Prestígio

Lancet publica carta de Pedro Hallal sobre ataques à ciência no país

Epidemiologista e ex-reitor da UFPel assina o documento "SOS Brasil: ataques à ciência" em um dos mais prestigiados jornais científicos do mundo

A ciência está sob ataque no Brasil. E as consequências desses ataques se refletem no déficit de enfrentamento da pandemia no país e nas mortes evitáveis de milhares de brasileiros por coronavírus. É o que alerta carta publicada nesta sexta-feira (22) pela revista The Lancet, um dos mais prestigiados jornais científicos do mundo na área da saúde, e assinada pelo epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Hallal.

A publicação do texto “SOS Brasil: ataques à ciência” se dá após uma série de ataques do presidente Bolsonaro e seus apoiadores a Hallal, desde que o líder do maior estudo epidemiológico sobre a Covid-19 no Brasil testou positivo para a infecção por SARS-CoV-2 em dezembro de 2020.

O texto aponta que o Brasil ocupa o segundo lugar em número de mortes da Covid-19 e o terceiro em número de casos em todo o mundo. “Como cientista, tendo a não acreditar em coincidências”, diz Hallal. Os números brasileiros do coronavírus evoluíram ao lado de uma sequência de manifestações públicas do Presidente, desde o início da pandemia, de descrédito em relação à gravidade da infecção, à importância das medidas de distanciamento social e ao impacto sobre o número de mortes. “É só uma gripezinha”, declarou em março; “Há sinais de que a pandemia está chegando ao fim”, disse em abril; “E daí? O que querem que eu faça”, respondeu a jornalistas, em maio, quando questionado sobre o então crescente número de mortes por Covid-19 no país. Essa última declaração já havia levado os próprios editores do Lancet a sinalizarem, em editorial da revista, que “talvez a maior ameaça ao enfrentamento brasileiro contra a Covid-19 seja o seu próprio presidente, Jair Bolsonaro”. Hallal cita também que desconhece qualquer outro chefe de estado no mundo que tenha declarado que não se vacinará. Além disso, lembra que o Presidente desencorajou à população a tomar a vacina quando disse: “Se você virar um jacaré, problema seu”.

Embora essas afirmações sejam ultrajantes, o texto destaca que a resposta do Brasil à pandemia é o aspecto mais grave em meio à crise sanitária. As críticas são endereçadas à baixa cobertura da testagem no país, à falta de uma política de rastreamento de contatos, à campanha contra o distanciamento social e à falta de seringas e agulhas no início da campanha de vacinação. Por outro lado, Hallal parabeniza os pesquisadores e institutos de pesquisa brasileiros no enfrentamento da Covid-19, em especial o Butantan e a Fiocruz, que tiveram papel fundamental na corrida cientifica global pela vacinação.

O histórico de ataques à ciência, no entanto, remonta ao início do mandato de Bolsonaro já em 2019, quando a ciência foi alvo de políticas de cortes de recursos e posturas de negacionismo. O ex-Diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão, foi demitido após comentar dados sobre desmatamento na Amazônia. Além disso, os ex-Ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, discordaram publicamente do Presidente ao defender recomendações científicas para enfrentar a pandemia.

“Nunca imaginei que eu seria o próximo”, diz Hallal, em relação aos ataques. O epidemiologista foi convocado em três ocasiões para reuniões presenciais no Ministério da Saúde em Brasília. Quatro dias após sua última visita à Brasília, em dezembro de 2020, começou a apresentar sintomas de Covid-19. Ele conta que, assim que sua infecção foi divulgada pela mídia, passou a ser acusado de hipocrisia e de “pregar moral de cueca”. Em 11 de janeiro, Hallal foi criticado em uma espécie de “ataque orquestrado” por um deputado e um jornalista durante entrevista a uma rádio. Três dias depois, o próprio Presidente Bolsonaro publicou em seu perfil no Twitter o trecho específico do programa de rádio no qual a infecção de Hallal é mencionada. Nesta mesma rede social, chama a atenção o fato de que uma mensagem do próprio Ministério da Saúde foi sinalizada por violar as regras da plataforma em relação a postagens de informações enganosas e potencialmente prejudiciais sobre a Covid-19.

Por fim, Hallal quantifica a consequência do fracasso brasileiro no enfrentamento da pandemia. Se o Brasil tivesse um resultado igual a média mundial, 156 582 mortes teriam sido evitadas até o dia 21 de janeiro de 2021. E encerra o texto dizendo: “Atacar cientistas definitivamente não vai ajudar a resolver o problema”.

A carta do epidemiologista brasileiro, publicada no The Lancet, está disponível no link a seguir: http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(21)00141-0/fulltext

 

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