Um ano de luta, um ano de luto
As estratégias para derrubar a Covid-19
Ampliar todos os esforços para acelerar o Plano de Imunização e um lockdown rigoroso de três semanas despontam como alternativas para reverter o cenário caótico
Jô Folha -
Duas medidas são fundamentais para frear a Covid-19: acelerar a vacinação e lockdown rigoroso de três semanas. A posição é defendida pelo ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), epidemiologista Pedro Hallal. Sem essas duas ações combinadas, cada vez mais o Brasil representará uma ameaça à saúde pública mundial, devido à produção de variantes em série. E Pelotas, claro, não está descolada deste cenário. Pelo contrário.
Esta semana ainda pode se tornar a pior desde o começo da pandemia em número de mortes. Até a tarde desta sexta-feira (26), 27 pessoas haviam sido derrotadas pela doença desde segunda; uma média que ultrapassa os cinco óbitos por dia; a mais trágica desde o mês de junho, quando Pelotas entrava para as estatísticas de mortalidade da Covid-19.
A ocupação de leitos segue acima dos 100%, em Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) e também nas Enfermarias. E o pior: os hospitais chegaram ao limite das estruturas físicas e de pessoal - admite a secretária de Saúde, Roberta Paganini. Ainda assim, o Hospital-Escola (HE-UFPel) tenta abrir mais três vagas para casos graves. "É o pior momento que vivemos até agora", afirma Roberta.
Neste terceiro e último capítulo da série Um ano de luto, um ano de luta, o Diário Popular traz vários alertas e críticas disparados por Pedro Hallal. As preocupações com a saúde mental da população, em especial das crianças, dos adolescentes e dos profissionais de saúde também entram em pauta.
Ações de enfrentamento devem ser equivalentes ao risco de cada ambiente
É preciso apertar o cerco para conter a circulação do coronavírus. As medidas devem ser proporcionais ao nível de risco de cada ambiente. A ressalva é feita por Pedro Hallal, com o peso de quem se tornou referência nacional, ao coordenar o maior estudo brasileiro sobre prevalência do vírus.
Flexibilizações, como as que permitiram a reabertura do comércio esta semana, por exemplo, já viraram inclusive nota do Comitê Covid da UFPel, que teme pelo impacto que está por vir. Ainda assim, são setores com protocolos de prevenção e controle para adotar, à risca. Já as festas clandestinas, que teimam em se disseminar por diferentes pontos do município, e as aglomerações em locais públicos como as praias do Laranjal causam preocupação.
As edições de lockdown, adotadas nos últimos três finais de semana contribuem no processo de contenção da pandemia, mas é preciso avançar. "Esse tipo de lockdown, que na verdade não é um lockdown, é melhor do que nada, mas obviamente é insuficiente".
O epidemiologista também volta o alvo ao setor do transporte coletivo de Pelotas e defende a necessidade de mais ônibus nas ruas para reduzir o número de usuários por veículos. "É um setor que simplesmente não se adapta a nenhuma política pública que seja necessária", sustenta, ao mencionar a força do segmento há mais de quatro décadas.
Fique atento!
1) O uso de máscaras é sim eficiente para barrar a propagação do coronavírus. Com variantes mais violentas, este Equipamento de Proteção Individual (EPI) torna-se ainda mais fundamental.
2) As mensagens que giram, principalmente, em grupos de WhatsApp sobre os efeitos de remédios como Cloroquina e Ivermectina - que ajudariam a prevenir e a vencer a Covid-19 - são falsas. "Temos que acabar com esta falácia do tratamento precoce. Temos que parar de ter medicamento de estimação", reforça Pedro Hallal. Até hoje não há nenhuma comprovação científica sobre o benefício dessas medicações no combate à infecção.
3) Distanciamento social e lockdown são efetivos, sim. "Precisamos parar de fingir que essas medidas não funcionam, enquanto resolveram, no mundo todo, a situação". E mais: os efeitos são positivos nas duas pontas: ajudam a preservar vidas e, com a onda de contaminação em baixa, permitem também a retomada efetiva da economia em menor espaço de tempo.
4) Vacine-se: A imunização em massa irá conter a circulação do vírus e evitar quadros mais graves da doença. Mesmo que alguém já vacinado contamine-se, estará protegido das versões mais agressivas da Covid-19. E uma boa notícia: embora a Ciência indique que o ideal é atingir entre 60% e 70% da população vacinada, já há avaliações que apontam que com uma média de 30% a 40% de imunizados, os números de infectados entraram em queda.
Saiba também
Se adotadas lá no começo da pandemia no Brasil, as políticas de testagem em massa e de rastreamento de contato - ignoradas pelo governo federal - poderiam ter evitado a morte de mais de 200 mil pessoas - enfatiza o pesquisador.
E, para fazer a afirmação, Pedro Hallal leva dois índices em conta. O Brasil possui 2,7% da população mundial. Quando analisado o total de pacientes que não resistiu à doença no país, entretanto, o percentual ultrapassa os 10% das mortes registradas ao redor do globo. "Então, de cada quatro mortes, três não teriam acontecido se a gente tivesse permanecido na média mundial".
Algumas reflexões
- "Não tem como a prefeitura bancar o lockdown como deveria ter sido feito se o governo federal não dá o Auxílio Emergencial para as famílias e para as empresas, como ocorreu em outros lugares do mundo. Então, eu não aponto o dedo para prefeitura de Pelotas".
- "O Brasil acelera para se tornar o maior exemplo de fracasso no enfrentamento da pandemia no mundo todo".
- "Pelotas ouve a Ciência; nem sempre toma a atitude que a gente acha mais adequada. Mas Pelotas não é negacionista, com exceção de um grupo pequeno de empresários, que faz muito barulho com pouca evidência científica".
(Pedro Hallal, doutor em Epidemiologia)
Os efeitos para saúde mental
As crianças, com certeza, são a população mais atingida pelas situações de restrição social. Quem destaca é o professor do programa de Pós-graduação em Saúde e Comportamento da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Luciano Souza. E é fácil de compreender o porquê: eles estão aprendendo a se definir - quem são, como o mundo funciona, como são as relações interpessoais, como são as perspectivas de futuro.
"Eles estão tentando construir referência em um cenário muito incerto e isso pode causar alguns prejuízos na identificação de si, na construção da personalidade", explica o doutor em Psicologia. Já há estudos, em diferentes regiões do mundo, que têm sinalizado para o aumento de casos de ansiedade, de depressão, sensações de aborrecimento, problemas de sono e desatenção. Os indicadores chegam a alcançar 25%, 30%; algo pouco usual entre as crianças.
O alerta também vale para os adolescentes, ressalta o pesquisador. E lembra que a elevação dos níveis de ansiedade pode ser expressa em reações fisiológicas, como palpitação, dor no peito, falta de ar, mão suada e rubor facial.
O período prolongado de pandemia também pode desencadear consequências a quem já possui algum tipo de transtorno mental. A tendência é de que cresça o número de episódios e o quadro se cronifique. Os profissionais de saúde, por exemplo, poderão apresentar sinais de Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
O momento é de luto coletivo - defende Luciano Souza. Pelas milhares de mortes, que espalham sofrimento em todo o país. Pelas saudades dos momentos de encontro, interação social e compartilhamento. Pelas várias situações de vida que deixaram de acontecer. Ainda assim, é possível exercitar características psicológicas positivas; lembra. "As situações de maior calamidade pública são mais propensas ao clima de solidariedade e de aprendizagem comunitária, de cooperação entre pessoas que compartilham dos mesmos valores".
"Vocês acham que vaga de UTI aparece como? É porque o outro paciente que estava ali morreu"
As toucas coloridas com estampas de bichinho são mais do que acessórios. Simbolizam um esforço coletivo para suavizar a tensão, em meio a olhares infantis e expedientes marcados por incerteza e sobrecarga de trabalho. Na manhã da quinta-feira, 18 de março, quando o Diário Popular esteve no Centro Covid, no prolongamento da avenida Bento Gonçalves, já havia seis pacientes acima da capacidade. Ao invés de 27 pessoas, 33 estavam internadas. Mais ninguém poderia ser absorvido.
A limitação não se refere à falta de espaço físico - explicam os profissionais. Vai muito além da disposição em acolher. É preciso ter condições estruturais mínimas e o sinal de alerta já havia soado: faltavam paredes preparadas com entrada para oxigênio. "A gente recebe plantão e entrega plantão, sem parar um minuto. É desgastante? É. Mas como a gente vai deixar? Não tem como; as pessoas precisam de atendimento", resume a técnica em Enfermagem, Letícia Bueno Franz, 37 .
A rotina para combater a Covid-19 jogou os trabalhadores da Saúde em um nível de pressão sem precedentes. São dias divididos entre o alívio e a dor. Dos olhos sorridentes, na despedida do paciente que encontra os familiares, na hora da alta. À tristeza em comunicar que mais uma vida foi abreviada.
São dias divididos entre momentos de alegria e saudade. Acredite: em meio ao turbilhão de um plantão existem momentos de descontração, como um Parabéns a você cantado por pacientes. "Não é só morte. Não é só desgraça. Não é só isso", sustenta. E reforça: "Isso mostra que vale a pena. Eu não tô nadando, nadando, nadando, pra morrer na praia. Compensa".
E é preciso colocar fatores positivos na balança, para ter força para encarar os desafios das próximas 24 horas. Letícia chega a ficar semanas sem encontrar os filhos Marcos, 17, e Isabela, de seis anos, que estão na casa dos avós. A caçula, inclusive, estava de aniversário no último dia 18. E as comemorações, claro, seriam através de videochamada. "É difícil: na hora que a gente vai embora e quer um colo de mãe, não tem. Quer dar um abraço nos filhos e não tem", desabafa.
São dias de reflexão, chamamento e convicção reforçada: "Vou me tornar uma pessoa muito mais humana. Eu me sinto uma profissional bem melhor do que eu já fui. Me sinto uma pessoa bem melhor do que eu já fui". E nesse processo de exercitar um olhar positivo, mesmo mergulhada na tragédia, a técnica em Enfermagem vai de um extremo ao outro: vê um fim ainda distante sem conscientização da comunidade e aposta em tempos melhores.
"Vocês acham que vaga de UTI aparece como? É porque o outro paciente que estava ali morreu. O troço não tá legal. E não tá acabando. E não vai terminar se o pessoal não ficar em casa", cobra. E entre um dos tantos sorrisos que abriu - mesmo que de máscara -, disparou: "Vai acabar, vai dar certo e tudo vai ter valido a pena". É a esperança também coletiva.
Carregando matéria
Conteúdo exclusivo!
Somente assinantes podem visualizar este conteúdo
clique aqui para verificar os planos disponíveis
Já sou assinante
Deixe seu comentário