Efeitos da pandemia
Mais de 20,3 mil pessoas vivem em extrema pobreza em Pelotas
Em nível nacional, 19 milhões de cidadãos enfrentam o drama da fome; tema foi abordado em evento promovido pela UFPel
Na geladeira, água em garrafas pet. No cardápio, "carcaça é luxo". Há mais de um ano, Elisandra Lessa, 32, vê a crise se acentuar. Não sabe o que levará ao prato na próxima refeição. E não está sozinha. Em Pelotas, mais de 20,3 mil pessoas vivem em situação de extrema pobreza - apontam dados do Ministério da Cidadania. Em nível nacional, a miséria é a maior já registrada desde 2004: 19 milhões de pessoas - correspondente a 9% da população - passam fome.
O tema foi o ponto central do evento Uma abordagem fenomenológica da fome, promovido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) na tarde desta segunda-feira (28). Em pouco mais de uma hora, a autora do livro Agonia da fome, Maria do Carmo Soares de Freitas falou sobre a tragédia que atinge mais de 116 milhões de cidadãos no país; famílias inteiras que enfrentam a insegurança alimentar - como demonstrado em pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).
"As pessoas estão em desespero", resume a professora do departamento de Nutrição da Universidade Federal de Bahia (UFBA). E com a experiência de quem realizou estudo minucioso junto à comunidade do bairro popular Pela Porco, em Salvador, reforça: "A fome é algo que gera muitos traumas para toda a vida".
Ações precisam ser urgentes
Maria do Carmo é enfática: só com a vacinação ampliada, para barrar a circulação do novo coronavírus, o cenário terá possibilidade de começar a mudar. E é preciso velocidade. Duas medidas principais precisariam ser desencadeadas pelo governo federal enquanto a crise social se agrava: auxílio emergencial de, no mínimo, R$ 600,00 - equivalente a famílias de quatro integrantes - e redução imediata no preço de itens básicos de alimentação, assim como do gás de cozinha.
"Não podemos mais continuar negando a realidade social. Não combater a Covid-19 e a fome é uma forma de maus-tratos à população", destaca a doutora em Saúde Pública.
Se não tem para todos, comem os filhos
A moradora do loteamento Getúlio Vargas, Elisandra Lessa, 32, viu a renda minguar, à medida que a pandemia se espalhava pelo país. A média de duas a três faxinas por semana foi a zero. E ainda que o valor cobrado da clientela fosse baixo - de R$ 40,00 a R$ 50,00 -, o orçamento familiar sofreu um baque. O marido também viu os bicos na área de Serviços Gerais, praticamente, desaparecerem.
Atualmente, o casal e os três filhos vivem com R$ 257,00 do Bolsa Família. E dependem, claro, de doações. "Se a gente vê que não vai ter comida pra todos, a gente guarda para os pequenos", conta. E alivia-se com o fato de que o caçula Homar, de um ano e dois meses de idade, ainda mama. Ao menos um dos filhos terá alimento garantido, se a escassez apertar.
Na tarde desta segunda, quando recebeu o Diário Popular, armários e geladeira eram praticamente vazios: havia apenas arroz, sal, óleo e um pouco de feijão, que precisou acabar de ser preparado em um fogãozinho elétrico. Não havia dinheiro para comprar novo botijão. "E a gente tem que ter um sorriso no rosto. A esperança é a última que morre", diz Elisandra.
Agora, além da fome, o frio também aterroriza. O chalé possui apenas duas peças. Uma delas é o quarto separado em dois ambientes. A outra divide-se entre cozinha e banheiro, demarcado por uma cortina de pano, para que os banhos de balde tenham um pouco mais de privacidade. "Mas pelo menos este é o meu cantinho. Posso assinar embaixo: 'dona´". E quando olha para o futuro, procura enxergar tempos melhores. A mensagem para as filhas Larissa, 15, e Maria Eduarda, 11, é reforçada a todo o momento: "Estudem, para ter mais chance". Mas agora, por hoje, o que eles precisam é de comida nos armários.
Para saber mais
Quem quiser conhecer mais resultados de pesquisa realizada pela Rede de Pesquisa e Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) pode acessar o site olheparaafome.com.br.
Faça sua doação - Campanha São João Solidário
* Podem ser doados: Alimentos não perecíveis, medicamentos, roupas, cobertores e ração para pets
* Até quando: Quarta-feira, dia 30
* Pontos de arrecadação:
- 4º Batalhão de Polícia Militar: avenida Bento Gonçalves, 3.207
- Sesc: rua Gonçalves Chaves, 914
- 9° Batalhão de Infantaria Motorizada Regimento Tuiuti: avenida Duque de Caxias, 344
- Casa do Laranjal Sesc/Prefeitura de Pelotas: avenida Doutor Antônio Augusto Assunção
- Pelotas Parque Tecnológico: avenida Domingos de Almeida, 1.785
- Associação Rural de Pelotas: avenida Fernando Osório, 1.754
(*) A campanha é uma realização do Diário Popular em parceria com a Live Studio, Fly Câmera, Brigada Militar, Exército e Sesc Pelotas
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