Polêmica

Insegurança nos arredores da Casa Kraft

Vizinhos sofrem com a ação dos bandidos, que utilizam o local para acessar outros imóveis

Jô Folha -

Dez meses se passaram e o futuro da Casa Kraft segue nas mãos da Justiça. Mas enquanto o Poder Judiciário não decide o que fazer com o imóvel, quem mais sofre com o abandono do local são os moradores das redondezas, que convivem com constantes tentativas de assalto e arrombamento.

Os proprietários da casa, localizada na esquina da Antônio dos Anjos com a General Osório, colocaram um muro de concreto para impedir que bandidos utilizem o local como ponto de acesso aos outros imóveis, mas não adiantou. O portão foi arrombado pouco depois. Para piorar ainda mais a situação de quem mora naquela região, recentemente uma casa colada à Kraft foi abandonada pelos donos - também cansados da criminalidade no local. Com isso, os bandidos ganharam mais um local para se esconder e planejar os assaltos por ali.

Maria Elizabeth Seixas Frias, 67, e Laura Alam, 49, convivem diariamente com medo de sofrer uma nova tentativa de assalto. O apartamento que elas moram é colado ao muro da casa e nem mesmo as grades em todas as janelas impediram a ação dos criminosos. Até uma televisão de tela plana eles tentaram levar por entre as grades. Recentemente foi instalada uma cerca elétrica no local, que disparou há alguns dias após mais uma investida dos ladrões.

Após alguns assaltos por ali, Laura mobilizou a vizinhança e conseguiu cerca de 300 assinaturas para ingressar com uma ação no Ministério Público para tirar o embargo da obra. “Busquei porque estava demais. Rebentaram a porta de uma loja embaixo do meu edifício. Na minha casa entraram umas seis vezes, mais ou menos, e tudo começou quando paralisaram a obra. Eu não durmo mais, estou tendo até que fazer terapia. Tive que reforçar todas as aberturas da minha casa. Não tem condições de viver dessa forma”, lamenta.

Local segue sem proteção
Laura lembra que registrou boletim de ocorrência apenas uma vez. Mas ligou várias vezes para a Brigada Militar e relata diversas idas da Guarda Municipal ao local. Apesar disso, o secretário de Segurança Pública, José Apodi Dourado, informa que o Observatório de Segurança Pública não registrou denúncias ou reclamações de moradores do entorno da Casa Kraft nos últimos meses, relativas a furtos ou roubos.

O Observatório avalia semanalmente as ocorrências notificadas no município e repassa as informações aos órgãos de segurança pública. É importante esclarecer que, para que as forças policiais possam aplicar medidas, é preciso que os cidadãos registrem as situações quando elas ocorrerem.

Em relação ao cercamento do terreno, o secretário de Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana, Flávio Ferreira, explica que se trata de uma propriedade privada e cabe ao proprietário a sua defesa, bem como impedir que moradores de rua invadam o local.

Na Justiça
Enquanto os moradores convivem com o medo, o caso segue na esfera judicial. Com a obra embargada – não é possível demolir ou reconstruir o que ficou – foi concedido o pedido de prova pericial para confirmação do valor histórico e cultural da Casa Kraft.

A demolição de parte da estrutura foi um duro golpe para aqueles que iniciaram a luta pela preservação do imóvel. A arquiteta e urbanista Letícia Aguilera foi uma das responsáveis por coordenar pela mobilização da comunidade e pelo abaixo-assinado virtual, que reuniu mais de 4 mil assinaturas em menos de 12 horas.

Para ela, a pressa da construtora em colocar a casa abaixo quando o caso começou a ganhar repercussão foi determinante para que este imbróglio siga até hoje. “A construtora viu o que estava acontecendo o rebuliço da petição, imaginou que poderia sair o cancelamento do alvará de demolição e correr para derrubar, justamente o que descaracterizou a casa, que é o pórtico de entrada, todos os ornamentos e a cobertura”, conta.

No lado financeiro, porém, os mais afetados por toda situação em torno da Casa Kraft são os proprietários. Devido a repercussão negativa, a Droga Raia desistiu de construir sua unidade no local. Isso deixou os Irmãos Becker, donos do imóvel, sem a venda, com a casa completamente deteriorada e sem uma perspectiva de solução no médio prazo.

Aires Frederico Becker, um dos proprietários, manifestou contrariedade com a decisão da Justiça, e reiterou que o imóvel não faz parte do período histórico do município e, por isso, a demolição nunca deveria ter sido interrompida. “Eles dizem que é uma casa no estilo das casas antigas de Pelotas, mas na verdade não é. É uma casa da década de 1950, uma casa que não faz parte daquele período histórico de Pelotas. (...) o dono quando quis construir fez ela com colunas, com coisas para chamar a atenção. Tipo uma cópia da Casa Branca, dos Estados Unidos.”

Relembre
Construída na década de 1950, a casa pertenceu à família Kraft até 1985. Em 2020, a casa foi vendida para investidores, que iniciaram o processo de demolição para a construção de uma farmácia. Com o início da destruição da fachada em setembro do ano passado, uma forte mobilização com iniciativa de profissionais da área da arquitetura ligados à UFPel, foi promovida através das redes sociais, com manifestações contrárias ao desmanche. Diante da repercussão, a empresa optou pela rescisão contratual com os proprietários. Desde então, o imóvel segue parcialmente demolido.

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