Comportamento
Os efeitos da pandemia na criançada
Apesar de a circulação na cidade já ser intensa, o dia a dia de muitos pequenos ainda é de restrições sociais; fique, então, de olho em dicas e orientações
Jô Folha -
Os resultados das pesquisas ainda são preliminares para apontar, ao certo, os impactos da pandemia prolongada na formação das crianças. Sabe-se, entretanto, a importância da primeira infância e os efeitos do que ocorre durante os primeiros seis anos de vida, a longo prazo. Por isso, é preciso ficar atento às mudanças de comportamento dos pequenos - e ao que essas alterações podem significar - e envolver-se em outras duas ações essenciais: estimular o desenvolvimento da gurizada e falar sobre as emoções.
As orientações são da psicóloga Jéssica Puchalski Trettim, que há dez anos se dedica a estudos científicos que acompanham os bebês desde a gestação até os seis anos de idade. "Sabemos que a primeira infância é o alicerce de tudo. É a base de uma construção. E, conforme a força deste alicerce, terá reflexos para adolescência e para vida adulta", ressalta a pós-doutoranda do Programa de Pós-graduação em Saúde e Comportamento da Universidade Católica de Pelotas (UCPel).
Agir preventivamente, portanto, é fundamental para minimizar as possíveis consequências da socialização ainda restrita, já que o novo coronavírus permanece em circulação e não deixou de causar preocupação. Na edição deste final de semana, o Diário Popular traz o relato de duas famílias que experimentam a descoberta das belezas e dos desafios da maternidade e da paternidade neste contexto que irá entrar para história da humanidade. E, diante deste cenário, o DP apresenta também algumas dicas para tornar o uso do tempo mais saudável.
Os olhinhos brilham, ao enxergar outras crianças
O sapeca Vinícius, de um ano e nove meses, não esconde a alegria ao encontrar outras crianças. "Ele fica muito feliz e tenta interagir", conta a mãe Vanessa Almeida, 32. Até hoje, entretanto, ela e o marido Luís Antônio Ramires, 33, procuram evitar ambientes com muitas pessoas; inclusive na hora de levá-lo à pracinha.
O jeito é soltar a imaginação em casa, para que o Vini gaste energia, se desenvolva e se divirta. Como a residência tem pátio e a sala é ampla, o casal investiu em uma minipracinha para que o gurizão possa ficar naquele sobe e desce no escorregador. Jogos de encaixe, com diferentes formas e cores, e livros também ajudam a estimular a aprendizagem.
"Por enquanto, ele ainda fala muito pouco", afirma a mãe. Difícil medir o quanto é efeito da pandemia e das restrições sociais. Aliás, quando o tema é distanciamento e medidas preventivas, o pequeno já sabe a importância de dois cuidados que, até hoje, alguns adultos ignoram. Ao ver o tubo do álcool em gel, já estica as mãos. "É criança álcool gel", descontrai Vanessa. "E para nos dizer que quer sair, ele pega um máscara e entrega pra gente colocar".
É a hora então de, ao menos, tentarem diversificar a programação. Quem sabe um passeio de skate, como mostram os videozinhos publicados nas redes sociais, que encantam pelo equilíbrio do pequeno? Quem sabe uma aula de natação, como iniciado nas últimas semanas? "A gente se certificou de que haveria distanciamento e começamos. Não dá pra se privar de tudo", comenta a jovem.
Medo ainda limita programações
Olhos atentos, sorrisos e um tanto de 'neneguês'. Até hoje, a tecnologia é um dos principais meios para os amigos acompanharem o desenvolvimento de Verônica, de três meses de idade. A cada nova descoberta ou fofura que ela aprende, os vídeos costumam ser disparados aos grupos de WhatsApp. "A gente ainda evita sair. Agora que o pessoal já tá vacinado com as duas doses, até fizemos um ou outro programa, mas em lugar aberto, ventilado", afirma a professora Daiana Leal, 34. "Mas, em geral, estamos sempre em casa".
E apesar do medo declarado do contágio do novo coronavírus, ela e o marido Gabriel Leal, 40, retomaram no segundo semestre de 2020 o plano que havia começado a ser adubado no final de 2019. Ao receberem a notícia de que chegaria uma menina, tiveram a certeza de que a vovó materna ganharia homenagem.
No início de 2020, antes de declarada a pandemia, Sandra Verônica, 54, recebeu o diagnóstico de câncer de pâncreas. Dois meses depois, não resistiu ao avanço da doença. "Foi um baque. Muita tristeza. Ela era super ativa, super jovem", conta Daiana. Reativar o projeto de ter um filho, portanto, era uma forma de amenizar a dor. Possibilitar um novo ciclo de vida. E assim foi: com o nascimento da esperta Verônica, que adora interagir em longos 'papos' com o papai e a mamãe.
"Em março, como os nossos núcleos familiares são pequenos e o pessoal tá todo trabalhando, ela deve ir pra escolinha, mas a gente vai vendo formas de se proteger", explica a jovem. E curte, intensamente, cada dia da licença-maternidade.
- Volte o olhar às emoções e fale sobre elas
Não importa se seu filho ainda é pequeno. É importante conversar sobre as emoções e explicar os porquês das decisões e dos cuidados que têm sido adotados. Claro que será necessário adaptar a linguagem para o nível de entendimento da criança. E é possível fazer isso de maneira lúdica, através dos próprios personagens durante as brincadeiras.
A exibição de filmes como o Divertidamente pode ser uma das ferramentas para falar de sentimentos que permeiam nossos dias. Com o apoio do quinteto Alegria, Tristeza, Medo, Nojinho e Raiva, a abordagem pode se tornar mais fácil.
- Não esqueça: eles, dificilmente, irão verbalizar
O alerta é da psicóloga Jéssica Trettim. Se mesmo para os adultos já é difícil falar sobre suas angústias, para a gurizada é ainda mais. "A criança não irá verbalizar. Ela irá expressar isso através de mudanças no comportamento", ressalta. O caminho, portanto, é analisar o padrão que ela costuma apresentar e comparar. Se tinha um temperamento mais tranquilo, por exemplo, tende a tornar-se irritável.
- Intervenção precoce para evitar depressão
Fique atento: a própria depressão tende a não se expressar através de sintomas clássicos mais comuns, como tristeza profunda e alterações no sono. "Até pela imaturidade emocional, a criança irá demonstrar de outras formas, como a irritabilidade", explica a pesquisadora da UCPel. E acrescenta: "Um evento estressor, como a pandemia, pode funcionar como um gatilho. Pode favorecer, potencializar a manifestação desses sintomas".
Por isso a conversa é fundamental. E um olhar de profissional especializado poderá ser necessário. Mas saiba também: a depressão, em geral, está associada a uma junção de causas, inclusive de tendência genética. E, no caso da criançada, costuma envolver quadros transitórios. "Mas sem um olhar mais atencioso pode evoluir para uma manifestação mais crônica, mais grave".
- Alterações no desempenho escolar podem servir de termômetro
Uma outra ferramenta para ajudar a avaliar como seu filho tem se sentido é observar o rendimento escolar. Não raro, questões emocionais irão repercutir em queda no desempenho dos estudos - destaca a psicóloga. Fique atento, portanto, a mais este possível sinal de alerta.
* Incentive as diferentes formas de desenvolvimento
Já que boa parte dos pequenos segue com as possibilidades de socialização limitadas é fundamental estimulá-los em casa, em todos os domínios do desenvolvimento: cognitivo, motor, social e socioemocional (que passa por entender as suas emoções e também a dos outros).
Temas como a importância de dividir, por exemplo, podem ser trabalhados durante essas brincadeiras em família.
* Tente criar e manter uma rotina
Estabelecer horas mais definidas para alimentação, estudos e brincadeiras ajudará a preparar o seu pequeno para a hora que ele terá de ir à escola ou para quando for retomar o formato presencial dos estudos.
* Confira dicas para aplicar em casa (*)
1) Além de brincadeiras sugeridas, deixe que a criança brinque livre.
2) Observe a criança brincando sozinha. Você descobrirá muito sobre ela.
3) Se puder, incentive que outros adultos da casa brinquem com seu filho.
4) Quando estiver brincando, converse com o bebê ou com a criança. A interação é fundamental para o desenvolvimento deles.
5) Bebês e crianças aprendem descobrindo. Deixem que eles explorem locais seguros da casa.
(*) Fonte: Fundação Maria Cecília Souto Vidigal
* Veja onde buscar ideias e informações
- Guia de brincadeiras: O site da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal apresenta uma série de atividades para incentivar o desenvolvimento de crianças e bebês. Os exemplos são divididos dos zero aos seis anos de idade e incluem dicas simples de executar em casa, sem custo algum, como caretas em frente ao espelho e sombras na parede. Confira através deste link bit.ly/dicas-de-brincadeiras.
- Divertidamente: O filme pode se tornar em belo ponto de partida para falar com seu filho sobre as emoções.
- Caderneta da Criança: O documento oficial de todos os bebês também pode auxiliar com informações preciosas. A Caderneta não se limita às curvas de crescimento e ao calendário nacional de vacinação. Informações sobre direitos das crianças e dos seus pais, assim como de amamentação,
de alimentação saudável e sobre como observar a saúde auditiva e ocular dos pequenos também integram o material.
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