Setembro Amarelo

É fundamental buscar ajuda

Setembro Amarelo liga alerta para efeitos da pandemia na saúde mental e possível subnotificação de crises ligadas a transtornos

Divulgação -

Desde 2014 o mês de setembro voltou-se a um assunto de extrema importância: a preservação da vida e da saúde mental. Neste ano, o Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio, ganha um olhar específico ao momento em que o país e o mundo atravessam e as consequências ao aspecto mental de toda sociedade. O risco de agravamento de transtornos e subnotificação devido à falta de procura por atendimento estão entre os principais alertas feitos por especialistas.

Assunto um tanto delicado, a notificação de tentativa ou consumação de morte provocada não está distante. Pessoas com transtornos como depressão ou ansiedade, considerados mais comuns, muitas vezes estão por perto, mesmo que convivendo com os problemas de maneira silenciosa. Conforme a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), em 2020 foram 313 notificações de tentativas de suicídio e/ou autolesão feitas pelo Pronto Socorro de Pelotas. Até o último mês de agosto, haviam sido 183 casos registrados. Segundo o setor, não há dados que informem se houve aumento de internações decorrentes de sintomas relacionados à crise de depressão ou ansiedade.

Conforme explica a professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comportamento, da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Mariana Bonat, o período antes da pandemia, segundo dados de 2019 do Ministério da Saúde, já mostrava que o estigma associado ao suicídio, à dificuldade de identificar o evento e, nos casos de óbito, de atestar a causa corretamente, contribuíam para a subnotificação dos registros, o que levava a subestimar do problema.

"Com a pandemia, houve a necessidade de isolamento social e os atendimentos públicos em saúde foram reduzidos para algumas demandas, dando prioridade aos casos relacionados ao vírus. Provavelmente isso fez com que pessoas que apresentavam sofrimento psicológico não soubessem onde buscar ajuda ou optassem por não procurar ajuda naquele momento. Isso contribui para a subnotificação de casos", explica.

Levantamento aponta dados mais recentes

Um estudo desenvolvido pelo Comitê de Dados do governo do Estado identificou que ao menos cinco grupos estão em maior risco de serem afetados no quesito saúde mental. As maiores prevalências foram identificadas entre os professores (média de 36,9%) e profissionais da saúde (27,7%). O terceiro grupo é formado por pessoas com transtornos pré-existentes, casos de ansiedade ou alcoolismo. Crianças e jovens também estão mais propensos, conforme a pesquisa. O quinto grupo é a população de baixa renda.

A Coordenação Estadual de Saúde Mental da Secretaria Estadual de Saúde (SES) também identificou quedas acentuadas de procura por atendimento clínico desde o começo da pandemia. As internações, que se mantinham em níveis semelhantes entre os meses de janeiro e fevereiro comparando 2019 e 2020, apresentam queda nos dois meses seguintes: 2.525 casos em março e 735 hospitalizações em abril (-42%). Nos meses iniciais, 2020 teve valores mais elevados e, a partir de março, quando da declaração de estado de calamidade pública de Covid-19, houve diminuição nas baixas para casos de maior risco de suicídio, ressaltando possível subnotificação.

População de risco

O Rio Grande do Sul tem a maior taxa de suicídio no Brasil nos últimos anos, quase duas vezes maior que a nacional. Segundo dados de 2019, o Estado era a primeira unidade da federação no ranking, com 1.423 mortes, seguido por Santa Catarina (798) e Piauí (328). Dentre as cidades com maior incidência de suicídios na Zona Sul (levando em consideração a população local), estão Canguçu e Pelotas.

Dados apontaram que entre os anos 2013 a 2019 os índices de lesão autoprovocada, como autoagressão e tentativa de suicídio, possuem mais ocorrências entre mulheres, equivalente a 71% dos registros. Conforme a professora Mariana Bonat, os índices apontam percentual bem maior em mulheres, uma vez que estas tentam mais suicídio, mas os homens completam mais o ato. "Isso pode estar relacionado aos próprios métodos de tentativa, sendo o mais frequente a autointoxicação farmacológica intencional devido ao uso de medicamento, considerado um método menos violento." Entre mulheres, a faixa dos 15 aos 29 anos é a de maior incidência de lesão autoprovocada. Conforme a especialista, há relação entre a idade e a fase reprodutiva, em que a gestação pode torná-las mais vulneráveis às manifestações de sintomas emocionais e transtornos mentais.

O estudo também apontou que, no mesmo período, a maior incidência de suicídios consumados se deu em homens (80%), especialmente entre 40 e 59 anos, tendo como meios mais frequentes o enforcamento, o estrangulamento e a sufocação, além de envenenamento, uso de armas de fogo e lugares elevados. "O desemprego, crises familiares e problemas financeiros são considerados fatores de risco. Mesmo que estes eventos estressantes sejam vivenciados por ambos os sexos, as mulheres tendem a apresentar maior rede de apoio nesse aspecto, e também a verbalizar e buscar ajuda."

A especialista em saúde e comportamento frisa a importância da procura por atendimentos especializados, deixando de lado qualquer preconceito sobre o assunto.

Não resista, procure ajuda!

1º passo - O acolhimento do Centro de Valorização da Vida (CVV) é realizado de forma gratuita a todas as pessoas que querem ou precisam conversar, sob sigilo total. Além do telefone 188, a ajuda 24 horas por dia, de domingo a domingo, também pode ser solicitada através do chat no site cvv.org.br.

2º passo - Pessoas com transtornos mentais devem ser acolhidas em todos os serviços que são portas de entrada - UBS, Pronto Socorro, Samu, UPA e Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

3º passo - Quando identificada a necessidade de cuidado em saúde mental, o paciente é direcionado para o serviço especializado, conforme o grau de complexidade do caso. Transtornos leves são atendidos pelas UBSs, os casos moderados são encaminhados para os Ambulatórios Especializados em Saúde Mental (infanto-juvenil e adulto) e os casos graves para os Caps.

4º passo - Quanto à possível hospitalização, este é o último recurso, quando já se esgotaram todas as possibilidades de cuidado no território.

 

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