Projeto
Em busca de uma cidade mais verde
Moradores realizam o plantio de mudas nativas e frutíferas em praças para proporcionar um ambiente mais arborizado
Carlos Queiroz -
Na cidade em que o tom acinzentado do concreto predomina, locais com o verde natural das árvores acabam chamando a atenção. Para tentar aumentar cada vez mais o número de espaços assim, com cores vivas, moradores têm "adotado" praças, cuidando e realizando o plantio de mudas. Atualmente, Pelotas conta com 215 áreas verdes e cerca de 90 praças, segundo a Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA). Para incentivar a comunidade e promover a ampliação destes espaços, recentemente o poder público lançou o projeto Ciclo Verde.
Quem frequenta a praça 14 na Cohab Fragata tem a oportunidade de usufruí-la tomando um chimarrão na sombra, de ver as crianças brincarem e ainda de comer uma fruta diretamente do pé. Isso só é possível devido ao empenho de Miriam Cristina Ávila, 49 anos, que desde 1997 realiza o plantio de árvores nativas e frutíferas no local. Ao todo, já são mais de 38, das mais variadas espécies, como ipê, cerejeira, pitaya e bergamoteira. Para tentar incentivar mais pessoas a contribuirem na conservação do local, a massoterapeuta criou, há dois anos, uma página no Facebook chamada Projeto Pomar Cohab, com o intuito de conseguir ajuda para comprar mais mudas, além dos insumos necessários. A iniciativa, no entanto, não teve a adesão esperada. Miriam se desanimou, mas não desistiu. Ela conta que o ânimo retornou com o anúncio do projeto Ciclo Verde. Atualmente, inclusive, as ações estão ocorrendo em seu bairro.
Questionada sobre o que a motiva, Miriam é direta: "eu faço por amor, pela conexão com a natureza". A massoterapeuta ainda conta que sua intenção é realizar os plantios nas 15 praças que o bairro possui.
O mesmo sentimento é o que move a professora Ana Alpoim, 52 anos. Ela diz que sempre teve vontade de fazer algo ligado à natureza, mas nunca deu o "pontapé inicial". Em frente à sua casa, também na Cohab Fragata, fica a praça 12, ou "praça da creche" como é conhecida. Primeiramente, os vizinhos se reuniram com a intenção de criar uma horta comunitária, mas o projeto não foi adiante e a vontade de ocupar o espaço permaneceu. Foi então que há um ano ela decidiu realizar o plantio de árvores. Hoje já são quase 30. Quem frequenta o local tem a oportunidade de desfrutar - além da sombra - de bergamotas, bananas e outras frutas.
O desejo das amigas Ana e Miriam é que mais pessoas se inspirem a partir do exemplo delas. "Queremos despertar esse amor nas pessoas. Isso faz bem para o espírito, para a mente e para a saúde", finaliza a professora.
Ciclo Verde
Com o objetivo de fortalecer a gestão ambiental urbana da cidade, o Executivo municipal lançou em junho deste ano o projeto Ciclo Verde. O programa é constituído por três eixos e surgiu da necessidade de ampliação e manutenção das áreas verdes na cidade. A iniciativa acabou substituindo a Lei 6698, de 2019, que instituiu o projeto "Adote uma Área Verde".
Os três eixos de atuação do Ciclo Verde consistem no Bairro Verde, Compensatória Verde e Ação Verde. Nas ações do Bairro Verde, é feito um levantamento das demandas de manejo arbóreo em microrregiões da cidade. Após esse processo, as equipes da SQA fazem a avaliação das espécies a fim de verificar se há necessidade de poda, supressão ou transplante de árvores. Também é realizado o plantio de espécies adequadas para o local. Já na fase Compensatória Verde, pessoas ou instituições que realizarem a retirada de árvores devem fazer a doação, plantio e manutenção de mudas durante dois anos. O último eixo do programa é o Ação Verde, que consiste na busca por entidades que, através de uma parceria com a Secretaria, farão o plantio de mudas em áreas verdes da cidade.
O secretário de Qualidade Ambiental, Eduardo Schaefer, explica que a empresa deve apresentar um projeto do que fará na área que pretende adotar e, após, a SQA realiza uma análise para a assinatura do Termo de Adoção de Área Verde (TAV), através do qual a empresa fica responsável pela manutenção do local pelo prazo de 24 meses - tudo sob supervisão da Secretaria. Em troca pela adoção, é feita a publicidade com a instalação de placas institucionais. "Não estamos entregando áreas públicas para a iniciativa privada, isso não dá o direito de explorar comercialmente o local. Pelotas possui grandes empresas do setor de construção e queremos que haja uma concorrência saudável entre elas", comenta Schaefer.
A primeira ação do Ciclo Verde foi realizada no loteamento Umuharama, onde - em 15 dias - foram feitos 1.139 serviços entre podas, supressões e plantio de mudas nativas. O encerramento das atividades ocorrerá no próximo sábado, no canteiro central da rua Justino Severo Ribeiro, onde a equipe da SQA estará presente para conversar com a comunidade e haverá a distribuição de 200 mudas. Atualmente, os serviços estão concentrados na Cohab Fragata, onde já foi feita a identificação de 2.732 árvores, entre nativas e exóticas.
Na busca de incentivar ainda mais os pelotenses, a Secretaria realizou a doação de mudas no drive-thru da vacinação, no Centro de Eventos. Em dois sábados, foram três mil. Já no horto municipal, até junho, 1.185 mudas de árvores foram retiradas. Para pessoas que, assim como a Ana e Miriam, "adotaram" uma área verde, Schaefer adianta que está sendo estruturado o programa "A Praça é Nossa", que vai proporcionar a formalização e o reconhecimento do trabalho desenvolvido por essas pessoas.
Poderia ser melhor
A iniciativa dos moradores é comemorada por ativistas, no entanto é apontada ainda como insuficiente. Segundo Antonio Soler, um dos coordenadores do Centro de Estudos Ambientais (CEA), a resolução desta questão é muito mais complexa do que intervenções individuais. "Temos essa escassez de áreas verdes em Pelotas e, mesmo que simbólicas e importantes, essas ações não contagiam toda a cidade. Precisamos de políticas públicas permanentes que vejam onde há deficiência de áreas verdes e arborizadas", comenta. O advogado ambientalista ainda aponta uma série de benefícios proporcionados pelas árvores - tanto para a cidade, quanto para a população como a geração de oxigênio, escoamento fluvial e o combate a doenças.
Questionado pela reportagem do Diário Popular sobre o projeto "Ciclo Verde", Soler, que também é integrante do Conselho Municipal de Proteção Ambiental (Copam), diz que a iniciativa é inconsistente. "Eu acho que um projeto que parte da exclusão do Conselho que possui conhecimento técnico e histórico para sua elaboração não tem como dar certo. Como pensar em melhorar áreas verdes se exclui o acúmulo técnico?", questiona. De acordo com o advogado, o Copam não foi consultado ou informado oficialmente sobre o projeto. Por conta disso, o CEA está realizando uma análise jurídica do Ciclo Verde, que será levada ao Conselho. Ainda não há prazo para a verificação ser concluída.
A reportagem pediu o posicionamento do secretário sobre o assunto. Segundo Schaefer, o projeto foi planejado durante seis meses e, em sua visão, não houve necessidade de questionar o Copam. Ele reconhece o importante trabalho fiscalizador do órgão, mas diz que desde o lançamento do Ciclo Verde nenhum integrante do Conselho apresentou algum questionamento. "O Ciclo Verde é um projeto da SQA e estou aberto ao diálogo e a discussões", finalizou.
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