Educação
Dia de homenagear o professor
Com as atividades on-line, categoria teve que se reinventar para estimular a aprendizagem dos alunos em tempos de dificuldades e muitos anseios
Jô Folha -
"Um professor dá uma aula com giz. Se não tem giz, ele vai dar um jeito e vai seguir escrevendo, vai seguir dando aula". Com este princípio, a professora de ensino fundamental da Escola Estadual Francisco Simões, Rita Santos, descreve a realidade dos profissionais da educação neste período de pandemia. A data desta quinta-feira (15) homenageia o professor, profissão que precisou se reinventar com o avanço da quarentena e que enfrenta muitas dificuldades para dar continuidade a aprendizagem. Embora tenham conquistado mais notabilidade durante este momento atípico, as demandas, que já eram grandes, agora exigem ainda mais dos docentes nas redes pública e privada.
Um dos grupos de profissionais que pode falar com propriedade sobre o quanto a pandemia afetou o seu cotidiano de trabalho são os professores. As salas de aula foram substituídas pelo ambiente virtual e os quadros deram lugar às telas compartilhadas nas plataformas digitais. "Os professores têm passado dez, 12 horas na frente de um computador preparando aula, pensando em vídeos e atividades", conta o professor de história e coordenador pedagógico da Escola Municipal Piratinino de Almeida, Ricardo Machado. Este tempo extra dedicado ao trabalho reflete as demandas dos estudantes, que também sofreram mudanças com os ensinamentos à distância. A preparação de aulas tem exigido ainda mais dos docentes, que precisaram se reinventar em meio a um cenário totalmente caótico. A professora Rita destaca que tem sido necessário pensar as aulas para aqueles que não conseguem acessar os materiais e que estão em diferentes níveis de aprendizagem. "Tem que preparar a aula à distância pensando naquele aluno que não consegue escutar, então precisa transcrever o vídeo. Tem que pensar nos que não têm acesso, precisa fazer uma apostila para entregar o material impresso. Sem falar dos relatórios daqueles que fizeram ou não fizeram as atividades. Eu não consigo descansar meu cérebro. Tem dias que fico pensando tanto na criança que chego a acordar de noite com ideias que posso usar nas aulas", conta a docente.
Com as atividades on-line, o contato entre professor e aluno foi duramente afetado. Esta relação afetuosa acabou ficando mais distante, o que tem influenciado no ensino. "Tem que acreditar bastante na profissão para lutar pelo que a gente luta. É preciso ter muito amor para ser docente. Tem sido difícil. Presencialmente, a gente usa o lúdico, as brincadeiras. Mas como fazer isso on-line?", questiona Rita. Esta sensação é algo que une a professora Rita com a docente de língua portuguesa, Suzane Ribeiro, professora da Escola Santa Mônica, da rede particular. A incerteza da resposta dos alunos e a falta de um contato mais próximo, que é proporcionado pelas aulas presenciais, tem sido um elemento importante neste contexto. "A troca não é a mesma. A gente trabalha com linguagem corporal, percebe quando os alunos estão entendendo e quando não estão. Esta percepção foi muito prejudicada. A nossa interação tá mais limitada, o que dificulta um feedback do quando o aluno está aprendendo os conteúdos", explica a professora.
A data homenageia toda uma classe que é vital para o desenvolvimento de uma sociedade crítica ainda representa uma luta que já vinha antes do período da pandemia. Porém, a notabilidade que a profissão ganhou em meio a todos estes desafios é vista como uma oportunidade para que haja esta aproximação e uma empatia maior da sociedade com a classe. "Este período acabou servindo para as pessoas terem uma dimensão do que é a rotina de um professor. A jornada de trabalho parece que triplicou durante a pandemia. A gente naturalizava algumas coisas importantes e a pandemia mostrou que devemos valorizar mais as pessoas e as coisas que estão ao nosso redor", pontua Suzane.
Insegurança para o retorno presencial
Em live na tarde desta quarta-feira, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) confirmou o retorno das aulas presenciais na rede estadual a partir do próximo dia 20, que marcará a volta das atividades para o ensino médio e técnico das instituições. Até o dia 12 do próximo mês, todas as séries estarão com aulas presenciais. Uma decisão que preocupa os profissionais da educação. "Eu me sinto totalmente insegura. Trabalho em escolas públicas que eu não posso abrir a janela. Se eu abro, não consigo fechar. Se fechar, não consigo abrir. Temos 20, 30 alunos em salas minúsculas. O próprio rodízio é inviável na maioria das escolas públicas. É muito difícil dar conta do distanciamento social e de todos estes protocolos", afirma Rita.
Enquanto coordenador pedagógico, o professor Ricardo também desaprova este retorno, que logo deve acabar intensificando as negociações para uma volta na rede municipal. "A gente tem uma falsa sensação de que a pandemia acabou, mas ainda temos um número grande de casos. Muitas escolas não têm estrutura, não têm como atender aos protocolos de segurança para milhares de alunos. Vai expor alunos, professores e pais a este contato faltando dois meses para acabar o ano letivo. A grande preocupação das autoridades deveria ser usar esse tempo para planejar um retorno com mais segurança no ano que vem. É uma volta precoce e bastante arriscada", analisou.
Carregando matéria
Conteúdo exclusivo!
Somente assinantes podem visualizar este conteúdo
clique aqui para verificar os planos disponíveis
Já sou assinante
Deixe seu comentário