Exemplo
O pódio da solidariedade
Espírito olímpico incentiva crianças e adolescentes do Instituto de Menores Dom Antônio Zattera à prática de esportes e à coletividade
Carlos Queiroz -
A Olimpíada 2020, finalizada há poucos dias no Japão, foi inspiração para gincanas nas dependências do prédio quase centenário do Instituto de Menores Dom Antônio Zattera (IMDAZ). Na chuvosa terça-feira (10), uma tarde cultural e da família marcou o encerramento da quinzena de atividades, contando com apresentações da orquestra e do coral, com direito a entrega de medalhas aos melhores colocados.
O presidente da instituição, padre Marcus Bicalho, explica que a intenção era levar os jovens a mergulharem no universo olímpico, com provas que representam os princípios do IMDAZ, com caráter mais pedagógico, passando os ensinamentos da solidariedade e da coletividade.
"Cada equipe tinha uma máscara de uma cor, vermelha, azul e amarela. Se alguém viesse sem a máscara, a equipe perdia ponto, então ninguém esquecia a máscara. Quem ficasse com a máscara no pescoço, também. Então eles mesmos se organizavam para isso. Queríamos usar toda atividade ao nosso alcance, para que os meninos cresçam com o espírito de solidariedade, companheirismo e responsabilidade, que eles têm que ter para serem adultos do bem", destaca.
A tarde cultural iniciou agradável aos ouvidos de quem estava presente. A orquestra da instituição, tocando músicas dos Beatles, Alceu Valença e Chico Buarque, apresentou o trabalho do maestro Sérgio Guimarães com os jovens. Convidado por Bicalho, o maestro mineiro veio com a missão de seguir incentivando as crianças e adolescentes do IMDAZ a integrarem a banda, que hoje conta com 54 promissores instrumentistas.
“Hoje 25 crianças já estão fazendo apresentações e temos mais 29 que estão se preparando para daqui uns meses começar a se apresentar. As crianças já fizeram apresentações antes da pandemia, como na Fenadoce e no Theatro Guarany. Eu iniciei o trabalho em fevereiro do ano passado, eles tiveram que se acostumar com uma nova metodologia, uma nova regência e então veio a parada”, comenta Guimarães.
Desde o início deste ano, os jovens voltaram com os ensaios gradativamente e puderam ter, segundo o professor, o contato com músicas de diversos gêneros e épocas. “Eles gostam das músicas contemporâneas, mas ninguém reclamou de eu colocar John Lennon, Edu Lobo no repertório. Já prometi para eles colocar Marília Mendonça, algo do sertanejo universitário”, diz.
"Trazer esses meninos da zona de risco, abrir o espaço para eles e colocar na mão deles um saxofone, uma clarineta, um trompete? Imagina se no nosso país houvesse investimento do governo, da iniciativa privada, de instituições para poder ocupar essa galera com atividade além da grade curricular", defende o maestro.
Um desses 54 integrantes é Davi Oliveira, de 12 anos, que está na orquestra há quase quatro meses. Desde 2019 no Instituto, ele soube que os ensaios voltariam este ano e quis iniciar o novo desafio. "O meu sonho é me tornar um trompetista profissional, é minha vocação, eu sentia no meu coração", conta o menino, que gosta de tocar "Anunciação" e "Ciranda da Bailarina", músicas de Alceu Valença e Chico Buarque e Edu Lobo, respectivamente.
Ele conta que um dia seu pai perguntou o que ele queria de presente: um Playstation 4 ou um trompete. "Eu escolhi o trompete, porque aí eu vou estudando em casa e aqui no Instituto e vai ser mais rápido o meu desenvolvimento", compartilha.
Uma ponte ao próximo
A instituição, desde 2017, teve uma série de mudanças, abrangendo, conforme o presidente do IMDAZ, a metodologia com os jovens e a estrutura do prédio. Com 97 anos de serviço social à comunidade recém completos, o prédio que sedia o Instituto, localizado na avenida Domingos de Almeida, teve a fachada requalificada e passou por modernização do sistema de esgoto e reformas internas.
"Fomos conseguindo algumas parcerias, empresas e pessoas parceiras, campanhas, projetos, e com isso fomos reformando o prédio, que é muito antigo. Mas não adiantava nada reformar a parte externa, se a gente não reformasse a forma de lidar com os meninos. Agora eles entendem que o prédio é deles, ajudam na manutenção. Nos últimos três anos não houve um vandalismo, um risco na parede", celebra Bicalho.
Para seguir atendendo os jovens em vulnerabilidade social, o padre determinou, no início da pandemia, que fossem recolhidos todos os alimentos que estivessem no Instituto para doar às famílias nesta situação. Ao todo, 80 famílias receberam uma sacola cada. "Aquele foi um momento muito importante, muitos se preocuparam que quando eles [jovens] voltassem, não teríamos nada. O resultado disso foi que as 80 cestas se tornaram 200 toneladas de alimentos que fomos ganhando e repartindo para as famílias", conta.
Outro momento de solidariedade também foi presenciado pelo padre. Durante uma distribuição de ranchos, cinco famílias aguardavam a doação, mas restavam apenas três sacolas para entregar. “Precisamos dizer para as duas últimas 'lamento, mas não tem mais nada, vem na semana que vem' e na mesma hora as três famílias da frente abriram seus ranchos e dividiram com as duas que não tinham nada. Então é isso que queremos passar para as pessoas”, lembra.
O Instituto de Menores Dom Antônio Zattera aceita a ajuda da comunidade para manter o serviço. Interessados em colaborar podem entrar em contato pelo (53) 3228-5505.
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