Desigualdade
O persistente problema do tratamento de esgoto
Cidade regrediu na nota do Ranking Anual do Saneamento e aguarda conclusão da ETE Novo Mundo para avançar
Carlos Queiroz -
Enquanto parte de Pelotas almoça tranquila, escova os dentes e reclama de um dia frio, outra precisa lidar com problema que há muito já deveria ter sido resolvido - nacionalmente, também: a falta de coleta e tratamento de esgoto. Questão que, de tão primária, esconde consequências graves, inclusive à saúde de quem mora principalmente na periferia da cidade. Cidade que, em cinco anos, evoluiu apenas dez pontos percentuais no assunto.
Em 2016, Pelotas tinha 60% do esgoto coletado, mas apenas 20% deste total considerado tratado. O planos eram que até 2017, a coleta chegasse a 80% e houvesse avanço significativo também no tratamento. A realidade, porém, cinco anos depois, é de 65% de coleta e 30% de esgoto tratado. Ao Diário Popular, o Sanep informou que a projeção contava com recursos através do programa Saneamento para Todos, para a construção de estações de tratamento de esgoto (ETEs) na região da rodoviária, no Centro e no Simões Lopes. No entanto, de acordo com a autarquia, os recursos para o financiamento não se concretizaram.
A situação deixa Pelotas em posição de desvantagem no ranking elaborado pelo Instituto Trata Brasil, com as cem maiores cidades brasileiras, tendo como base o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Se em 2016 o município já não figurava bem, ocupando a 70ª posição, em 2021 está pior: na 84ª. O estudo analisa pontos como a distribuição e tratamento de água e a coleta e tratamento de esgoto. Das seis cidades gaúchas presentes, apenas Gravataí recebeu nota inferior. E se fosse uma prova, Pelotas não teria sido aprovada: de um total de 10, a nota da cidade foi 4,53 - uma redução em relação aos já sofríveis 4,71 de 2016.
"As obras de saneamento são extremamente onerosas e suas execuções têm custos incompatíveis com a arrecadação alcançada por meio de tarifas. O maior desafio está na disponibilização de recursos e formas de contratação para atingir à universalização", justifica a atual diretora-presidente do Sanep, Michele Alsina.
A esperança para que o objetivo dos 80% de esgoto tratado fique mais próximo mora na construção da ETE Novo Mundo. Através de um sistema de separador absoluto, a estrutura terá a capacidade de tratar 300 litros de esgoto por segundo. Localizada na avenida Francisco Caruccio, ela atenderá localidades como Vila Princesa, Pestano, Getúlio Vargas, Três Vendas, Arco Íris e proximidades do Aeroporto Internacional João Simões Lopes Neto. Porém, a construção, que conta com investimento superior a R$ 20 milhões, apresenta demora. Os trabalhos foram iniciados em 2014, mas sofreram interrupção após a vencedora da licitação abandonar a obra no mesmo ano. Os trabalhos foram retomados em 2018 a autarquia projetou a conclusão para 2019. Em 2021, porém, apenas 50% da ETE Novo Mundo está pronto.
Na realidade
Enquanto os avanços não chegam, a qualidade de vida de pelotenses como o aposentado João Islabão segue prejudicada. Morador da Vila Farroupilha, próxima à Guabiroba, ele reclama da falta de investimentos. Há valetas em frente e ao lado da residência onde vive há trinta anos. Por conta disso, ele e a família convivem com mau cheiro, alagamentos constantes dentro e fora de casa e, principalmente, o risco de doenças relacionadas ao esgoto, como a hepatite A, a leptospirose e a febre tifóide. "É um descaso total. A gente pede que venham pelo menos limpar, mas nunca acontece. Estamos sem forças mais para pedir. Tristeza total", lamenta.
O pedreiro Thiago Silva mora há cinco anos na avenida Cidade de Rio Grande, próxima ao Navegantes. Meia década sem ter visto investimentos consistentes para solucionar a questão do saneamento básico na região. "Eles aparecem aqui, uma vez por mês, por aí, só para limpar. Mas é muito pouco. Em dias de chuva vira um barreiro, impossível de transitar. Fora os mosquitos, que no verão acabam vindo mais por conta do esgoto", critica.
Projeção
Ao Diário Popular, o Sanep afirmou que efetua planejamento que prevê construção de ETEs, objetivando o tratamento dos efluentes; implantação de coletores troncos e emissários; e ampliação de redes coletoras.
A estrutura atual para o tratamento de esgoto em Pelotas:
- Lagoa de Estabilização: visa minimizar poluição causadas pelos efluentes de esgotos das residências e indústrias.
- Reator Anaeróbio de Leito Fluidizado - RALF: constituído por duas estruturas com capacidade de 111 litros por segundo cada uma. Elas fazem o tratamento anaeróbio do esgoto, antes de despejá-lo no São Gonçalo. Este tratamento diminui a carga orgânica do efluente.
- ETE Laranjal: responsável pelo atendimento do Laranjal.
A posição das cidades gaúchas no Ranking do Saneamento (entre as 100 maiores do Brasil)
Caxias do Sul
2016 - 37ª
2021 - 54ª
Porto Alegre
2016 - 38ª
2021 - 42ª
Santa Maria
2016 - 61ª
2021 - 74ª
Canoas
2016 - 80ª
2021 - 82ª
Pelotas
2016 - 70ª
2021 - 84ª
Gravataí
2016 - 88ª
2021 - 88ª
Os índices de Pelotas no Ranking do Saneamento 2021 (com base no SNIS 2019)
Atendimento total de esgoto: 59,63%
Esgoto tratado por água consumida: 16,68%
Investimento total nos últimos cinco anos: R$ 54 milhões
Investimento total sobre arrecadação: 0,15%
Nota total (máx. 10): 4,53
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