Ajuda

Aposentado espera há anos por cirurgia

Com artrose bilateral no quadril, Jorge Nogueira está na fila pelo procedimento desde 2016

Carlos Queiroz -

Em 2012, Jorge Nogueira, de 54 anos, passou a ter dores nas pernas. O que parecia ser um problema pequeno virou um desgaste nos dois lados do quadril e o fez precisar da ajuda de muletas para caminhar. O diagnóstico foi de uma artrose bilateral no quadril. E quatro anos depois, uma solicitação de cirurgia para colocação de prótese foi encaminhada à Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, via SUS. O procedimento ainda não foi feito e a família precisou construir um elevador em casa para facilitar a mobilidade do aposentado.

Há oito anos Jorge trabalhava entregando salgados em comércios, desde aqueles no Mercado Público como em outras partes do Centro da cidade. “Eu andava o Centro todo, conhecia muita gente e muita gente me conhecia”, lembra. Ele e a esposa, a responsável por cozinhar os alimentos que rendiam o dinheiro do mês, tinham mais de 25 clientes. “Um dia, colocando uma lâmpada, eu travei e não conseguia mais andar direito. Hoje preciso de ajuda pra tudo no dia a dia: tomar banho, me deitar, trocar de roupa e até ir no banheiro”, explica.

O negócio caseiro ficou de lado e com as contas apertaram. A esposa resolveu abrir um pequeno comércio em casa, no primeiro piso da residência, localizada na Gotuzzo. As dores no quadril e as dificuldades de locomoção do marido, com os anos, também aumentaram. “Eu passei a dormir e ficar todo o dia no bar. Fiquei uns três anos sem conseguir subir pra minha casa, no andar de cima”, lembra Nogueira. Foi com a ajuda de um primo e de familiares que um elevador foi construído.

Com o improviso de materiais em ferro e uma caixa quadrada de madeira, Jorge voltou a subir no segundo piso da própria casa. “Foi algo muito emocionante. Imagina a tua casa estar tão perto e tu não conseguir ir até ela”. O dia ficou marcado: 3 de março de 2019.

Solicitação de cirurgia foi encaminhada em 2016

Ainda em 2012, quando as dores se iniciaram, o morador passou a visitar médicos em busca de uma solução para o problema. Em 2016 fez exames e foi encaminhado para uma cirurgia traumatológica na Santa Casa. Enquanto aguardava, sem ter como trabalhar, ele se aposentou por invalidez pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), situação que poderia ter sido evitada se não fosse a demora, segundo ele. “Eu trocaria a minha aposentadoria por poder caminhar de novo. Eu quero é estar produzindo, trabalhando”, frisa.

De acordo com as informações da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o procedimento foi solicitado em março de 2016. Depois de quatro anos, Jorge está na posição 416, de um total de 922 pacientes que aguardam o procedimento pelo Sistema Único de Saúde. Ele ainda não recebeu qualquer noticia sobre a cirurgia. E mais: por conta do tempo de espera, o tipo de prótese necessária para o caso pode ter mudado. A nota da prefeitura diz ainda que “a prótese indicada inicialmente pelo médico para o caso é a do tipo acimentada, porém a indicação pode ter mudado com o passar do tempo. Por isso, a situação deve ser analisada pelo traumatologista quando o paciente for chamado para avaliação. Essa análise irá definir se a prótese indicada ainda é a acimentada ou se ele precisa de uma prótese especial. Algumas próteses especiais não são fornecidas pelo SUS”.

Por conta da posição na fila e também da possibilidade de troca do aparelho necessário para o caso, Jorge não possui qualquer tipo de previsão para a realização do procedimento.

Qual o motivo da demora?

Conforme explicou a SMS, a demora para a realização se deu por uma série de fatores. Um deles foi uma incapacidade em alguns momentos da Santa Casa de cumprir o número de cirurgias mensais previstas no contrato firmado com a prefeitura, além dos problemas financeiros do hospital, que é referência em traumatologia no município. Ao todo, o contrato prevê 131 cirurgias eletivas de urgência e emergência ao mês no setor de Traumatologia via SUS.

Os procedimentos que são encaminhados para a Santa Casa pelo Pronto-Socorro de Pelotas, como por exemplo pessoas que passaram por acidentes de trânsito, acabam furando a fila de espera pelas cirurgias eletivas. Este é outro fator apontado pela SMS para a demora na realização do procedimento de Jorge Nogueira.

Por último, a Secretaria de Saúde afirmou que em fevereiro de 2020 lançou o programa Saúde Ativa, que pretendia reduzir a espera por consultas, exames e procedimentos cirúrgicos através do incentivo aos hospitais com recursos próprios do município. Com a chegada da pandemia em Pelotas, no mês de março, o programa precisou ser suspenso, assim como os procedimentos eletivos, que foram retomados há poucas semanas.

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