Sonho realizado

Do quilombo na Bahia para a universidade de Pelotas

Após ingresso aprovado para medicina, jovem começará a escrever sua história na UFPel

Divulgação -

Quanto vale para uma sonhadora alcançar seu objetivo? Para a estudante Carlúcia Ferreira, 21, moradora da comunidade quilombola Lagoa dos Anjos, no Estado da Bahia, o início da caminhada em busca de seu sonho de infância começará a ser escrito à quase três mil quilômetros de distância, na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Após dois anos dedicada aos estudos preparatórios, a jovem recebeu nos últimos dias a notícia sobre o ingresso no curso de medicina, quebrando barreiras dentro do quilombo e focada em inspirar jovens em um futuro não muito distante.

Mulher, negra e quilombola, Carlúcia vive na comunidade dentro da pequena cidade de Candiba, com população estimada em 14 mil habitantes. Oriunda de família humilde, para auxiliar na questão financeira conciliava os estudos, realizados através de plataformas gratuitas, com a venda de artesanato, lanches e a ministração de aulas de reforço escolar. Estudava de segunda a sábado, dedicava dois dias da semana para a produção de redações e a realização de um simulado por semana.

Filha de lavradora, a estudante tem na matriarca da família a personificação de sua principal fonte de inspiração e motivação. "Encontrei força no meu propósito e na situação de minha família e amigos. Eu olhava para minha mãe e via tudo que ela já havia feito por mim e continuava fazendo e eu sempre dizia a ela: 'mainha, eu vou te honrar e eu vou conseguir'. Também achei consolo com meus amigos, que nunca desistiram de mim", conta.

O sonho de ser médica estende-se desde muito nova. De acordo com Carlúcia, o desejo é atuar em áreas como neurocirurgia ou cardiologia. Dentre suas principais inspirações estão Ben Carson, neurocirurgião pediátrico, psicólogo, professor e escritor norte-americano, e o cardiologista carioca Rafael Bispo, ambas figuras negras e referências em suas respectivas especializações. "Eu sempre quis ser grande, fazer algo grande para poder ajudar muitas pessoas. Um curso como medicina era algo impossível para mim, segundo a sociedade. Porém, isso nunca me parou. Eu tinha um forte desejo e sabia do meu propósito".

Ansiosa pelo futuro

O início da longa trajetória começa há 2.726 quilômetros de sua comunidade, em solo pelotense. As aulas ainda estão em modelo a distância devido à pandemia, mas a estudante não esconde a expectativa pelas atividades presenciais que trarão a oportunidade de conhecer sua nova cidade. "Claro que meu coração aperta, pois são quase três mil quilômetros de distância do meu povo. Mas isso é necessário para conquistar meus objetivos", diz, decidida.

Quanto à sua vitória, fruto da dedicação, descreve como um misto de sentimentos de alívio e alegria. "O melhor foi ver o sorriso de mainha ao ver sua filha voando tão alto. Ver que minha bisavó vai ter uma bisneta médica, a primeira da descendência. A distância é o menor dos problemas, eu disse que medicina eu iria buscar até no fim do mundo".

Inspirada em figuras negras e muito próxima a fazer parte da lista capaz de influenciar jovens quilombolas, Carlúcia afirma que a conquista é para um bem coletivo. "É uma vitória para todos os pretos e pretas. Nasci sofrendo racismo, ainda sofro e vou sofrer muito mais. O que eu vou fazer? Sentar e chorar? Jamais. Vou continuar conquistando lugares que dizem não ser pra mim, vou cada vez mais alto. Para as pessoas que dispõem de sonhos grandes: não desistam jamais, por mais que o mundo diga não, se você acreditar no seu propósito você consegue", finaliza.

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