Um ano de luto, um ano de luta
Do primeiro caso ao colapso do sistema de saúde
No dia em que fecha um ano da pandemia em Pelotas, o DP abre a série e a websérie "Um ano de luto, um ano de luta", com diferentes vozes que passam por trauma, esgotamento, insegurança e superação
Jô Folha -
“Ficou um vazio que nunca mais vai preencher”. O desabafo de um pai ao ver o filho de apenas 37 anos ter os sonhos engolidos pela Covid-19 serve de síntese para um medo coletivo que se alastra por milhares de lares em Pelotas.
Em exatos 365 dias, o município saiu da marca de um caso confirmado de coronavírus - quando uma idosa de 71 anos testou positivo, em 25 de março de 2020 - para 27.183 infectados. O total de mortes chega a 460, desde aquele sábado, 20 de junho, quando uma primeira paciente perdeu a batalha para a doença. É um cenário que assusta: já são 17 dias consecutivos com histórias de vidas interrompidas; uma marca ainda não registrada neste um ano de pandemia. Só nesta quarta-feira (24) foram nove óbitos.
Em três capítulos, o DP apresenta a série e a websérie Um ano de luto, um ano de luta. São relatos de profissionais de saúde, pressionados por um sistema saturado, acima dos 100% de ocupação de leitos nas redes pública e privada. O sofrimento de quem perdeu familiares e amigos, de forma abrupta e sem direito a despedidas. A palavra de quem superou a infecção e enfrenta sequelas.
Até o final de semana, o DP traz o impacto também econômico da Covid-19 : de quem precisou mudar de ramo a quem conta com doações para driblar a fome. Uma avaliação geral da pandemia e os efeitos deixados na saúde mental da população também integram a série.
Confira a evolução
25 de março de 2020
Uma idosa de 71 anos é notificada como o primeiro caso do novo coronavírus em Pelotas. Um ano depois ela ainda prefere não se manifestar.
25 de abril
* 18 infectados
* 3 pessoas hospitalizadas (2 casos suspeitos de Pelotas e um confirmado de outro município)
20 de junho
Primeira morte é registrada em Pelotas. Uma mulher de 51 anos, com problemas cardiovasculares crônicos, não resistiu, após quase um mês de internação.
* 189 infectados
* 2 pelotenses hospitalizados em Porto Alegre
* 6 pessoas hospitalizadas em Pelotas (4 da própria cidade e 2 de outros municípios)
25 de setembro: meio ano de pandemia
* 4.009 infectados
* 38 hospitalizados (37 de Pelotas; sendo 16 em UTI e 1 paciente da região)
* 122 óbitos
24 de março de 2021
* 27.183 infectados
* 186 hospitalizados
* 460 óbitos
Conheça alguns dados do perfil
* Sexo
- As mulheres são maioria entre os contaminados pela Covid-19: 56,1%
- Quando analisadas as mortes, os homens representam 51% do total
* Idade
- A faixa etária dos 20 aos 34 anos corresponde a 31% dos infectados
- Se observados os óbitos, a maioria das vítimas está entre 65 e 79 anos
* Profissão
- Os aposentados são 78,5% das mortes registradas e representam também o maior percentual entre os contaminados: são 12,69% dos casos positivos
- Entre os profissionais de saúde, 2.174 pessoas já se infectaram e 4 morreram
* Comorbidades associadas
- As mais recorrentes são obesidade, hipertensão e diabetes
(*) Informações compõem último levantamento divulgado pelo Observatório de Segurança Pública, em 18 de março
Dor, trauma e saudade
O peito se estufa. De orgulho. Otto João Kuhn, 63, enaltece os passos do primogênito. O guri estudioso, que passou pelas salas de aula do Zilda Morrone, do Coronel Pedro Osório e do Colégio Pelotense, decidiu trilhar o mesmo rumo profissional do pai. Leandro da Silva Kuhn, 37, já tinha 13 anos de Brigada Militar (BM), com passagens por Charqueadas, Rio Grande e Capão do Leão.
Na segunda-feira, 23 de novembro, começou a apresentar os primeiros sintomas de Covid-19. Enquanto aguardava o resultado do exame, alimentava a esperança de poder permanecer em casa. Em paralelo, agravaram-se a febre e a dor de cabeça. Na sexta-feira, dia 27, o soldado já estava internado na Beneficência Portuguesa e, no sábado, precisou ser transferido para Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).
"Ele ficou esperando o resultado do exame", destaca o sargento da Reserva. E a infecção revelou sua versão mais perversa. A progressão foi rápida. Na semana seguinte, em 2 de dezembro, Otto também foi hospitalizado. E foi dali, antes de receber alta do leito de Enfermaria, que uma semana depois, em 9 de dezembro, tomou conhecimento que Leandro não havia resistido.
"O trauma é inexplicável. É uma cratera que eu acho que nunca mais cicatriza", resume, ao receber a equipe do Diário Popular em casa. E, além da dor da partida prematura, os Kuhn precisaram enfrentar mais uma angústia: que o filho João Paulo também perdesse a batalha para a Covid-19. Na mesma data, um irmão era sepultado e, o outro, internado.
Passados pouco mais de três meses, Otto - naturalmente - estreita os laços com o neto Arthur, de oito anos. Com o primogênito eram muitas as afinidades: da carreira como policial, ao amor pelo Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e ao gosto por um churrasquinho, aos domingos. Um pretexto para, sempre que possível, estarem juntos. "Ficou um vazio que nunca mais vai preencher".
23 dias de hospitalização e medo
A rotina de trabalho já está restabelecida. É um processo simples depois de 27 anos como servidor da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). As marcas da Covid-19, entretanto, seguem entranhadas, apesar de Sérgio Oliveira, 52, ter recebido alta há mais de três meses. O fôlego ainda é reduzido e as dores nas pernas teimam em reaparecer. Mas os efeitos não são apenas físicos.
"Hoje a gente tem medo até de sair na rua", conta. "A ansiedade é uma das piores sensações que deixou a Covid". Com 70% do pulmão atingido e a informação de que pessoas que estavam internadas não haviam sobrevivido à doença, Sérgio via a angústia crescer. "Eu achei que ia morrer. É inexplicável como é ruim. A sensação de tu não poder respirar, de não poder ir ao banheiro, por falta de ar. É muito ruim", desabafa.
Foram 23 dias de hospitalização, na Beneficência Portuguesa, sob o assombro de que poderia ser intubado. Chegar em casa, às vésperas do Natal, transformou-se em sinônimo de vitória - conta. Era a certeza de que novos abraços poderiam virar realidade.
Hoje, enquanto preocupa-se em preservar a saúde de familiares, especialmente, a da mãe Tereza, de 77 anos, Sérgio sonha com uma sociedade mais humana. "O carinho, o amor, a atenção é muito mais importante do que tudo", resume. E reforça: "Eu só peço que todo mundo se cuide. A Covid, pra quem sobreviveu, vai deixar sequelas pro resto da vida, lembranças, saudades. Então, não desejo pra ninguém".
"É triste tu entregar um corpo pra funerária"
Em 27 de março, quando o primeiro paciente - de Bagé - precisou de leito de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), a enfermeira Bárbara Araújo Gheno, 37, não imaginava o que estava por vir. Ninguém imaginava. Com 13 anos de carreira e 12 como intensivista, ela ajudou a selecionar e a treinar profissionais da ala Covid do Hospital-Escola da Universidade Federal (HE-UFPel); primeira referência para tratamento da doença em Pelotas.
Tudo era muito novo. Sabia-se pouco a respeito do coronavírus. Havia dúvidas, inclusive, se os protocolos adotados pela equipe para prevenção do contágio eram corretos e suficientes. Com o tempo, comprovou-se que sim. Com o tempo, comprovou-se também que o cenário de uma UTI Covid é outro. Bem mais duro. Imensamente mais doloroso.
Ao contrário da UTI Geral, a maioria dos doentes chega muito cansado, mas consciente; acordado, orientado, conversando. Ao contrário da UTI Geral em que o quadro de insuficiência respiratória costuma ser revertido após o recurso intubação-ventilação, na UTI Covid, o paciente custa a estabilizar. Não raro, o organismo não responde.
"O pulmão, geralmente, tá muito comprometido. O pulmão tá duro. Aí a gente acaba usando medicações e drogas para tentar parar a musculatura para conseguir ventilar à força e, muitas vezes, a gente não consegue ter a resposta desejada", lamenta a enfermeira.
Ao contrário da UTI Geral - em tempos sem pandemia -, os espaços Covid são vetados para familiares. As mortes ocorrem sem direito à despedida. "No início, a gente não tinha esta perspectiva de pensar 'eu vou ser a última pessoa com quem ele vai conversar, na vida'. A gente não tinha esta ideia, porque a gente não estava lá pensando que as pessoas iriam morrer. A gente estava lá pensando que ia salvar vidas. E nem sempre isso aconteceu", desabafa.
É uma transformação que extravasa o campo profissional. Na vida pessoal, Bárbara quer ser ainda mais agregadora, quando os encontros com familiares e amigos forem possíveis. Por enquanto, em casa, o movimento restringe-se a ela, à filha Lara, de dez anos, e à cachorrinha Mel.
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