Família
Notas e sons em tom de afeto
Pai aprende a tocar bateria para animar o filho músico; ideia surgiu em meio à pandemia, após as apresentações do artista terem sido suspensas
Jô Folha -
Depois dos primeiros casos de contaminação da Covid-19 no Brasil, eventos em casas de show, pubs e casamentos se tornaram sinônimos de proibições. Uma cadeia de músicos, produtores e artistas, do dia para noite se viram sem opções de trabalho. É o caso do vocalista da banda pelotense Sugar Lips, Dielon Barbosa, 39, que trabalha no ramo há quase duas décadas. O pai, Luiz Renato, 60, preocupado com o filho sem as atividades que tanto ama, começou a treinar bateria para que os ensaios passassem a ser em família.
O irmão mais novo, Luiz Renato Júnior, 18, notou as diferenças de humor e foi o responsável por dar o pontapé inicial no projeto. “Por causa da pandemia, o Dielon quebrou financeiramente e emocionalmente. Ele sempre foi muito brincalhão e de um tempo pra cá ficou mais irritado”, lembra. Preocupado, falou com o pai sobre a situação. No último ano, a família presenteou o patriarca com uma bateria e para alegrar o filho mais velho, ele decidiu agir: por cerca de duas horas ao dia assistia a vídeos no Youtube e treinou sozinho os movimentos.
De início, as dificuldades foram muitas, mas não o bastante para o fazer desistir do objetivo. “A bateria exige muita coordenação motora mais uma mente concentrada. Hoje consigo fazer e ainda pesquiso exercícios para desenvolver os membros individuais, braços e pernas”, conta. Um dia, resolveu chamar os filhos para o ginásio de esportes onde trabalha - local que serviu de abrigo para os treinos individuais com o instrumento. Júnior atacou no baixo e o mais velho na guitarra e vocais. Assim, os três passaram a ensaiar em família.
Com um repertório próprio e duas músicas autorais, o pai alegra-se por ajudar o filho. “Proporcionar uma energia positiva ajuda em muitas coisas. Fico feliz de conseguir dar um pouco de brilho nessa pandemia para eles”, ressalta. O mais velho, quando viu o pai tocar se surpreendeu: “E de um dia pro outro o pai tava tocando e foi muito bom. Quando tu começa a tocar com uma pessoa, a evolução dela é também a tua”.
Ensaios colorem a rotina
Quando era adolescente, lá pelos 14 anos, Dielon resolveu se aventurar na música. Com os amigos, formava bandas de rock que tocavam em festivais e bares. “Era tudo de graça, nem sabíamos se dava grana ou não, era uma coisa de guri”, lembra. Com o tempo, os ensaios entre amigos se tornaram aquecimento para os shows e eventos; e o que era lazer, virou profissão.
Sem o contato com o público e a rotina agitada, o estresse emocional tomou conta. “Sinto muita falta dos ensaios. O que me deixa muito contente é fazer um som e sair perfeito, é sentir aquela alegria de quando tudo flui”. O projeto em família deu cor e um ânimo a mais em meio à pandemia.
A banda dos três ainda não tem um nome, mas o repertório já está montado. “Parece que escrever uma música é fácil, mas dar o nome para uma banda é complicado. Dá um nó na cabeça”, explica. O estilo do trio vai desde blues ao reggae, rock n’roll e uma pegada do pop internacional. Os artistas são variados porque, no fim, o que importa é o momento em conjunto. Para o futuro, o músico afirma que a banda pode engrenar alguns shows depois da pandemia.
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