Pandemia

O risco da superdosagem

Utilização indiscriminada de remédios do chamado “kit Covid” pode trazer sérias complicações

Jô Folha -

Desde os primeiros meses da pandemia, inúmeras pessoas passaram a utilizar o “kit Covid” como forma de prevenir a doença causada pelo coronavírus. Além de não evitar o contágio e, tampouco, diminuir os sintomas da Covid-19, o uso indiscriminado de medicamentos como Ivermectina e Hidroxicloroquina podem causar diversos danos à saúde. Segundo especialistas, uma dosagem muito alta de qualquer medicação é capaz de trazer problemas graves, como a hepatite medicamentosa, que pode levar o paciente à morte.

“O que a gente viu é como se fosse uma intoxicação, porque as pessoas estão usando a medicação em doses que na verdade não são prescritas para nada, doses que não são usadas para nenhuma outra coisa, superdoses, e os casos registrados de mortes foram por hepatite medicamentosa, uma vez que todas essas medicações passam pelo fígado. Quase todas as medicações passam pelo fígado para serem eliminadas e quando tu usas uma superdosagem de praticamente qualquer medicação pode ter essa complicação de hepatite medicamentosa, que pode ser fatal”, explica a médica plantonista da UTI do Hospital Universitário São Francisco de Paula (HU-UCPel) e Hospital Escola (HE-UFPel), Carolina Vianna.

Presente na Relação Municipal de Medicamentos Essenciais (Remume) desde agosto do ano passado, alguns desses medicamentos seguem à disposição da população na Farmácia Municipal. Apesar da ausência de comprovação científica, medicações de amplo espectro como Ivermectina (antiparasitário) e Azitromicina (antibiótico) podem ser retiradas no local, mas apenas por receita médica.

O coordenador de Atenção Farmacêutica da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Fabian Primo, informa que tanto a Farmácia Municipal, quantos as distritais, disponibilizam à população as medicações citadas na Remume, inclusive aquelas utilizadas no tratamento da Covid-19. Em nota, a prefeitura esclarece que não orienta o uso de medicamentos, pois isso deve ser feito por um médico, mediante receita médica, que deve ser apresentada pelo paciente no momento da retirada do medicamento.

De acordo com Primo, no início da pandemia a farmácia registrou aumento na procura pelo Tamiflu e Azitromicina, mas já está normalizado. A Ivermectina não teve aumento. Segundo números do Portal da Transparência, o município adquiriu 3.000 unidades de  Hidroxicloroquina 400 mg (Reuquinol) - em julho de 2020. O medicamento, no entanto, não pode ser administrado fora dos hospitais.

Não existe tratamento precoce
Egressa no doutorado em epidemiologia, Carolina Vianna ressalta que não existe tratamento precoce para a Covid-19. Segundo ela, o acompanhamento médico é fundamental para qualquer doença. “As pessoas estão usando a medicação como se ela pudesse evitar o contágio, o que não é verdade. Se fosse todo mundo estaria usando e nós não teríamos 300 mil mortes. Já faz um ano e ainda não encontramos um tratamento que parasse a replicação do vírus, que seria talvez a cura para a Covid. Então usar essas medicações de forma indiscriminada é um risco altíssimo de estar complicando um problema de saúde e até criando um problema de saúde que a pessoa não tem”, explica.

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