Imunizações

Infectologistas alertam para importância de obedecer calendário de vacinação

Segundo profissionais, em caso de atraso no período entre doses, eficácia pode ser comprometida

Mesmo após quase três meses do início da vacinação em Pelotas algumas dúvidas ainda preocupam idosos, familiares e aqueles que aguardam ansiosos a imunização contra a Covid-19. Uma coisa é certa, a comunidade médica avalia que um dos principais focos das campanhas é ressaltar a importância de ser imunizado com as duas doses. Porém, muitas pessoas ainda se questionam quanto ao intervalo entre elas, bem como a eficácia e quando poderemos voltar ao "velho normal".

A neta de uma idosa de 90 anos, residente em uma instituição de longa permanência, respirou aliviada ao saber que depois de 49 dias a avó finalmente tomou a segunda dose da vacina contra o coronavírus. A mulher, que prefere não se identificar, questiona o tempo de intervalo entre a primeira e a segunda aplicação. "Meu receio diz respeito a eficácia, pois o que se sabe até agora é que deve ocorrer entre duas a quatro semanas. No caso da vó e dos outros idosos que moram na casa esse intervalo foi de sete semanas", comenta.

O questionamento da neta da idosa ganha força na falta de análises mais aprofundadas sobre esses prazos. Segundo a médica infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi, é importante estar atento aos prazos estabelecidos para os diferentes tipos de vacinas, podendo comprometer a eficácia destas em caso de descumprimento do intervalo. "Se há um atraso na segunda dose este deve ser o menor possível, se em vez de fazer com 28 dias a vacina for feita com 60 dias de intervalo, por exemplo, a gente não sabe qual a eficácia exata e pode sim ter uma eficácia reduzida. Por isso, é importante fazer a segunda dose no tempo mais próximo da data que é colocada pelo laboratório", afirma.


Proteção não é imediata


Infectologistas reforçam que uma dose de vacina garante uma resposta imunológica menos eficaz do que a produzida após o efeito da segunda aplicação. Em outras palavras, a primeira dose prepara o sistema imunológico para um ataque viral e a segunda aumenta a imunização. Por isso, estudos divulgados pelas empresas fabricantes mostram que existe eficácia com uma aplicação, mas abaixo do obtido com a imunização completa, logo o calendário deve ser seguido corretamente.

Durante o intervalo caso a pessoa seja contaminada pelo coronavírus, o período entre as duas doses deve ser obrigatoriamente maior. Segundo Raquel, após ter o exame positivo, a segunda aplicação acontecerá após 30 dias, valendo para todas as vacinas. "Se eventualmente, por algum motivo, a pessoa recebe a primeira dose da CoronaVac, por exemplo, e tem covid entre a primeira e a segunda dose ela não vai tomar a segunda dose em 28 dias, precisa esperar 30 dias. Logo, vai ser um pouquinho depois".

No caso da CoronaVac, o intervalo entre as doses deve ser de duas a quatro semanas - a recomendação da Secretaria Estadual da Saúde (SES) estipulou um intervalo de quatro semanas. Já a de Oxford, também utilizada no Brasil, o espaço é um pouco maior, de 4 a 12 semanas, para a imunização total de 82%. Em ambos casos, a profissional afirma que é necessário aguardar no mínimo duas semana após a segunda aplicação para o organismo atingir o maior nível de proteção.

A infectologista do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Danise Senna, ainda afirma que caso o paciente ultrapasse o prazo, não existe a necessidade de reiniciar o esquema de vacinação. "Dose de vacina dada nunca é perdida, então mesmo tendo um prazo um pouco maior entre a primeira e a segunda dose, você não repete o esquema novamente, você apenas completa esse esquema de imunização", esclarece.

Mesmo após a imunização, os cuidados devem seguir

Após a imunização completa, manter os cuidados contra a covid-19 seguem sendo primordial, uma vez que mais da metade da população precisa estar imunizada para podermos pensar em afrouxar as restrições. "Mesmo tomando as vacinas nós devemos continuar com as medidas de bloqueio de transmissão, ou seja, usar máscara corretamente, manter o distanciamento social e higienizar as mãos. Só poderemos repensar sobre a intensidade do uso desse bloqueio de transmissão quando nós tivermos possivelmente 70% da população vacinada, que ao que parece será só em 2022", declara a médica infectologista da Unicamp.

Mesmo com perspectivas pouco favoráveis para uma volta à "normalidade" neste ano, paciência deve ser a ferramenta primordial neste processo de imunização da população. Para isso Stucchi reforça sobre a importância da vacinação em massa e de que todos cooperarem no processo. "Já vimos isso pela experiência internacional, é a única forma de se controlar a pandemia. Então quando a gente se vacina, a gente procura uma proteção individual, mas a gente colabora também para a diminuição da circulação do vírus na sociedade e acaba protegendo a sociedade como um todo. Não existe no momento nenhuma outra forma de controlar a pandemia com essa eficácia e sem ter muito prejuízo para a economia, que não seja a vacinação", finaliza.


O que diz a prefeitura

Questionada pela demora na aplicação da segunda dose no lar de idosos, que ontem completou 49 dias, a chefe da Vigilância Epidemiológica da SMS, Aline Machado da Silva, informou por meio de nota que quatro das 55 ILPIs que ainda não haviam recebido as doses, mesmo após o prazo estipulado, pois estavam em monitoramento após a ocorrência de surto de casos da Covid-19. Contudo, no residencial da idosa de 90 anos a proprietária nega que tivesse qualquer tipo de surto ou mesmo, algum morador com sintomas gripais. A Vigilância informou ainda, que em três delas deve concluir nesta semana a imunização.

 

Intervalos e a eficácia das vacinas

Coronavac
Intervalo entre as doses: 14 a 28 dias
Eficácia após duas doses: 50,4%

Oxford/AstraZeneca
Intervalo entre as doses: 28 a 84 dias
Eficácia após duas doses: 82%

Pfizer/BioNTech
Intervalo entre as doses: 21 a 28 dias
Eficácia após duas doses: 95%

Sputnik V
Intervalo entre as doses: 21 dias
Eficácia após duas doses: 91,6%

Moderna
Intervalo entre as doses: 28 dias a 42 dias (em circunstâncias excepcionais)
Eficácia após duas doses: 94,5%

Johnson & Johnson
Intervalo entre as doses: Dose única

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