Entrevista
“Em linhas gerais, a gente vê uma melhoria no ambiente empreendedor”
Diante do aumento de novas empresas no Brasil, gerente regional do Sebrae avalia cenário na Zona Sul
Rodrigo Chagas - Ascom - DP - Vives aponta que a região tem 106,9 mil empresas, grande parte em Pelotas
Por Helena Schuster
helena.schuster@diariopopular.com.br
(estagiária sob supervisão de Vinicius Peraça)
No primeiro semestre de 2023, o número de novas empresas, no Brasil e também em território gaúcho, cresceu. Em fevereiro, o Rio Grande do Sul bateu o recorde de novas empresas abertas em um mês, com 23,4 mil aberturas. Ao todo, a Junta Comercial, Industrial e Serviços do RS (JucisRS) estima 1,7 milhão de empresas ativas no Estado. Na Zona Sul, são 106,9 mil estabelecimentos, sendo Pelotas a líder da região com mais de 41 mil estabelecimentos e 24 mil microempreendedores individuais (MEIs).
Para entender o que esses números significam, o Diário Popular conversou com o gerente da Regional Sul do Sebrae, Ciro Vives, que apontou possíveis motivos para o aumento de novas empresas, descreveu o ambiente empreendedor da Zona Sul e também avaliou o que se pode esperar para o futuro.
Como é o cenário, hoje, para o novo empreendedor, principalmente em Pelotas e região?
Cenário para empreender no Brasil é sempre complexo, por diferentes variáveis, sejam elas políticas, econômicas ou o que for. No entanto, ao longo do tempo, principalmente nos últimos anos, e o pós-pandemia refletiu isso de forma bem intensa também, empreender tem deixado de ser uma questão complexa. Porque, tanto o Sebrae quanto vários outros atores, como juntas comerciais, prefeituras e agentes financeiros, têm feito um trabalho de facilitação desse processo, através da desburocratização, facilitação da implementação e regulamentação de uma empresa. Também se tem a redução do tempo de abertura de uma empresa e a simplificação dos processos internos como, por exemplo, os registros e alvarás. No Brasil, é uma média de 30 horas [para abrir uma empresa]. No Rio Grande do Sul, estamos beirando 13 horas. Isso traz, junto, uma redução de custos, porque a pessoa não precisa ficar de lá para cá. Em linhas gerais, a gente vê uma melhoria no ambiente empreendedor.
Quais são outras possíveis causas da melhora do ambiente empreendedor?
O pós-pandemia e a própria pandemia em si já são uma causa. Muitas pessoas perderam o emprego, saíram do mercado formal e acabaram empreendendo por necessidade. A gente teve um aumento bastante significativo no volume de MEIs, isso é um aspecto bem relevante. Outras pessoas também passaram a empreender por oportunidade, porque verificaram no pós-pandemia novas oportunidades e modelos de negócios. Outro aspecto importante, e o governo do Estado foi um importante ator nisso, foi a implementação do Tudo Fácil Empresas no início deste ano, que é uma forma facilitada, online, de abrir tua empresa. A pessoa leva dez minutos para abrir nesse formato. Hoje vários municípios estão aderindo, como Rio Grande e Pelotas. A própria Lei de Liberdade Econômica, ao longo dos últimos anos, também vem facilitando o ambiente empreendedor. Na minha percepção, novos modelos de negócio, como e-commerce e plataformas de marketplace, também estão atraindo novos empreendedores, que estão optando por operar dentro desses meios, que também são possibilidades interessantes. Aspectos de inovação também [tem um impacto importante], e o Sebrae vem trabalhando muito nisso, trazendo perspectivas, conteúdos e qualidade de informação para que os empreendedores fiquem mais seguros no momento de implementar uma empresa. O Sebrae tem um programa de implementação de políticas públicas para aceleração do desenvolvimento do Município, o Cidade Empreendedora, que está indo para o oitavo Município na região sul a aderir. A gente trabalha eixos como liderança, capacitação do funcionário público, educação empreendedora, desburocratização. Isso também cria um ambiente propício para novos empreendedores.
Atualmente, quais os maiores desafios para quem quer empreender?
O Sebrae vem fazendo, desde o início da pandemia, um acompanhamento, que é a Pesquisa de Monitoramento dos Pequenos Negócios no Rio Grande do Sul. Nessa pesquisa, em que pese o fato de termos um ambiente mais propício para empreender e uma certa melhoria pós-pandemia no número de empresas, por outro lado, também há um número de empresas fechando e pessoas desistindo de ter seu negócio, por conta de uma série de dificuldades. Por exemplo, o pós-pandemia trouxe uma redução do poder de compra do consumidor. Isso é um dos principais aspectos que aparece na nossa pesquisa. Outro fator importante é a falta de clientes. Durante a pandemia, as pessoas se acostumaram a ficar mais em casa, a gastar e investir em outros meios, como os digitais, então os negócios tradicionais foram extremamente afetados. Outro fator foi o aumento dos custos em geral, como de matéria prima e insumos. Um quarto fator também seria a instabilidade econômica e política. Até bem pouco tempo atrás, a previsibilidade das questões econômicas e políticas era maior. Hoje, o cenário de bipolaridade política, instabilidade econômica, balança comercial variando, dólar subindo e descendo, traz insegurança. Tem outros fatores que aparecem em menor escala, como o endividamento do próprio negócio, taxas de juro elevadas e inflação. Esses, para mim, são fatores bastante importantes que desestimulam o processo empreendedor.
O que se pode esperar dos próximos meses para quem está começando a empreender?
Eu esperaria, cada vez mais, uma melhoria nesses processos de registro, regulamentação e aumento do número de empresas. Para se ter ideia, aqui na nossa região sul do Rio Grande do Sul, temos três municípios entre os que têm o maior número de CNAEs de baixo risco no Brasil pela Lei de Liberdade Econômica. O Sebrae vem trabalhando para aumentar esse número. Essas são expectativas que acho bem importantes. Ao mesmo tempo em que têm alguns aspectos que impactam [negativamente], como a inflação, a instabilidade econômica e a seca, um fator que tem muito impacto na nossa região, também se tem uma perspectiva de melhoria no processo burocrático, redução de tempo e um trabalho de políticas públicas. Acho que temos um segundo semestre por vir que vai ser um balizador de como serão os próximos três anos. Esse segundo semestre vai nos dizer se a gente mantém o nível de equilíbrio, com viés de crescimento, ou vai ter alguma queda por conta desses fatores mais impactantes. Sou otimista e acho que os aspectos positivos sobrepõem os negativos. O empreendedor, no Brasil, é um guerreiro. É uma tarefa árdua e ele vai continuar sendo esse guerreiro de todas as formas.
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