Indignação

Final de semana de protestos contra assédio e violência

Sábado e domingo foram marcados por atos de mulheres em protesto contra assédio, agressões físicas e impunidade em casos de violência

Carlos Queiroz -

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No domingo, jovens que se mobilizaram pela redes sociais foram à rua exigir punição a casos de violência (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Na semana em que repercutiram as imagens do julgamento do caso de estupro da influenciadora digital Mari Ferrer e em que duas jovens foram vítimas de feminicídios em Rio Grande e São Lourenço do Sul, o que estava entalado na garganta se transformou em gritos. A revolta com os episódios de violência levou centenas de mulheres às ruas em Pelotas no final de semana para protestar contra o machismo, assédio e cultura do estupro.

Foram pelo menos dois atos públicos. No sábado (7), o movimento chamado de "Mexeu com uma, mexeu com todas" concentrou no Mercado Público manifestantes vestidas de preto e portando cartazes. A maioria deles com frases ressaltando que "a culpa nunca é da vítima", em alusão à sentença que inocentou o empresário paulistano André Aranha da acusação de estupro de Mari Ferrer em Florianópolis. Segundo o juiz Rudson Marcos, apesar de testemunhos apontando que a influenciadora foi dopada e violentada, o entendimento foi de que Aranha não teve intenção de estuprá-la. O grupo circulou pelo Centro e lembrou também as mortes da lourenciana Tairane Bauer Macedo, 24, e da rio-grandina Simone Souza Cunha, 23.

O caso de jovem encontrada morta segunda-feira passada em meio às dunas da praia do Cassino com sinais de estupro e tortura foi, inclusive, a gota d'água para um grupo de estudantes. Já indignadas com o julgamento de Mari Ferrer, as adolescentes resolveram convocar um ato público no domingo (8) para chamar a atenção para a presença constante da violência contra as mulheres na sociedade.

"Quando vi a notícia do que havia acontecido no Cassino, fiquei chocada. Senti como se fosse minha irmã, minha mãe, alguém da família. E, infelizmente, é algo muito próximo de todas nós", diz Amanda Barbosa, 18. Estudante do Ginásio do Areal e uma das organizadoras do Manifesto Elas por Elas, conta que o objetivo dos gritos, cartazes e balões brancos estourados no Centro na tarde de domingo é semear a mudança. "Já fui assediada em um carro de aplicativo indo para uma festa. Todas aqui já passaram por algum tipo de assédio ou violência. É raro quem não passou por isso. A gente não pode ficar em casa parada como se nada estivesse acontecendo."

Felizmente, só maquiagem

Mais do que faixas, cartazes e camisetas, as marcas pelo corpo também foram usadas como um pedido de socorro. Armadas com pincéis e maquiagens, muitas jovens simularam lesões para chamar a atenção à violência física sofrida por mulheres diariamente em muitos lares. E que, não raro, resultam em nenhuma punição aos agressores.

Aos 22 anos, a esteticista Larissa Lopes de Souza pintou de roxo um dos olhos e, ao falar sobre o quanto já viu e viveu situações desagradáveis em pouco tempo de vida, adotou tom de indignação. Relatou enfrentar assédios em maior ou menor grau quase diariamente e lembrou que são poucas as mulheres que, se não sofreram abusos sexuais, conhecem alguém próximo que já passou pelo trauma.

"Uma prima foi abusada durante três anos por uma pessoa próxima, dentro de casa. Mesmo depois que teve coragem e fez a denúncia, o abusador foi inocentado. Nada aconteceu com ele", relembra. E conclui, com expressão fechada: "É uma caminhada difícil. Mas a gente luta para mudar isso".

Símbolos da violência

Caso Mari Ferrer - A influenciadora digital acusa o empresário paulista André Aranha de tê-la dopado e estuprado em 2018, quando trabalhava como embaixadora de uma casa noturna de Florianópolis. Na terça-feira passada, o réu foi absolvido após uma sessão em que Mari foi constrangida pelo advogado do empresário. O juiz Rudson Marcos concluiu que houve relação sexual de Aranha com a influenciadora, mas que ele não teve a intenção de cometer o estupro.

Simone Souza Cunha - A jovem de 23 anos foi encontrada morta segunda-feira nas dunas do Cassino com sinais de violência pelo corpo e estupro. Dois dias depois, um homem de 27 anos foi preso como possível autor do crime.

Tairane Bauer Macedo - Na noite de quarta-feira, a jovem de 24 anos foi morta a tiros na frente dos filhos de 3 e 7 anos. O suspeito é um ex-namorado que não aceitava o fim da relação com a vítima, que já havia pedido Medida Protetiva de Urgência.

 

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