Doença

O zunido de um vilão nada silencioso

Pelotas já registra 74 focos de dengue em 2021

Para alguns pode até ser novidade, mas os cuidados contra o mosquito da dengue devem ser mantidos durante todo ano, não somente no verão - quando as altas temperaturas o atraem. Isso mostra que o perigo está em todas as épocas e nem mesmo o frio do inverno impossibilita que o vilão chamado Aedes aegypti possa se reproduzir. Em Pelotas, o risco pode ser ainda maior, pois foram registrados casos autóctones de dengue, quando os indivíduos contraíram a doença dentro da cidade. Ou seja, o mosquito está por aqui e o vírus está circulando. A transmissão é local.

Em 2020 foram registrados 133 focos de dengue. Este ano, entre janeiro e julho, já são 74. Os bairros mais atingidos são Fragata e Centro. Para evitar que estes números sigam crescendo, diariamente equipes da Vigilância Ambiental em Saúde (Vigiams) da Secretaria Municial de Saúde (SMS) percorrem a cidade em busca de novos focos, de eliminar o mosquito e de informar a comunidade sobre os cuidados que devem ser tomados. São realizadas visitas em domicílios, comércios, terrenos baldios, entre outros. Alguns locais - como cemitérios, borracharias, ferros-velhos, depósitos de sucata ou de materiais de construção, garagens de ônibus e de outros veículos de grande porte - são vistoriados quinzenalmente pelas equipes da prefeitura e recebem tratamento químico mensal, ou sempre que detectada a presença de focos do mosquito.

A reportagem do Diário Popular acompanhou uma das equipes durante visitas neste mês. O bairro escolhido foi o Simões Lopes. Segundo a agente de combate às endemias, Nara Regina Oliz, no ano passado a localidade apresentou pontos críticos. Atualmente a situação está controlada, mas o mosquito teve tempo para agir.

Uma das residências vistoriadas foi a de Angelita Furtado, 47 anos. Ela conta que segue todas as recomendações, pois tem medo da doença e também porque já foram encontrados focos do mosquito em casas vizinhas. A verificação ratificou os cuidados tomados pela empresária. O imóvel estava com "tudo ok", como classificou Nara. A agente ainda confirmou que um dos casos identificados em residências próximas à casa de Angelita foi um dos primeiros detectados no bairro.

Outra casa que recebeu a inspeção da equipe da Vigiams foi a de Luiz Eduardo Quadros, 62 anos. No local funciona uma oficina e, no pátio, encontram-se alguns carros antigos, todos armazenados de maneira adequada. Ao final da vistoria foi constatado que Quadros estava seguindo as recomendações e que, por isso, não foram encontrados focos. "Eu acho muito importante essas visitas, pois ajudam a prevenir uma série de coisas, como a dengue, inclusive, que a gente sabe que mata", comenta.

Mesmo com a importância de prevenção, muitos moradores apresentam resistência no momento de autorizar a entrada dos agentes. Durante o tempo em que a equipe de reportagem acompanhou, duas pessoas não permitiram o acesso. Os dois casos foram de pessoas idosas que alegaram insegurança em relação ao risco de transmissão de Covid-19. Sobre este receio, Nara esclarece que, preferencialmente, os agentes entram por acessos externos, mas há casos em que só é possível chegar ao pátio pela parte interna da residência. Para tranquilizar a população, a agente explica que todos os cuidados são tomados. Ainda sobre a recusa, há casos em que ela acontece pelo medo de a equipe não ser efetivamente formada por funcionários da prefeitura. A respeito deste motivo, Nara diz que os agentes estão sempre identificados com colete da Vigilância Ambiental e crachá. Mas se mesmo assim o morador quiser se certificar, pode entrar em contato diretamente com a sala de combate à dengue, pelo telefone (53) 3284-7759.

Sobre a doença

A dengue é uma doença causada por um vírus que possui quatro sorotipos: 1, 2, 3 e 4. A transmissão é feita pelo mosquito Aedes aegypti, que também pode disseminar a Zika e a chikungunya. Ele também pode ser vetor da febre amarela urbana, como explica o médico infectologista da Comissão de Controle de Infecções Hospitalares (CCIH) da Beneficência Portuguesa de Pelotas, Cezar Pinheiro. Segundo o médico, a infecção pelo vírus da dengue pode ser assintomática ou sintomática. O quadro clínico pode variar, desde sintomas leves, até quadros graves, que podem evoluir para morte. Os sintomas mais comuns são febre alta de início súbito, dor de cabeça, vômitos, prostração, dores articulares e dor retro-orbitária. Erupção cutânea pode estar presente em metade dos casos.

De acordo com Luciana Nunes Soares, enfermeira do Núcleo Municipal de Educação Coletiva em Saúde (Numesc) da Atenção Primária da Secretaria Municipal de Saúde, pessoas mais velhas têm maior risco de desenvolver dengue grave e outras complicações que podem levar à morte. Além disso, o risco aumenta quando a pessoa tem alguma doença crônica, como diabetes e hipertensão, mesmo tratada.

Diagnóstico tardio

Uma das vítimas do Aedes foi a enfermeira Gimene Machado, 37 anos. Ela conta que começou a sentir fortes dores de cabeça no dia primeiro de abril, mas tomou um medicamento e foi dormir. Na manhã seguinte, a dor persistiu. Dois dias depois, começou a febre de 39,7°C e, por conta disso, ela foi submetida ao teste para identificar uma possível contaminação por Covid-19, mas o resultado foi negativo. A enfermeira conta que começou, então, uma investigação para descobrir a origem dos sintomas, com a realização de exames. Com o auxilio de medicações e antibióticos, a febre foi diminuindo a partir do dia 12 de abril. Os sintomas, no entanto, terminaram somente no dia 14.

Gimene diz que a bateria de exames pela qual passou durante o período foi investigatória para doenças como tuberculose, abcesso cerebral, entre outras, mas não foi cogitada a hipótese de dengue. O diagnóstico só veio no dia 22 de abril. Mesmo com todas as incertezas, a enfermeira diz que se manteve tranquila todo o tempo. Ela ainda ressalta a necessidade de atenção para outras doenças, além da Covid-19. "Hoje em dia é tudo muito confundido com Covid e parece que as outras patologias não existem mais, o que torna os diagnósticos tardios. Por conta disso não tive medo. Quando fiquei sabendo que era dengue, já estava em perfeitas condições", comenta.

Sobre o local onde possa ter ocorrido a transmissão, Gimene diz não ter ideia, já que sua rotina de trabalho é intensa e, ao sair, se dirige diretamente para a casa. "Quando eu paro para pensar neste episódio, a única coisa que eu penso e agradeço é por ter acontecido comigo e não com minha filha, pois é uma sensação horrível", finaliza.

Dengue ou Covid-19?

Segundo Pinheiro existem sintomas que podem ser semelhantes entre a dengue e o coronavírus, como febre, dores musculares, articulares, náuseas e vômitos. No entanto, a infecção por Covid-19 apresenta algumas manifestações que auxiliam em um diagnóstico diferenciado, como sintomas respiratórios (tosse, falta de ar) e alteração de olfato e paladar. Ele recomenda que, na dúvida, o paciente passe por exames específicos, como o RT-PCR para detecção de coronavírus. Na lista de doenças com sintomas semelhantes ainda existe a leptospirose.

Diferença entre doenças (SUGESTÃO DE QUADRO- PENSEI EM COLOCAR AO LONGO DA PÁGINA EM DESTAQUE MAS NA HORIZONTAL, JÁ QUE POSSUI MUITO TEXTO)

* Definição de caso suspeito de Dengue:
- Pessoa que viva ou tenha viajado nos últimos 14 dias para área onde esteja ocorrendo transmissão de dengue ou tenha presença de Aedes aegypti*;
- Pessoa que apresente febre, usualmente entre 2 e 7 dias; e
- Pessoa que apresente duas ou mais das seguintes manifestações: náuseas, vômitos, exantema, mialgias, dor de cabeça, dor retro-orbital, manchas no corpo, leucopenia.
*Como Pelotas já tem casos de transmissão local, não precisa ter viajado para ser um caso suspeito.

* Definição de caso suspeito de Covid-19:
- Pessoa com quadro respiratório agudo, caracterizado por pelo menos dois dos seguintes sinais e sintomas: febre (mesmo que referida), calafrios, dor de garganta, dor de cabeça, tosse, coriza, distúrbios olfativos ou distúrbios gustativos.

* Definição de caso suspeito de Leptospirose:
- Pessoa com febre, cefaleia e mialgia, que apresente pelo menos um dos seguintes critérios:
Critério 1 - Ter passado por alguma das situações a seguir nos 30 dias antes do início dos sintomas: exposição a enchentes, alagamentos, lama ou coleções hídricas; exposição a esgoto, fossas, lixo e entulho; atividades que envolvam risco ocupacional, como coleta de lixo; catador de material para reciclagem; limpeza de córregos; trabalhar em água ou esgoto; manejo de animais; agricultura em áreas alagadas; vínculo epidemiológico com um caso confirmado por critério laboratorial; e residir ou trabalhar em áreas de risco para a leptospirose. As áreas são determinadas pela Vigilância Epidemiológica da SMS, a partir da análise da distribuição espacial e temporal de casos de leptospirose, bem como dos fatores de risco envolvidos.
Critério 2 - pelo menos um dos seguintes sinais ou sintomas: sufusão conjuntival; sinais de insuficiência renal aguda (incluindo alterações no volume urinário); e icterícia e/ou aumento de bilirrubinas.
Fonte: Vigilância Epidemiológica

Sobre o mosquito
Segundo a mestre em Biologia Animal, Taiane Schwantz, a reprodução do mosquito ocorre quando a fêmea deposita ovos em superfícies de recipientes com água acumulada para que ocorra a produção das larvas, que depois passarão por uma metamorfose e se tornarão um inseto adulto. Os locais mais escolhidos para a reprodução são pneus, tonéis, latas e garrafas - geralmente com água limpa e parada. A bióloga ainda explica que quanto menor o recipiente ou local, mais fácil a reprodução, pois além da água é necessário que a temperatura seja adequada.

Taiane ressalta que a maior parte dos registros de focos de dengue é em ambientes externos, mas não se descarta a possibilidade de que possa ocorrer a proliferação dentro de residências. Já em relação à reprodução em piscinas ou valetas, ela diz que não pode ser descartada, porém é mais difícil. No caso das piscinas, mesmo sendo um local com água limpa e parada, o grande volume de água dificulta o alcance da temperatura adequada. No caso das valetas, trata-se de água contaminada.

Sobre a durabilidade dos ovos, a bióloga explica que é extensa, devido à sua resistência, podendo permanecer no local até que haja condições adequadas (contato com a água) para eclodir a larva. Há registros de que possa durar mais de um ano no mesmo local e, quando há contato com a água, acontece a reprodução.


Como prevenir o mosquito da dengue?

A chefe da Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Isabel Madrid, destaca que o objetivo deve ser eliminar potenciais criadouros do mosquito. Para isso, por exemplo, é necessário evitar o acúmulo de água em depósitos de qualquer formato e tamanho. Ela destaca ainda que objetos pequenos, escuros e rugosos representam os principais criadouros para o Aedes. No entanto, para que a transmissão da dengue ocorra, é necessário que o mosquito esteja contaminado.

Taiane reforça a necessidade de engajamento da comunidade. "Principalmente agora, que temos casos confirmados oriundos da própria região de Pelotas, é muito importante a conscientização. São cuidados simples que cada um de nós podemos tomar em nossas residências e que podem evitar a proliferação do mosquito", finaliza.

Combata o Aedes Aegypti (QUADRO)


Locais Ações

- Pratinhos de vasos de plantas e xaxins dentro e fora de casa. Preencher com areia até as bordas
- Lixeiras dentro e fora de casa Fechar bem o saco plástico e manter a lixeira com tampa
- Plantas que podem acumular água Retirar a água acumulada nas folhas
- Tampinhas de garrafas, casca de ovo, latinhas, saquinhos plásticos Não deixar esses objetos expostos ao tempo, devendo ser acondicionados
em sacos plásticos, vasilhas de vidro, copos descartáveis ou qualquer
outro objeto que possa acumular água, bem fechados e
adequadamente destinados
- Vasilhame para água de animais domésticos Lavar com escova e sabão, em água corrente, pelo menos uma vez por semana
- Vasos sanitários em desuso Deixar a tampa sempre fechada e utilizar cloro ou dar descarga
ao menos uma vez por semana
- Ralos de cozinha, banheiro e de duchas Manter fechados ou colocar telas
- Bandejas externas de geladeiras Retirar sempre a água. Lavar com água e sabão, pelo menos, uma vez por semana
- Suporte de garrafões e água mineral Lavar bem sempre que trocar os garrafões
- Lagos, cascatas e espelhos d'água decorativos Manter estes locais sempre limpos e com a água tratada com cloro
Outra opção é criar peixes, pois eles se alimentam de larvas
- Tonéis e depósitos de água Manter fechados e lavar com escova e sabão as paredes internas, pelo menos
uma vez por semana
- Piscinas em desuso Manter a água tratada com cloro e limpar uma vez por semana. Se não for
usá-las, cobrir bem de forma que a lona não acumule água na superfície
- Calhas de água de chuva Realizar a remoção periódica de folhas e demais materiais que possam
causar o entupimento e impedir o escoamento da água
- Pneus velhos abandonados Dar o destino adequado, ou caso realmente seja necessário mantê-los, guardar em local coberto e abrigado da chuva. Se utilizados para balanços ou decoração
ao ar livre, devem ser furados para o escoamento da água.
- Garrafas PET e de vidro Tampar e jogar no lixo destinado às reciclagens ou guardar com a boca para baixo
- Lajes Promover o escoamento adequado da água evitando o acúmulo
- Cacos de vidro nos muros Colocar areia em todos aqueles que possam acumular água
- Baldes Guardar abrigados do tempo ou virados com a boca para baixo
- Entulho e lixo Evitar o acúmulo de qualquer tipo de lixo, destinando adequadamente
- Materiais em uso que possam acumular água Secar e guardar em local coberto
- Brinquedos de crianças e ferramentas Não deixar expostos ao tempo, mantendo-os abrigados

Como buscar ajuda em Pelotas
Denúncias de locais com suspeita de dengue podem ser feitas através do canal da Ouvidoria, o 156, ou, ainda, pelo telefone (53) 3284-7759. Já quem estiver com suspeita de ter contraído a doença, pode buscar ajuda nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Em caso de sinais graves de dengue, conhecidos como os sinais de alerta, o Pronto Socorro de Pelotas (PSP) deve ser procurado diretamente.

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