Fake é pop

Na era das fake news, a mentira vai além do 1º de abril

Especialistas explicam como as mentiras se difundem na rede e impactam a sociedade

Foto: Reprodução/Internet - Imagens como a do Papa Francisco vestindo uma jaqueta são feitas através de inteligência artificial e alertam para os enganos que podem causar

“Uma mentira pode viajar meio mundo enquanto a verdade está calçando seus sapatos”, diz uma frase falsamente atribuída ao escritor Mark Twain. Um hábito intrinsecamente humano, a mentira faz parte do nosso dia a dia. Gostemos ou não, a mentira permeia as relações sociais, amorosas ou políticas, e a facilidade de circulação da informação com o advento das redes sociais tornou possível que as mentiras se espalhem numa rapidez desconcertante, colocando em risco a noção de mundo, a vida de pessoas e o futuro de nações inteiras.

Essas mentiras do ambiente digital ganharam até um nome próprio: fake news. Nos últimos anos, a circulação indiscriminada de notícias falsas no ambiente digital gerou a preocupação de estudiosos e instituições e colocou em risco a democracia em diversos locais do mundo.

Uma pesquisa divulgada no ano passado pelo Poynter Institute, com apoio do Google, revelou que 43% dos brasileiros afirmam receber notícias falsas diariamente e que 65% temem que eles mesmos ou que seus parentes caiam em notícias falsas. A pesquisa também mostrou que quatro em cada dez brasileiros admitem ter compartilhado notícias falsas acidentalmente em algum momento.

Plataformas facilitam a mentira
A doutora em Comunicação e Informação e coordenadora do Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais da UFPel, Raquel Recuero, diz que a estrutura das plataformas facilita a disseminação de mentiras, dando visibilidade para que as pessoas recebam informações tendenciosas. Em parte, isso acontece porque o algoritmo das plataformas favorece que as pessoas recebam sempre conteúdos parecidos. “Isso gera a falsa impressão de que todos concordam com algo ou a falsa impressão que de um fato é verdadeiro e acabam filtrando os discursos que podem gerar desconfiança ou mesmo debater aquele conteúdo falso”, explica a professora.

A especialista considera que é necessário que os governos regulamentem essas plataformas. “Essa circulação faz com que essa plataforma fique mais rica, ela ganha dinheiro com isso, então precisa existir um regramento”, avalia, dizendo que é necessário que essa ação aconteça em sintonia com outros países.

Os avanços da tecnologia permitem que fake news sejam cada vez mais convincentes, como as imagens do Papa Francisco de jaqueta branca ou do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sendo preso. As fotos falsas, extremamente convincentes, foram feitas com Inteligência Artificial (AI), em sistemas como Midjourney e DALL-E, que criam fotografias falsas a partir dos comandos de um usuário. Outro sistema de AI que chamou atenção nos últimos meses é o ChatGPT, que elabora textos completos também com comandos do usuário.

Raquel Recuero avalia que essas ferramentas vão tornar o problema das fake news ainda mais complexo, mas que a questão principal continua sendo as plataformas. “Quem produz, seja uma IA, seja uma pessoa, não faz tanta diferença. Teríamos que ver como as IAs podem influenciar essas questões”, pontua.

As fake news e a política
O cientista político e doutorando em Ciência Política pela UFPel, Luis Alexandre Alves, reflete que a mentira na política não é uma novidade, mas que as redes sociais potencializam a disseminação de desinformação. Para ele, as eleições americanas de 2016 e as eleições brasileiras de 2018 são marcos na produção massiva de informações falsas.
Alexandre lista aspectos relevantes na criação de notícias falsas: o apelo emocional a crenças pessoais das pessoas, o anonimato, que permite que criadores de conteúdos falsos não sejam responsabilizados, e a divulgação em redes privadas, em que o conteúdo não é rastreado. “O WhatsApp é um grande exemplo, um aplicativo muito popular no Brasil e onde tem muita notícia falsa. Como ter acesso a esse tipo de troca de informações numa rede que é privada?”, cita o pesquisador.

Para mitigar os prejuízos da fake news, o cientista político cita a importância de agências de checagem, que apuram notícias falsas, e a necessidade de investigação de potenciais criminosos. “São crimes que já existem no Código Penal, mas a gente precisa pensar de que forma coibir o uso desses meios para praticar crimes”, diz. “São pessoas, às vezes empresas, que são especializadas em fazer esse tipo de coisa”.

No entanto, ele entende que é necessário repensar a legislação para permitir a punição de criminosos, valorizar veículos de credibilidade e educar a sociedade para identificar informações maliciosas. “É um desafio da sociedade brasileira, não só do campo político ou dos meios de comunicação, precisamos ampliar as iniciativas de combate às fake news. Talvez já seja a hora de pensar em algum tipo de tratado internacional, algum tipo de compromisso, fazer com que países consigam convergir para combater notícias falsas”, avalia. ​

Como identificar uma notícia falsa

Avalie a fonte: o site ou perfil em que a notícia está é sério? Você conhece a fonte e ela é referência em sua área?

Leia a notícia inteira: ler apenas o título de uma notícia não é suficiente para estar bem informado

Pesquise: ao ler uma notícia, desconfie. Procure o que outros veículos publicaram sobre o tema

Pergunte: ao receber um conteúdo duvidoso, pergunte para quem enviou de onde a informação saiu

Na dúvida, não compartilhe: se você não conseguiu checar se a informação é verdadeira, não contribua para o ciclo da mentira e não compartilhe

 

O que é isso?

Conheça palavras importantes para entender as fake news

Fake news: informações falsas produzidas para enganar ou desinformar as pessoas

Plataforma: sites e aplicativos em que fake news se propagam (Twitter, WhatsApp, Facebook, TikTok)

Algoritmo: são as “regras” que as plataformas usam para determinar o que cada usuário vê, com base no seu histórico, contatos, gostos e buscas

Bolhas: grupos de pessoas que pensam parecido em que circula apenas informações e ideias parecidas


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