Saúde

Estudo da UFPel alerta para a presença de agrotóxicos no feijão

Trabalho foi realizado pelo engenheiro agrônomo Igor Lindemann, em dissertação de mestrado

Carlos Queiroz -

Um estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) alerta para os riscos do uso de determinados agrotóxicos no feijão caupi. Os herbicidas glifosato e paraquate, associados ao surgimento de doenças, foram encontrados no grão em quantidades muito superiores às determinadas pela Organização das Nações Unidas (ONU). A dificuldade em fiscalizar as propriedades é um dos motivos para a incidência desses produtos nas culturas.

Os agrotóxicos são usados para dessecar a planta (retirar por completo a umidade). Sua importância no processo produtivo está relacionada a melhores resultados na colheita mecanizada. O feijão caupi tem um processo de maturação muito heterogêneo, ou seja, os grãos não se desenvolvem igualmente. Os herbicidas são utilizados, portanto, para matar essas plantas e possibilitar uma colheita homogênea e com maior rendimento.

O uso dos herbicidas é permitido na dessecação pré-cultivo e no controle de plantas daninhas. A aplicação deve obedecer a uma série de especificidades pré-estabelecidas. Já a utilização desses agrotóxicos para dessecar a própria planta do feijão, como foi constatado no estudo, é perigoso à saúde. Diversos estudos associam o glifosato à ocorrência de Alzheimer e o paraquate ao desenvolvimento de câncer.

Nas plantas que receberam os herbicidas na fase de pré-colheita, os resíduos encontrados são muito superiores ao limite imposto pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e pela União Europeia (UE). Foram encontrados 13 miligramas de glifosato por quilo de feijão - o limite da FAO é de 2 mg/kg e da UE é 0,1 mg/kg. Os resíduos de paraquate representaram 0,84 mg/kg enquanto o máximo tolerado pela FAO é de 0,5 mg/kg e pela UE é 0,02 mg/kg.

Diferenças visuais também podem ser constatadas no feijão com e sem o uso irregular de herbicidas - o uso do paraquate e do glifosato é proibido na fase pré-colheita. Os grãos que receberam agrotóxicos são notadamente mais escuros. O tempo de cozimento também aumenta com a aplicação dos herbicidas e os grãos podem envelhecer mais rapidamente. Alterações na consistência do caldo do feijão, que fica mais fino, também foram percebidas.

Mercado nacional e internacional
A variedade caupi corresponde a 20% da produção nacional de feijão e é produzida em larga escala nos estados do Centro-Oeste e do Nordeste. Já as regiões que mais consomem são Sudeste e Nordeste, mas ele também chega ao Sul do Brasil e geralmente é utilizado no preparo de saladas. O excedente é exportado à Ásia e Europa.

O estudo é a dissertação de mestrado do engenheiro agrônomo Igor Lindemann e surgiu a partir de uma demanda da sociedade. Uma empresa sediada no Mato Grosso e comandada por um egresso da UFPel procurou a instituição para realizar a pesquisa e acabou financiando o seu desenvolvimento. A universidade enviou uma equipe ao estado para realizar parte do estudo.

A segunda parte da pesquisa envolve a digestibilidade dos grãos com e sem agrotóxicos. Usando uma técnica do Riddet Institute (Nova Zelândia), o engenheiro agrônomo simula o processo digestivo em laboratório e observa as diferenças. Esta fase ainda não possui resultados concretos. O estudo realizado com o feijão caupi também serviu de alerta para se pesquisar outras culturas, como a soja.

De acordo com o professor Nathan Vanier, coordenador da pesquisa, essa interação entre universidade e mercado está cada vez maior. “É muito importante retornar à sociedade, através de conhecimento e tecnologia, o investimento aplicado na UFPel”, ressalta. A formação do aluno também fica mais completa com a inclusão de atividades práticas, acredita. A intenção dos pesquisadores é levar o resultado do estudo para a cadeia produtiva do feijão a fim de aprimorá-la.

O estudo foi conduzido no Laboratório de Grãos da UFPel. Além do aluno Igor Lindmann e do professor Nathan Vanier, a pesquisa contou com a participação do professor Moacir Elias. Os docentes são ligados à Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel.

Fiscalização
O uso de glifosato e paraquate na fase pré-colheita do feijão e outros grãos é proibido no país. Apesar disto, sua aplicação é comum, especialmente nas propriedades de lavouras extensivas com áreas de cinco a dez mil hectares. Os estados do Centro-Oeste são os que mais registram a utilização dos herbicidas. A fiscalização fica a cargo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O órgão, porém, não consegue cuidar de todas as propriedades existentes no país.

Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

Natureza como opção de lazer Anterior

Natureza como opção de lazer

Escola Deogar Soares terá turno integral Próximo

Escola Deogar Soares terá turno integral

Deixe seu comentário