Pela vida
Gestado, como prova de amor
A jovem Eliziane dará à luz Ravi, fruto da fertilização in vitro com o sêmen congelado do marido, que faleceu de Covid-19 em agosto de 2020
Carlos Queiroz -
O significado do nome traduz a beleza da história. Quando Ravi nascer, até o final do mês de agosto, será como a chegada de sol. De luz. Ter um filho era um dos sonhos mais acalentados pelo casal Eliziane Ourives Santos Lautenschlager, 30, e Marcelo Lautenschlager Sanches, 47. Em 29 de agosto de 2020, quando o assistente social não resistiu às complicações da Covid-19 - agressiva em meio a um tratamento oncológico -, o projeto de vida poderia ter se encerrado. Mas não.
Em setembro de 2018, logo que diagnosticou o câncer de medula em estágio já avançado, Marcelo decidiu pelo congelamento de sêmen. A medicação Talidomida, que seria utilizada junto à quimioterapia, poderia causar má-formação no bebê em uma gestação futura. O casal, então, foi alertado dos riscos e optou pela preservação do material genético. Em dezembro de 2020, passados pouco mais de três meses da morte do marido, Eliziane se encheu de coragem. De esperança. Chegava a hora da Fertilização In Vitro (FIV).
"É um renascimento", resume. "Era o nosso sonho e eu resolvi levar adiante. E penso que não é só pra mim. É pra toda a família", reforça.
Cada passo, com mais convicção
O resultado positivo foi conhecido em 24 de dezembro, véspera de Natal, quando a jovem estava na estrada rumo a Encruzilhada do Sul, sua terra natal. Ansiosa, decidiu parar em um restaurante para acessar o site do laboratório. Ao confirmar que estava grávida, era preciso extravasar. "Liguei pra Márcia, minha cunhada, e morremos chorando".
Era muita emoção. Muito simbolismo. A notícia ainda chegava no dia do aniversário de Maria, mãe de Eliziane, já falecida. "É preciso sempre persistir, sempre acreditar". Era o que havia feito. Ao se dirigir à clínica de fertilização, em Porto Alegre, optou em fazer a transferência de apenas um embrião, apesar da ressalva da equipe médica de que o procedimento poderia ser frustrado. Deu certo.
Com 13 semanas de gestação, convicta de que a gravidez iria em frente, era hora de compartilhar a alegria com as famílias. Foi uma vibração só. Dias depois, quando descoberto que seria um menino, a felicidade ampliava-se: Marcelo sonhava com um guri.
Hoje, ao olhar a data provável do parto, apontada nos exames de ultrassom, a história iniciada em 2014 quando os colegas do curso de Serviço Social da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) se conheceram e começaram o namoro, torna-se ainda mais mágica: 29 de agosto de 2021; exatamente um ano após a morte do pai.
Foi preciso vencer a revolta
Eliziane Lautenschlager recebe o Diário Popular em casa e fala com serenidade sobre os tempos difíceis que enfrentaram. Até conhecer o diagnóstico de mieloma múltiplo foram meses de exames e quatro médicos percorridos. Com a doença controlada, em julho de 2019, a esperança era o transplante de medula óssea.
O procedimento, entretanto, só foi realizado em dezembro, quando o câncer havia retornado com força e a resposta foi parcial. Em março de 2020, quando a Covid-19 foi declarada em Pelotas, Marcelo já estava em isolamento por conta da baixa imunidade. Em decorrência da pandemia, as consultas passaram a ser canceladas e o tratamento oncológico ficou completamente comprometido. A doença passou a avançar, cada vez, com mais agressividade.
"Tem que ter um suporte maior. Foi muito descaso", desabafa. Em agosto de 2020, quando Eliziane conseguiu na justiça acesso a uma nova medicação - Lenalidomida -, não disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), era tarde demais. Em nova internação hospitalar, Marcelo contraiu Covid-19. Chegou a ficar dez dias intubado, mas não resistiu.
Que a esperança se espalhe
Este final de semana será de sessão de fotos para registrar o desenvolvimento da barriga. Várias imagens do casal já foram impressas para compor o cenário. O momento é, sim, de celebração. Eliziane torce que a história possa servir de esperança para outros casais que enfrentam barreiras parecidas. E, embora admita que a Fertilização In Vitro envolva alto custo, hoje, com 33 semanas de gestação, sente Ravi mexer e assegura: "Me perguntam quanto eu gastei e eu digo: 'Não tem preço'".
Na clínica, na capital do Estado, há outros seis embriões congelados, mas só o tempo irá indicar o desfecho. De mais um ponto, a jovem tem convicção: o gurizão que já espalha luz, antes mesmo de nascer, haverá de ter orgulho da história que carrega. Em cada célula. "É uma prova de amor".
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