Habitação de interesse social
Caixas de leite virarão forro em casas no Anglo
Projeto para conforto térmico será desenvolvido pela Faurb da UFPel em parceria com associação e igreja italianas
Jô Folha -
Uma parceria entre a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a associação italiana AK0 irá garantir melhorias em seis residências do loteamento Anglo, na Zona do Porto. As obras, que irão trazer conforto térmico às casas que não possuem forro, serão viabilizadas através do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Faurb). E a população pode se juntar ao projeto, ao doar caixas Tetra PaK que se transformarão nas estruturas para barrar frio e calor.
No último final de semana, a comunidade conheceu detalhes das etapas que estão por vir. Testes de eficiência energética realizados ao longo do pós-doutorado da italiana Sara Parlato indicaram que é pelo telhado onde as moradias mais perdem calor. Por isso, a importância dos dispositivos que serão confeccionados nas próximas semanas.
Em 26 de julho, o italiano Stefan Pollak - também vinculado à AK0 - chega a Pelotas e envolve-se em oficinas que serão ministradas aos moradores. A intenção é de que não apenas os habitantes das seis casas que serão contempladas recebam o conhecimento. As famílias têm sido orientadas a fazer contato com parentes que também possam aprender a montar os módulos e se tornar multiplicadores para que outras residências, em diferentes bairros, passem a desenvolver as estruturas que irão assegurar mais conforto a quem, não raro, vive em situação de precariedade.
Prontas para colocar a mão na massa
Maria Aparecida da Silva, 38, não vê a hora de espantar o frio que a faz espalhar tapetes por toda a casa. Ela, o marido e sete filhos - o mais velho, de 20 anos de idade, faleceu recentemente - vivem em 36 metros quadrados. O jeito é acomodar colchões pelos dois dormitórios e também pela sala.
"Não tem como eles dormirem lá nos fundos. Têm buracos nas paredes e, além do frio, podem entrar ratos", destaca. Ao se mudarem para o loteamento, no Anglo, o marido desmontou o chalé onde viviam, em área de risco, à beira do canal, e criou mais um cômodo para ampliar o espaço. Hoje, o ambiente, gélido, serve somente para acomodar parte do mobiliário.
Com forro de caixinhas Tetra Pak, para isolar as telhas de fibrocimento, os dois guris, que dormem na sala, terão mais conforto na hora do descanso. "Tô pronta para aprender. Já tô acostumada, forrei minhas cadeiras e meus armários", mostra, orgulhosa, os acabamentos feitos minuciosamente para dar colorido à mobília.
Conhecimento compartilhado
A cuidadora de idosos Tatiane Silveira, 36, também está ansiosa em aprender a criar os módulos. A mãe Rogéria, moradora do bairro Fragata, que também sofre com as baixas temperaturas, deverá juntar-se ao grupo durante as oficinas ministradas pelos italianos. "Eles vão nos dar o empurrão. O resto é conosco", descontrai.
Desde que se mudou, há mais de uma década, a família fez adaptações no espaço. Mudou a fachada, para criar um portão de garagem, abriu uma porta entre os quartos e quebrou a parede do banheiro, para permitir que o carro fique dentro de casa. "Agora, quando der, queremos construir um banheiro novo e um quarto, lá atrás", projeta.
Saiba mais do projeto
- O projeto é batizado de 3A - Autoconstrução, Arquitetura e Acupuntura Urbana.
- O trabalho envolve parceria entre a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Faurb-UFPel) e a associação sem fins lucrativos da Itália AK0.
- As intervenções nas casas serão custeadas pela igreja italiana Valdense.
- Na UFPel, o projeto envolve as três pontas: ensino, pesquisa e extensão. Dois acadêmicos estão diretamente envolvidos: Gustavo Benedetti e Luana Loureiro.
- A arquiteta contratada como responsável técnica é Luísa dos Santos.
Doe também!
* Para confeccionar os forros, cada casa precisará de 2 mil caixinhas de leite ou suco. Até o momento, há apenas material garantido para preparar 1 dispositivo climático. Ainda faltam, portanto, 10 mil caixinhas. Para doá-las, basta enxaguar. Não é preciso desmontá-las.
* Locais de entrega:
- Restaurante Universitário, na rua Santa Cruz, 1.705
- Padaria Villa Serrana, na rua Gonçalves Chaves, 4.012
- No Bar da Bete, na própria comunidade do Anglo
* Para informações e doações agendadas: e-mail - naurb.ufpel@gmail.com
Outras melhorias também estão nos planos
A intenção da Faurb é ir além do conforto térmico nas residências. Contatos já começaram a ser feitos com a prefeitura, com o objetivo de viabilizar obras e expansões, através do Banco de Materiais. Ainda assim, a professora Nirce Saffer Medvedovski é incisiva: "Não queremos substituir o Poder Público, mas a casa é o primeiro lugar para oferecer uma vida saudável à comunidade".
A arquiteta Luísa dos Santos faz coro às palavras da professora. E lembra da lei 11.888, de 2008, que assegura - às famílias de baixa renda - assistência técnica pública e gratuita para projeto e construção de habitação de interesse social. Na prática, uma legislação ainda pouco aplicada. "E sabemos que as pessoas fazem as adaptações, a seu modo, de acordo com as suas necessidades". Por isso, a importância do trabalho desenvolvido neste momento, que une baixo custo, compartilhamento de conhecimentos e olhar técnico para instruir.
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