Polêmica
Liminar interrompe a demolição da casa Kraft
Após mobilização da comunidade, juiz deferiu o pedido de suspensão da destruição da estrutura durante 30 dias. Droga Raia afirma que irá rever o projeto da unidade que será construída
Carlos Queiroz -
A história da casa Kraft ganhou mais um capítulo nesta quinta-feira (10). Depois da mobilização dos pelotenses que se mostraram contrários à demolição da estrutura, a Promotoria de Justiça do Ministério Público (MP) entrou com uma ação cautelar com o objetivo de interromper a demolição, que já havia iniciado na quarta-feira. Ainda pela manhã, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul emitiu a liminar que suspendeu a destruição do imóvel. Diante das manifestações a empresa, proprietária da área, informou que irá rever o projeto e possivelmente, revitalizar a área.
A mobilização ganhou força nos últimos dias e a ação foi enviada para a Justiça ainda na quarta-feira. Conduzido por arquitetos da cidade e por professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas (Faurb-UFPel), o grupo redigiu um documento, que foi enviado ao MP. "Encaminhamos para a promotoria especializada nesta área de patrimônio. Era necessário um laudo técnico, que justificasse o valor histórico, imaterial, arquitetônico que a construção possui. O laudo foi feito na quinta-feira e encaminhado", explicou a arquiteta Letícia Aguilera, uma das integrante do grupo. O abaixo-assinado que expressa o descontentamento dos pelotenses já reúne cerca de cinco mil assinaturas.
A casa não consta no inventário, mas a liminar emitida pelo tribunal gaúcho interrompe o processo de demolição. Depois da expedição desta liminar, o Ministério Público vai aprofundar a análise com relação ao valor histórico-cultural do imóvel para verificar se haverá o ingresso de uma nova ação principal. "Eu vou pedir uma análise mais completa mais técnica para avaliar este valor histórico. Confirmando esta condição, vou ingressar com uma ação civil-pública para que ele seja preservado e reconstituído no que for possível após a demolição parcial desta quarta", explicou o promotor André Borba, responsável pela ação junto no judiciário. A liminar tem um prazo de 30 dias e multa diária de R$ 2 mil em caso de descumprimento.
O processo de demolição da casa, localiza na rua Antônio dos Anjos, esquina Osório, se iniciou na última quarta-feira. A partir desta liminar e desta interrupção da demolição, será necessário mais um estudo técnico que avalie a estrutura da casa, como ela foi comprometida e quais áreas poderão receber reforço. Alguns efeitos da demolição parcial são irreversíveis e agora pertencem à história da casa, mas restauros pontuais em busca da preservação do patrimônio poderão ser viabilizados a partir desta avaliação técnica.
UFPel lança nota pela preservação do patrimônio
A gestão da UFPel divulgou uma nota nesta quinta com o seu lamento pela destruição do imóvel. A universidade apontou que a demolição fere a paisagem pelotense e que estes elementos da paisagem urbana contribuem nas definições de afeto, pertencimento e identidade dos moradores de Pelotas. A instituição afirmou prezar pelo patrimônio, principalmente por aqueles que sustentam memórias e que colaboram para este senso de identidade e fez um apelo junto às autoridades para que mantenham a estrutura do local.
A UFPel ainda exemplificou que é possível o aproveitamento do patrimônio existente, com estruturas que são utilizadas pela própria instituição. Segundo a gestão, a manutenção da paisagem urbana mobiliza a comunidade para preservar a cidade histórica na qual a instituição se localiza. Ainda disse ser um compromisso da UFPel a continuidade do reconhecimento nacional da cidade como detentora de um patrimônio cultural de grande destaque.
Droga Raia irá manter o projeto
A farmácia que atuará na área do imóvel pertence à rede Droga Raia. Mesmo cabendo recurso com relação à liminar, a instituição não deve recorrer. Durante a tarde desta quinta-feira, a empresa também prestou esclarecimentos. A rede afirmou que firmou contrato com investidores da região e escolheram a casa Kraft, justamente, por não ser tombada. Entretanto, ao perceber as manifestações das redes sociais, a Droga Raia compreendeu a importância do imóvel para o patrimônio histórico da cidade e para a memória dos pelotenses. Desta forma, solicitou aos investidores e proprietários do imóvel, que a demolição fosse interrompida, de forma que a estrutura da casa fosse preservada.
A partir desta ação, a Droga Raia informou que o projeto está sendo revisto com os parceiros da nova loja para que seja avaliada uma alternativa que não envolva a demolição do imóvel, mas sim a revitalização da estrutura. A empresa ainda pontuou que, caso isso não seja possível, irá buscar outro local na cidade para instalar a sua nova unidade. A empresa possui 36 lojas em imóveis tombados, nos quais manteve a arquitetura original. Mas, diante desta situação em Pelotas, a Droga Raia se comprometeu a rever as negociações de imóveis de valor histórico e cultural, ainda que não estejam tombados ou não pertençam aos inventários dos municípios.
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