Reitoria

Gestão compartilhada

UFPel decide por gestão compartilhada entre reitora nomeada e reitor eleito

Carlos Queiroz -

Os docentes Isabela Andrade, nomeada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e Paulo Ferreira, eleito pela comunidade acadêmica e referendado em primeiro lugar pelo Conselho Universitário (Consun), irão dividir a Reitoria da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A decisão por uma gestão compartilhada foi anunciada em uma transmissão ao vivo na tarde desta quinta-feira (7) com a presença do reitor Pedro Hallal, dos componentes da chapa UFPel Diversa e de representante do DCE. As associações dos Servidores (Asufpel) e dos Docentes da UFPel (Adufpel) foram convidadas, mas não compareceram.

Na oportunidade, Hallal abriu a live frisando que todos assinaram um documento defendendo que o reitor eleito e referendado deveria ser o nomeado. “É uma defesa histórica, de muitas gerações, mas uma defesa sem desrespeito, pois a professora Isabela defende o nosso projeto”, falou, referindo-se que seguirão empenhados em tentar reverter a nomeação. “O projeto eleito vai ser tocado, quem é derrotado não faz gestão”, completou. O reitor, no seu último dia de gestão, destacou a importância de identificar quem, segundo ele, tentou, de fato, golpear a UFPel. “E nada disso aconteceria se não tivessem votado em alguém que defende torturador e a não vacinação”, disse, referindo- se a Jair Bolsonaro.

O reitor eleito, mas não nomeado, garante que a UFPel Diversa é formada por um grupo que tem um candidato e não por um candidato que tem um grupo. Ferreira relembra como funciona a consulta informal realizada pelas entidades e reforça que todos pertencem ao mesmo grupo político. “Estaremos juntos no gabinete para fazer muitas realizações na UFPel e estamos aptos a esse trabalho”, falou pedindo a união da comunidade nesse momento e crente que tem o direito de exercer o cargo para o qual foi eleito.

“Ontem foi, certamente, um dos piores dias da minha vida. Vi, em questão de horas, toda a trajetória que construí sendo descartada por alguns e dando lugar a discursos agressivos”. Foi assim que a reitora Isabela, que será empossada nesta sexta, iniciou sua fala. Por outro lado, ela ficou contente com o apoio e carinho que recebeu de outros tantos. “Daqueles que, assim como eu, desejam o melhor para a UFPel”, completou. Ela confessa que até quarta-feira estava preparada para assumir a pró-reitoria de Planejamento e Desenvolvimento, que, segundo ela, teve toda sua equipe e construção de projeto sob a liderança de Ferreira. “E cabe destacar que a equipe permanecerá exatamente a mesma”, disse, mas ainda sem um nome para ocupar o cargo de pró-reitor.

Diretora do Centro de Engenharias (Ceng) até então, ela garante que não tinha a intenção de assumir o cargo máximo de uma universidade, mas que, mesmo insatisfeita por não ver o colega eleito nomeado, está preparada para gerir a Universidade na forma compartilhada. “Não cairemos na estratégia de abrir mão de conduzir a UFPel pelos próximos quatro anos, pois temos uma comunidade bastante envolvida com o processo eleitoral. E eu, em particular, me coloco comprometida com isso”, completou.

A vice-reitora, Ursula Silva, seguirá com seu cargo de eleita. Entretanto chegou a colocar ele à disposição. Porém o grupo não aceitou, já que ela foi eleita como vice com 54,5% dos votos. A diretora do Centro de Artes (CA) frisa que todo projeto foi construído de forma coletiva com a comunidade acadêmica e ele seguirá valendo. “A Isabela tem o DNA do programa eleito”, disse. Para ela, a quebra de tradição em nomear o primeiro da lista ocorreu por um desvio de propósito do presidente, que visa debochar da autonomia das universidades, desvalorizar os servidores e gerar desavenças. “Seremos uma gestão que fará história por ter sido desafiada”.

Também presente na transmissão, o professor Eraldo Pereira, que nesta sexta-feira assume o cargo de pró-reitor de Extensão e Cultura - e membro da lista tríplice - foi enfático em dizer que o grupo está pronto para contra-atacar “esse golpe liderado por um sujeito machista, racista, homofóbico, genocida, que exalta torturadores e milicianos”. Ele relata que quando aceitaram disponibilizar os nomes para compor a lista tríplice, tinham a convicção que Paulo seria o reitor, mas não nega que precisariam estar preparados para qualquer outra decisão do governo. “Poderia ser eu no lugar da Isabela e somos tão alinhados que eu faria exatamente o que ela está fazendo: contra-atacar”, afirmou.

A ausência da Asufpel e Adufpel

Em nota, a Asufpel disse que a professora Isabela não foi votada pela comunidade e está assumindo o cargo de forma antidemocrática e que a atual gestão da UFPel busca de forma disfarçada aceitar a referida nomeação dando o nome de "democracia de alta intensidade". Também explicam que não compareceram na transmissão "porque nega-se compactuar com intervenções disfarçadas".

Além disso, informaram que em uma reunião na tarde de quarta-feira já estava decidido a posição e depois de uma série de discussões concordaram em fazer uma assembleia da comunidade universitária, mas hoje foram informados que seria uma live. "A coordenação da Asufpel mantém decisão, afirmando que reitor eleito é reitor empossado, qualquer outra definição é golpe", finalizou o documento. 

A Adufpel compreende que a não nomeação do reitor eleito caracteriza uma intervenção. Eles relatam o mesmo episódio da reunião, falado pela Asufpel. "Respeitamos a decisão tomada pela gestão, mas não concordamos com a interferência do governo federal na autonomia da UFPel e com o desrespeito ao processo democrático ocorrido através da consulta informal conduzida pelas três entidades representativas da comunidade e ratificada pelo Consun".

Detalhes da coletiva

Depois da transmissão ao vivo, a UFPel Diversa se reuniu de forma remota com a imprensa. Entre as inúmeras perguntas, Isabela foi indagada se alguém teria feito com ela e imediatamente respondeu que não. Porém, Hallal confessou que um assessor do deputado Bibo Nunes (PSL) fez contato com ela, mas que a resposta dada foi que caso quisesse conversar teria que ser com todo o grupo ao mesmo tempo. Nunes é um dos principais articuladores de Bolsonaro no Estado. Na quarta-feira, o deputado fez uma postagem no seu Facebook informando a nomeação de Isabela e dizendo: "Fazer pacto entre os votados não influencia. A norma é clara e deve ser respeitada". 

Outro questionamento foi a respeito dos salários, já que a gratificação recebida por um reitor é maior. Entretanto, a dupla garantiu que esse assunto nem teria surgido, mas que, com certeza, o aumento seria para a reitora nomeada. Ainda em um cenário de incertezas, eles acreditam que Ferreira terá no papel um cargo de assessor e receberá por isso.

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