Raridade
Orelhões vão saindo de cena
Telefones públicos sofrem com ação do tempo e de vândalos, e cartões já não são encontrados
Carlos Queiroz -
Quem ainda lembra da existência dos telefones públicos, os chamados orelhões? Mesmo poucos, ainda existem. Muitos sem uso, entregues ao passar do tempo, acabaram virando objetos que compõem o cenário da cidade de Pelotas. Quase duas décadas depois do ápice nacional, em 2001, um dos maiores meios de comunicação teve queda de 86%. Em Pelotas, 365 telefones ainda são encontrados, mas muitos estão depredados e em situação de abandono. A tendência é que daqui para frente fique cada vez mais raro encontrá-los.
O item era considerado essencial no tempo em que telefones residenciais eram “artigos de luxo”, nas décadas de 80 e 90 - época esta em que os orelhões faziam parte da cultura popular, sendo protagonistas não só no dia a dia, mas também nas telas dos cinemas. Afinal, quem não recorda da cena em que Clark Kent entra na cabine telefônica para se tornar o maior herói da história dos quadrinhos? Anos depois, andando pelas principais ruas do Centro de Pelotas, eles podem passar despercebidos, mas são 11 espalhados pelas principais vias. Na rua Lobo da Costa, em frente ao Theatro Guarany, por exemplo, podemos encontrar um aparelho ainda novo e em pleno funcionamento, aparentemente não utilizado há bastante tempo, sendo tomado por teias de aranha.
O maior problema no município em relação aos orelhões é a depredação. Muitos estão quebrados e sem condições de uso, engolidos pelo tempo. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o Rio Grande do Sul conta ainda com 9.605 orelhões. Entre os 365 de Pelotas, 161 estão sem manutenção, o que representa uma disponibilidade de apenas 55% dos aparelhos existentes. Há também os adaptados para cadeirantes, com um suporte mais baixo. No Centro de Pelotas apenas um está nessa condição.
Próximo ao final de uma era
A resposta para a queda da utilização é clara: na geração da tecnologia, o smartphone virou algo quase essencial a qualquer pessoa. Aqueles que resistem aos aparelhos mais novos e querem utilizar os telefones públicos ainda terão um problema a enfrentar: a falta de cartões, primordiais para que a ligação seja realizada. Muitas das tradicionais bancas encontradas no Calçadão da Andrade Neves, e que comercializavam o material, não existem mais. Nas poucas bancas de revistas que ainda restam, o cartão telefônico foi substituído pelos chips de celulares.
Além do pouco uso, um decreto publicado pela Anatel no fim de 2018 liberou as concessionárias de telefonia da obrigação de investirem em orelhões para que, em retorno, levem o sinal de celular 4G a áreas isoladas e carentes do país. Logo, orelhões - que já não eram prioridade - deixaram de receber os investimentos das empresas.
Uma vez retirados das ruas, os aparelhos passam a virar sucata. As cúpulas de fibra de carbono ainda são recicladas, sendo algumas transformadas em poltronas decorativas. Mas só. Em alguns anos, os telefones públicos compartilhados, que tanto ouviram histórias, ficarão apenas na própria história.
Carregando matéria
Conteúdo exclusivo!
Somente assinantes podem visualizar este conteúdo
clique aqui para verificar os planos disponíveis
Já sou assinante
Deixe seu comentário