Inclusão

Mais espaço para surdos e mudos

Pandemia transparece a importância da linguagem de sinais para a comunidade

Jô Folha -

Eles são de extrema importância para um público definido, mas deixaram seu trabalho mais evidente para todos com a chegada da pandemia e a consequente dominação das lives através das plataformas digitais. Seja em aulas, espetáculos de arte ou em pronunciamento oficial, os intérpretes de libra são necessários para auxiliar a população surda, que ainda carece de meios que permitam uma maior acessibilidade.

De acordo com dados da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em 2019 a cidade possuía uma população de aproximadamente mil surdos e surdas. Somente no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) Campus Pelotas, quatro alunos, um professor e um assistente administrativo se encaixam neste grupo, e possuem hoje o auxílio dos intérpretes de libras que os acompanham em qualquer atividade pedagógica, desde o Ensino Médio Integrado até o Doutorado, oferecendo a todas as pessoas as mesmas oportunidades.

Entre os oito profissionais está Luciane Kaster, 38, que dedica 21 anos de sua vida à profissão, sendo uma das primeiras profissionais da área a atuar em um dos campi do IFSul. A tradutora afirma que a rotina, que antes da pandemia se limitava ao trabalho no Instituto, se expandiu chegando a palestras de empresas e até mesmo espetáculo do Grupo Tholl. "A visibilidade que teve o nosso trabalho durante esse tempo foi incrível. Para tudo é necessário ter intérprete, os surdos não podem ser excluídos do resto da sociedade, eles também devem ter o direito de assistir lives, fazer cursos, coisas tão simples", comenta.

Formada em Letras e cursando a 5ª pós-graduação na área, Luciane compartilha que desde pequena possui contato com a língua de sinais. A existência de uma prima surda possibilitou a entrada da Libras na família. A oportunidade da primeira tradução surgiu quando estava próximo aos dez anos de idade, em uma tarde de domingo, enquanto ambas assistiam televisão. "Minha prima virou para mim e pediu para que traduzisse a música Aquarela", relata. Ela conta que desde muito jovem se interessou em aprender para poder conversar e exalta a necessidade das crianças terem contato desde cedo para poderem interagir, mesmo que o mínimo possível, com pessoas com essa condição.

Em busca da valorização coletiva

Em Pelotas, cerca de 40 profissionais intérpretes estão em atuação. Para poder trabalhar no ramo é necessário certificado no curso de Tradução e Interpretação de Libras, que inclusive é ofertado pelo IFSul em algumas oportunidades. Além disso, em 2006 foi ofertado pela primeira vez no país o curso de Licenciatura em Letras - Língua de Sinais Brasileira, graduação que ainda não é oferecida por nenhuma instituição na cidade.

Quanto à valorização do profissional, Luciane afirma que ainda há necessidade de maior compreensão da importância da atividade. "Estamos aparecendo em tudo, mas vemos que as instituições querem apenas um impacto visual. Muitos querem um intérprete porque tacham como bonito ter um, mas colocam uma espaço pequeno, que mal há condições de visualizar os sinais. Não queremos que nos deem parabéns pelo trabalho, queremos respeito e que seja acessível à essa população."

Apesar disso, a intérprete acredita que a permanência da Libras em todos os locais deverá ser um legado. "Tecnologia e acessibilidade vão ser duas coisas que vieram para ficar, sem retrocesso. Até mesmo porque os próprios surdos agora começarão a reivindicar quando não tiver quem traduza. Se tem durante a pandemia, por quê não ter após?"

Central de Intérpretes sem sair do papel

Um dos pontos bastante discutidos e reinvindicados é quanto ao atendimento de pessoas surdas diante da Covid-19. Devido à inexistência de uma Central de Intérpretes, consequentemente com a ausência de profissionais, principalmente em pontos de vacinação, tradutores, através de suas redes sociais, estão mantendo contato com o público e indo de forma voluntária aos locais de aplicação das doses visando auxiliar durante a imunização.

Há alguns anos é discutida a criação de uma Central de Intérpretes de Libras em Pelotas, onde tradutores contratados seriam acionados para auxiliar surdos no acesso a serviços e eventos públicos. Contudo, o projeto nunca foi consolidado e colocado em prática.

Em nota, a prefeitura afirma que reconhece a relevância para a comunidade pelotense, porém esbarra nas dificuldades financeiras que tornaram inviável a instituição do serviço. Outro agravante apontado como justificativa pelo Executivo foi chegada da pandemia e a limitação de gastos, sendo "impossível dar andamento a esse pleito" pela exigência de contratação de profissionais. Além disso, a prefeitura alega ter dificuldade de encontrar intérpretes disponíveis. Atualmente, quatro intérpretes de Libras compõem o quadro de servidores da Secretaria de Educação e Desporto (Smed).

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