Saúde
Atendimentos odontológicos estão restritos
Responsável por 50% dos procedimentos de média complexidade em Pelotas, clínica da UFPel precisa de adequações
Jô Folha -
Com a suspensão das aulas presenciais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em março do ano passado, por causa da pandemia de Covid-19, o ensino precisou de adaptação para o formato remoto. O problema, é que graduações como Odontologia, necessitam de atividades práticas para o avanço do aprendizado, e essa mudança não foi possível, deixando os estudantes há mais de um ano parados. Quem também sente esse impacto são os pelotenses e moradores da região que recebem os atendimentos ofertados de forma gratuita no Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) Jequitibá através do Sistema Único de Saúde (SUS), que antes da pandemia era responsável por 50% dos atendimentos de média complexidade. Em 2019, último ano de atividades presenciais, foram realizados 35 mil procedimentos clínicos odontológicos no local.
O diretor do curso de Odontologia da UFPel, Evandro Piva, explica que o prédio necessita de adequação para conseguir receber mais alunos e pacientes. Algumas obras foram feitas, possibilitando esse retorno dos semestres finais, mas outras precisaram ser suspensas ou nem começaram devido a falta de recursos. Antes da pandemia, o local possuía cerca de cem cadeiras liberadas para atendimento, hoje, seguindo os protocolos de distanciamento são apenas 15. Por isso a necessidade das obras de adequação para possibilitar a ampliação no número de pacientes. No entanto, Piva esclarece que nem todos os serviços do local foram suspensos. Seguiram os atendimentos de radiologia, patologia, residência em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial, além da residência em odontopediatria. Entre março do ano passado e março deste ano foram realizados 1,2 mil procedimentos pelos alunos de pós-graduação.
Diferente de outras áreas, na odontologia não é possível realizar o atendimento do paciente utilizando máscara, o que acaba deixando os profissionais ainda mais expostos ao coronavírus. Existe uma grande preocupação com os aerossóis, que é nuvem de partículas que se forma ao fazer uso do equipamento odontológico, por isso o distanciamento e a proteção é fundamental. Para um atendimento com todos os cuidados, além dos EPI's, a estrutura dos consultórios precisa ser modificada. Até então, na clínica da UFPel, o modelo adotado era de consultório compartilhado e agora precisa ser individualizado, o que exige investimento na compra de divisórios e outros itens necessários. Enquanto isso não é possível, segue restrito o número de atendimentos. "Precisamos de investimento para aumentar nossa capacidade. Tanto de alunos em atividade, quanto de pacientes", comenta Piva.
A CEO Jequitibá é o único local da cidade que disponibiliza atendimento gratuito para pessoas com deficiência. Outro serviço que acabou sendo suspenso e que gera muita preocupação é a visitação preventiva nas escolas e em bairros da periferia, onde era prestado um primeiro atendimento e encaminhado à clínica caso fosse necessário. Segundo Gotuzzo, serviços que seriam de fácil resolução, pode acabar aumentando e gerando mais gastos ao SUS.
A clinica também possui uma parceria com a prefeitura, mas sem o funcionamento do local, a oferta ficou comprometida. Exames radiográficos panorâmicos, por exemplo, estão sendo realizados apenas em caráter de urgência, pois o único local que oferta este tipo de exame é a Faculdade. Além disso, diversos procedimentos especializados que normalmente são ofertados no CEO Jequitibá não estão sendo realizados. "O que se observa na Rede de Atenção à Saúde Bucal (RASB) do município é uma procura maior nas UBSs e no Centro de Especialidades Sorrir, em virtude do fechamento dos serviços na faculdade", comenta Letycia Gonçalves, chefe de Saúde Bucal da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Os estudantes do décimo semestre também realizavam o estágio nas Unidades Básicas de Saúde (UBS's), dando mais agilidade ao serviço.
Há mais de um ano parados
A reivindicação pela volta das atividades parte dos alunos e é liderada pelo Centro Acadêmico Bruno Chaves. Com o atraso provocado por essa suspensão, a graduação que possui cinco anos de duração, pode demorar até dez para ser concluída. Esse acréscimo gera preocupação. "Muitos alunos vem de outras cidades estudar aqui e não tem esse cálculo de um gasto maior. Muitos já pensam até em desistir do curso. É um impacto tanto na vida do estudantes, quanto da família" comenta Filipi Gotuzzo, 32 anos, um dos integrantes do Centro Acadêmico. Por conta desse atraso na formação, não foram abertas vagas para o curso de Odontologia da UFPel no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) de inverno e verão.
A vice-presidente do Centro Acadêmico Ândrea Daneris, 27 anos, reforça que o curso é praticamente todo prático "e não estamos conseguindo avançar. A gente precisa retornar as atividades. Quanto mais tempo ficarmos parados, maior será o hiato da falta de atendimento, pois os alunos ficarão represados nos anos iniciais", comenta. A estudante do segundo semestre diz ainda que o Centro criou um plano de retorno que foi apresentado ao colegiado do curso e que agora será analisado. O grupo também pede a vacinação contra Covid-19 para ter mais segurança no retorno. A solicitação vem, pois os profissionais da odontologia da universidade e os alunos do nono e décimo semestre já receberam as doses. "Somos um curso da área da saúde, um serviço essencial e precisamos desse reconhecimento para podermos voltar a prestar serviço a população. Não vai ser em casa que vamos conseguir avançar no curso e prestar serviço a comunidade", analisa Gotuzzo
Até o momento, as portarias divulgadas pela UFPel suspendiam as atividades presenciais de qualquer curso da instituição, mas após mais de um ano criando e testando os protocolos, o curso de odontologia conseguiu a abertura de uma exceção através de uma solicitação encaminhada ao Comitê Covid da universidade e ao Conselho Coordenador do Ensino, da Pesquisa e da Extensão (CONCEPE). Sendo assim, as aulas práticas para o décimo semestre retornarão na próxima segunda e para os estudantes do nono semestre, a volta é dia 24 de maio. Esse retorno ocorre de forma gradativa. Para os outros semestres, ainda não há previsão.
Em busca de ajuda
Preocupados com a falta de recursos para a conclusão das adequações na clínica, o Centro Acadêmico está em busca de apoiadores. Já foi feito contato com as bancadas de deputados federais e estaduais na tentativa de emendas parlamentares. Os estudantes também entraram em contato com vereadores pelotenses e o pedido de uma audiência pública deve ser protocolado hoje na Câmara.
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