Saúde

Pedro Hallal fala em desmoralização do modelo de Distanciamento Controlado

Em live promovida pelo Diário Popular, reitor da UFPel e doutor em Epidemiologia fez balanço da pandemia; presidente do Aliança Pelotas será ouvido nesta quarta

Reprodução -

O modelo de Distanciamento Controlado instituído em maio pelo Governo do Estado, na tentativa de barrar a propagação do novo coronavírus, foi alvo de uma das críticas mais duras disparadas pelo reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Hallal, em live promovida pelo Diário Popular, na manhã desta terça-feira (15). "O sistema, que começou como uma iniciativa pioneira e muito bem pensada, se desmoralizou completamente nos últimos tempos. A população não acredita mais no modelo das bandeiras e não acredita com razão".

E para dar sustentação à posição, recorreu ao exemplo desta semana, em que o Estado não aceitou os recursos apresentados pelas duas regiões de Pelotas e de Bagé que haviam ficado em bandeira preta - de altíssimo risco para a Covid-19 -, mas decidiu autorizar novamente a cogestão. Na prática, as regras que deveriam ser altamente restritivas, com apenas atividades essenciais em funcionamento, ganharam a chance de ser flexibilizadas, já que os protocolos de bandeira vermelha puderam entrar em vigor novamente.

"Quando se começou a politizar e as regiões puderam recorrer do resultado do algoritmo. E agora? Já que deu preta, vamos voltar pra cogestão. Fica muito evidente, entende?". Ao mesmo tempo, o reitor reconheceu que o sistema funcionou bem, logo que implantado, e chegou a ajudar a controlar a disseminação do vírus no Rio Grande do Sul. Atualmente, gera dúvidas e confusão entre os gestores municipais e a própria comunidade - acrescenta.

Entre alertas, alfinetadas, orientações e otimismo

Em conversa de 47 minutos com o Diário Popular, o doutor em Epidemiologia falou sobre diversos temas. Do período eleitoral ao descontrole da epidemia. Da falta de testagem em massa ao otimismo com a vacinação que está por vir. Da defesa pelo lockdown que não foi compreendida pela sociedade à preocupação com mais leitos na estrutura de enfrentamento à doença em Pelotas. Confira alguns dos principais trechos da entrevista:

* Situação de total descontrole: "A partir de outubro em diante estragou. Aí tem um pouco de parcela de culpa das eleições, um pouco de parcela de culpa da própria população, tem um pouco de parcela de culpa da falta de firmeza dos decretos naquela época. E teve a questão da diminuição do número de leitos, que eu não faço uma crítica apontando o dedo pra prefeitura, de jeito nenhum. Ao contrário, a UFPel é, inclusive, corresponsável por isso; a UFPel chegou a ter 20 leitos e depois só teve dez, basicamente porque não conseguia ter profissionais para manter as equipes".

* Vacinação: "Nós temos uma luz no final do túnel, agora, palpável. Tudo que a gente quer é que chegue a vacina e a gente comece a aplicar na população. Quando isto acontecer o coronavírus não vai ser coisa do passado porque ele vai seguir circulando por muito tempo, mas pelo menos esta situação de descontrole nunca mais vai acontecer", sustenta.

Pedro Hallal também defendeu a ideia de que a prefeitura de Pelotas tome protagonismo e comece a negociar para tentar obter doses. Ao responder questionamento lançado por internauta, o reitor também esclareceu que as quatro vacinas que estão em estágio mais avançado, no mundo, são seguras e eficazes.

Ao comentar o número mínimo de pessoas que deveria receber a vacina para, efetivamente, barrar a circulação do novo coronavírus, afirmou que o índice "mágico" seria de 70%. Com uma média entre 25% e 40% da população imunizada, entretanto, os efeitos já serão sentidos - explica. "Mas o Brasil só vai vacinar direito, depois que superada a politicagem que está atrapalhando tanto", cutucou. "Esse assunto da politização da vacina está passando de todos os limites da razoabilidade".

* Faltou ouvir a Ciência: "Se a Ciência tivesse sido ouvida no Brasil, a situação seria completamente diferente". Pedro Hallal ainda ressaltou a importância de duas medidas essenciais que precisariam ser adotadas e não têm sido: testagem em massa e rastreamento de contatos. "Isso nunca foi feito no Brasil. Nunca, em nenhum lugar". E ilustrou com o diagnóstico dos próprios pais, que testaram positivo há cerca de um mês e meio, receberam a orientação de permanecer em isolamento, mas não foram indagados sobre as pessoas com quem estiveram nos últimos sete, dez dias, para que estes eventuais contatos também pudessem passar por testagem. E, assim, barrar a disseminação do vírus.

* Lockdown: "A ideia era, inclusive, pra proteger a economia. A verdade é que as pessoas surtaram com essa pauta, transformaram em 'Bra-Pel' e não conseguiam sequer entender o que nós dizíamos", lamenta. E reforça: "Se tivéssemos ouvido a Ciência, teríamos a economia numa situação melhor, muito menos casos e mortes e conseguiríamos proteger a população pra chegada da vacina no início do ano que vem".

Pedro Hallal chegou a defender lockdown pelo período de 15 dias no país, em junho, quando os dados oficiais indicavam mais de 888 mil infectados e cerca de 44 mil mortes. Hoje, as estatísticas do Ministério da Saúde apontam para quase sete milhões de contaminados no Brasil e de 182 mil mortes. "Mas sabemos pelos estudos que este número de infectados deve ser multiplicado por seis. Então, podemos dizer que mais de 40 milhões de pessoas já tiveram contato com o vírus", lembra, com o peso de ser coordenador do estudo nacional para verificação dos níveis de contágio em todo o país.

* Falta adesão de alguns grupos: Após reconhecer o esforço de empresários do comércio que aderiram aos protocolos de segurança sanitária, Pedro Hallal endureceu o tom ao referir-se a grupos que efetivamente abandonaram os cuidados com a pandemia, principalmente, a partir do mês de outubro. "São adolescentes dos 15 aos 30 anos. E, realmente, a maioria dessa gurizada não vai ter caso grave, mas eles moram com outras pessoas. Eles transmitem o vírus".

* Novos leitos: O reitor da UFPel também comentou a criação de mais dez leitos de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) para o enfrentamento da Covid-19, mas adiantou que não serão suficientes para suprir a demanda: "Eles serão muito bem-vindos, mas não vão resolver o problema".

Ao defender a posição de que a estrutura hospitalar de Pelotas reserve entre 40 e 50 leitos de UTI para a doença, Pedro Hallal fez críticas à decisão do governo federal, que parou de pagar aos hospitais valores correspondentes à prestação de serviços de saúde, mesmo que as metas não pudessem ser cumpridas pelas instituições, mas com a intenção de que os locais dirigidos a outras doenças pudessem ficar reservados para o atendimento Covid. Sem este suporte de verba, muitos hospitais, em todo o país, tiveram de enxugar as estruturas destinadas à pandemia. Foi o que ocorreu também em Pelotas.

* Vida normal?
O reitor demonstrou otimismo ao projetar para o meio de 2021 a possibilidade de a rotina voltar à normalidade. E, embora pondere que muitas pessoas não estarão imunizadas, a circulação do vírus tende a estar sob controle. "Não podemos achar que vamos ficar nesse estado pro resto da vida. Eu sou otimista de achar que no meio do ano que vem estaremos com a vida normal: estarei na Baixada, assistindo ao Xavante na série B do Campeonato Brasileiro; talvez na A, mas acho que na B", descontraiu.

Confira as lives!

* Com Pedro Hallal: Até as 18h45min desta terça, mais de 34,8 mil pessoas haviam sido atingidas com a entrevista, que já alcançava 116 compartilhamentos e 6.889 engajamentos.

* Com presidente do Aliança Pelotas, Fabrício Iribarrem, sobre os efeitos da pandemia:
- Quando: nesta quarta-feira, às 11h

* Acesse: facebook.com/diariopopularRS 

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