Um ano de luto, um ano de luta
Pandemia provoca o fechamento de 837 empregos em Pelotas
Cenário só não é pior porque a Construção Civil teve saldo positivo entre março de 2020 e janeiro de 2021; dados integram balanço do Observatório Social do Trabalho
Jô Folha -
Os setores de Serviços e do Comércio chegam a este um ano de pandemia em Pelotas com 921 vagas de emprego fechadas. Na Indústria e na Agropecuária as demissões também prevaleceram. O balanço só não é mais negativo à economia porque a Construção Civil conseguiu fechar o intervalo de março de 2020 a janeiro de 2021 - último mês com dados disponíveis - com saldo positivo de 200 contratações. É o que mostra o relatório do Observatório Social do Trabalho da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
O período mais crítico foi em abril e maio, que coincide com altos índices de adesão ao distanciamento social para controlar a propagação do coronavírus. As medidas, entretanto, mostram-se cada vez mais importantes para conter o avanço da Covid-19. Os cinco meses consecutivos com mais admissões do que desligamentos - de julho a novembro - não chegam a representar uma recuperação mais forte da atividade econômica, principalmente, se considerado o saldo positivo de 1.442 vagas criadas em novembro.
A avaliação é do coordenador do Observatório, professor Francisco Vargas. "Esse saldo deve ser atribuído às características sazonais do mercado, mais especificamente ao peso da indústria de conservas vegetais, devido à safra". Aliás, são as demissões neste mesmo segmento que ajudam a explicar o desempenho, novamente, negativo nos meses de dezembro e janeiro em Pelotas.
O impacto no mercado de trabalho
- Em fevereiro de 2020, Pelotas possuía 59.704 empregos formais celetistas.
- Com a movimentação entre demissões e contratações, Pelotas chega a janeiro de 2021 com 58.867 vagas. Um saldo de 837 postos de trabalho fechados.
Confira o cenário por setor, entre março de 2020 e janeiro de 2021 (*)
- Indústria: -82 vagas
- Serviços: -493 vagas
- Comércio: -428 vagas
- Agropecuária: -34 vagas
- Construção civil: +200 vagas
- Resultado acumulado: Com 18.035 contratações e 18.872 demissões, saldo é de -837 empregos.
(*) Janeiro é o último dado disponível no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged)
E o Bolsa Família?
- Dados de fevereiro indicam que 10.116 famílias são beneficiárias do programa em Pelotas, em um total de 26.744 pessoas alcançadas. É o equivalente a 7% da população.
- A cobertura atual do programa é de 57% em relação à estimativa de famílias pobres; com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
- Calcula-se que mais de 6,8 mil famílias, sem o programa, estariam em condição de pobreza extrema.
- Só entre os meses de janeiro e fevereiro de 2021, as equipes da Secretaria de Assistência Social realizaram 401 cadastros novos e atualizaram outros 1.029. São pessoas preocupadas em acessar o programa devido às dificuldades financeiras, mas ainda dependem de avaliação do Ministério da Cidadania - explica o secretário José Olavo Passos.
Dinheiro escasso e corrida por alimento
A luta é por trabalho. É pelo básico: ter comida no prato. A pandemia deixou estragos também na economia. Quem já vivia em condição de vulnerabilidade ficou mais exposto. A renda, que já era baixa, minguou ainda mais. E, na ânsia de poder suprir os gastos com despesas, como alimentação e conta de luz, milhares de famílias não tiveram a chance de se preservar contra o coronavírus. O apelo de Fique em casa não pôde ser aplicado. Em alguns casos, não há sequer casa em condições sanitárias adequadas.
A moradora do loteamento Getúlio Vargas, Rosângela da Silva Swensson, 37, viu a renda familiar encolher. Os contatos para faxinas realizadas duas vezes por semana desapareceram. As oportunidades para o marido José Francisco, 57, também caíram quase a zero. Pedreiro autônomo, ele enfrenta a escassez de chamados para obras. O jeito foi apelar aos bicos cortando grama.
"Tá difícil. Tá muito difícil", resume Rosângela. Com a renda mensal que - antes da pandemia - costumava ser de aproximadamente R$ 1.250,00, despencada para cerca de R$ 400,00, os armários só não ficam mais vazios porque a família tem contado com doações. Enquanto aguardam as definições do Auxílio Emergencial e torcem para ser contemplados de novo, até os celulares já foram vendidos para se transformar em refeições para o casal e os cinco filhos, de 11, 13, 14, 15 e 16 anos de idade.
"Não tem como ficar olhando para os celulares e a barriga roncando", enfatiza. E não vê a hora de poder preparar uma gostosa lasanha. Com o dinheiro curto, atualmente, nem o tradicional arroz e feijão são certos.
Sempre é possível se reinventar
Os últimos oito meses têm sido de reinvenção. Descoberta. Desafio. Era março de 2020 quando, de repente, Fabiana Vasconcellos, 40, ficou sem as três fontes de renda da família. Com ensino remoto, o Xerox que funcionava junto ao prédio da Faculdade Anhanguera ficou fechado e perdeu a função. O trabalho como bolsista no Centro de Pesquisas Epidemiológicas da UFPel foi suspenso. A agenda de shows do marido Cristiano, com o grupo Por Akazo, também foi interrompida.
"Da noite pro dia a gente ficou sem as três rendas, mas até o mês de abril fomos nos agarrando naquela ideia do 'daqui a pouco passa". Mas não passou. Já estava no segundo semestre do ano, sem qualquer perspectiva de fim e todas as reservas financeiras tinham terminado. "Começou a me dar um desespero. Eu precisava fazer algo pra me tirar daquela angústia". E fez.
Fabiana uniu o gosto pela cozinha com os conhecimentos da graduação em Química de Alimentos e começou a fazer bolos. Na fase inicial eram apenas cinco sabores, testados e aprovados pelos filhos Juan, 14, e Júlia, de sete anos. Aos poucos, as delícias ganharam nome - Bolos da FABI - marca e perfil nas redes sociais. Hoje, já são 19 variedades no cardápio, sempre com um carinho especial a quem irá receber a encomenda: um bilhetinho escrito a mão.
E conforme a data comemorativa, surgem novas surpresas: formatos, confeitos ou agrados à clientela. E para fortalecer a rede local, sempre que pode, Fabiana coloca itens de outras mulheres empreendedoras na cadeia de produção; do preparo à hora da entrega. E confirma: "Quero investir cada vez mais nos bolos. Quando me senti impotente, foi o que me deu força pra seguir".
"Hoje o dia vai amanhecer preto e branco pra mim"
O desabafo é o retrato da madrugada de 18 de março. Em pouco menos de três horas, três mortes foram registradas. Antes de encerrar o plantão no Hospital Universitário São Francisco de Paula da Universidade Católica de Pelotas (HUSFP-UCPel), a médica Kadrisi Rivero, 34, ainda envolveu-se na intubação de mais um paciente. A quinta-feira amanhecia sem cor. Escura. Pesada.
E assim tem sido: um processo extremamente assustador. A falta de leitos eleva a pressão sobre as equipes. Com a demanda maior do que o número de vagas disponíveis, os profissionais precisam escolher - rapidamente - quem terá prioridade, na hora das transferências à Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). "É algo que te coloca em xeque todos os dias e faz pensar: 'será que eu deveria ter escolhido outra pessoa?' É muito impactante".
É um desgaste sem precedentes - conta a médica, que já atuou no Pronto-Socorro de Pelotas (PSP) e no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ainda assim, o medo e o cansaço que rondam os profissionais, não raro, têm provocado afastamento de colegas por sintomas depressivos, crises de pânico e transtorno de ansiedade.
De médica a paciente
Era junho de 2020 e Kadrisi Rivero trabalhava em Porto Alegre, onde fazia residência médica em Hematologia. Os sintomas de febre e dores no corpo evoluíram até que um teste confirmou o diagnóstico de Covid-19. A médica foi hospitalizada em Pelotas, precisou de oxigênio, mas recuperou-se bem e, quatro dias depois, recebia alta. O pior, entretanto, estava por vir.
Passados cerca de dez dias, já de volta à capital gaúcha, Kadrisi começou a sentir tonturas e formigamentos. Uma nova internação e uma bateria de exames, incluindo tomografia, quatro punções na lombar, ressonância e ultrassom revelaram: Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico de tronco, um quadro grave provocado pela Covid-19.
"Numa noite só conseguia pensar: 'Se eu sobreviver ou se não ficar com sequelas graves, eu vou mudar a minha vida. Eu quero passar mais tempo em casa'", relembra. E foi o que fez. A residência ficou para trás, a quatro meses de ser concluída. De volta, de vez, a Pelotas, e com os movimentos do lado esquerdo recuperados, Kadrisi divide o tempo entre os plantões de angústia e os momentos para recarregar as energias ao lado do marido Samuel e do filho Joaquim, de cinco anos de idade.
"Me sinto muito abençoada por ter tido um AVC da magnitude que eu tive e hoje poder estar aqui, com saúde, cuidando do meu filho e poder trabalhar e ajudar outras pessoas".
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