Crime
Candidatos à reitoria da UFPel sofrem ataque racista
Grupo foi ameaçado e xingado durante reunião virtual; universidade vai encaminhar o caso à Polícia Federal
Reprodução -
“Cala a boca macaco”. Esse foi apenas um dos xingamentos que a professora e candidata à reitora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Miriam Alves, e todos os presentes em uma sala on-line precisaram ouvir na noite da última quinta-feira (20). Uma ocasião que deveria ser de construção democrática, pois discutia as propostas de uma das chapas que concorre ao pleito, foi invadida por racistas e virou cenário de crime. A UFPel se manifestou em seguida, através de nota, garantindo que o caso seria enviado para investigação da Polícia Federal (PF) e afirmou que a instituição não tolera qualquer tipo de discriminação, seja nos espaços físicos ou virtuais.
Em um país onde o racismo, seja ele visível ou velado, ainda tem voz e vez, a notícia não choca, mas entristece. Os ataques iniciaram no final da fala de Miriam. Ela conta que no início o grupo não havia entendido do que se tratava, mas em seguida a sequência de xingamentos e ameaças iniciaram. O sentimento do momento, segundo a docente, foi de impotência. “Isso está no nosso cotidiano e por mais que a gente já tenha vivenciado sempre machuca”, lamentou.
Para produzir ainda mais provas, uma equipe da chapa entrou na sala para tentar iniciar o processo de rastreamento. Miram relata que os colegas pediram que os presentes, majoritariamente formado por pessoas pretas, seguissem no ambiente para facilitar o trabalho. Com microfones desligados e ainda ouvindo insultos e ameaças, o grupo protagonizou mais um ato resistência. “Permanecemos para resistir”, completou.
Entretanto, o momento de impotência também fortalece. “Quando identificamos que eram racistas tivemos ainda mais certeza que nossa luta por transformar a sociedade em antirracista é urgente”. Segundo ela, o grupo era formado por docentes, discentes e comunidade acadêmica, todos atuantes no fortalecimento da produção acadêmica e científica. Outro ponto destacado pela candidata é a importância da branquitude na luta antirracista. “Hoje o racismo se apresenta de uma forma que o branco não pode mais ser somente um espectador”, apontou. Enquanto chapa, o grupo já está formalizando uma denúncia que será encaminhada à Polícia Federal e à Comissão Eleitoral (COE).
O que diz a UFPel?
Em conversa com a reportagem, o reitor Pedro Hallal contou que ficou sabendo rapidamente do ocorrido através de um grupo de rede social e em seguida a nota da gestão já foi publicada. Agora, um documento está sendo redigido pelo Sistema Eletrônico de Informações (SEI) da instituição e, segundo Hallal, seria encaminhado à PF junto com o vídeo, até o final da tarde desta sexta-feira . “Me solidarizo com a chapa e com todos os envolvidos”, disse o reitor. Outro ponto destacado por ele foi a postura de alguns indivíduos que tentaram minimizar o ocorrido. “Lamentamos também a tentativa de alguns grupos, que hoje flertam com o fascismo, e com histórico de ataques a mulheres em pleitos anteriores, de tentarem se beneficiar politicamente do ocorrido, minimizando a importância do crime de racismo”, declarou.
A denúncia encaminhada também contará com outros ataques ocorridos dentro da universidade que acabaram sendo revelados com a ocasião.
É crime
Tanto a injúria racial como o racismo são crimes no Brasil. A diferença é que enquanto a injúria consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem, o crime de racismo atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça. A injúria racial possui pena de reclusão de um a três anos e multa. O racismo é inafiançável e imprescritível.
Confira o momento do ataque:
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