do país passem a oferecer recursos de acessibilidade para cegos e surdos. A exigência, prevista na Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, estava prevista para 2020, mas foi postergada para 2023. A justificativa é a necessidade de medidas restritivas e fechamento de salas por conta da pandemia de Covid-19. A decisão é uma Medida Provisória e precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias.
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