Afeto
Por uma criação com apego
Psicanalista Lúcia Grigoletti, da UCPel, alerta, em pesquisa, para a substituição da função parental por recursos terceirizados, como outras pessoas ou tecnologias
Paulo Rossi -
Ter filhos, muitas pessoas têm. Saber o que é a função parental, poucos sabem. Quem afirma é a professora e psicanalista Lúcia Grigoletti, responsável pelo estudo clínico A falta do olhar suficientemente afetivo: a substituição do olhar parental pelo olhar terceirizado, apresentado em novembro no 10º Congresso Internacional sobre a Observação de Bebês, na Itália.
A pesquisa de Lúcia, professora de Psicologia na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), avalia tendências entre pais e bebês recém-nascidos até dois anos, analisados em sua rotina de trabalho. O olhar terceirizado, explica, é o direcionamento do olhar parental para coisas terceiras: babás ou diferentes parentes que ficam responsáveis pelos cuidados da criança no dia a dia, assim como o uso das tecnologias para substituir esses cuidados, a exemplo da televisão e dos smartphones.
Fato é que o bebê vive um ritmo totalmente contrário ao da contemporaneidade. Informações de todos os cantos, a todos os minutos, poluição sonora e visual - justamente no período em que a criança deveria estar em contato com as coisas mais primitivas, descobrindo as cores, as formas, os sentidos e a natureza do mundo.
Analisando esse dualismo, a constatação da professora é de que há uma dificuldade por parte do adulto de entrar em contato com seus sentidos. "O bebê necessita do adulto para poder ser entendido, por isso o adulto precisa estar bem sintonizado em relação ao seu olhar para o bebê. Os sentidos têm uma prioridade na relação com o bebê, especialmente até dois anos. A criança depende muito do adulto, que traduz o que ela está sentido", afirma.
No entanto, a época atual não favorece essa relação. "Acontece uma falta de sintonia entre os adultos contemporâneos e os bebês. Essa falta faz com que o adulto se volte para recursos terceirizados", delegando suas funções parentais para outros. "Numa época de relações descartáveis, em que se liga e desliga das relações, o bebê exige um apego seguro, constância e continuidade", cita a especialista.
Consequências para o futuro da criança
- Falso self (desconhecimento do seu próprio eu) - "Facilita a tendência a fazer uma identificação que chamamos de adesiva. A criança adere ao outro, mas não significa que isso seja o melhor pra ele", explica a especialista. A criança identifica-se somente com o perfil alheio ao invés de assegurar sua própria identidade. "Na adolescência, ter os iguais e os grupos faz parte. Depois cada um constrói sua identidade. Mas no período de constituição do bebê é diferente, porque ele já se constitui com uma falta. Aí, um sentimento de vazio se instala", diz, propiciando o surgimento de problemas de saúde mental no futuro.
- Ponto de autorregulação danificado - "Há bebês com mais fome, mais sono, menos energia. Esse ponto de autorregulação só é constituído quando existe um adulto que se coloca no lugar do bebê e o ajuda. Se existem trocas constantes entre os adultos responsáveis, a criança não aprende códigos. É o adulto que lê se a criança está com cólica, por exemplo. Ou seja, amamentar quando o bebê chora de fome é uma reação que fará com que o bebê saiba o que é sentir fome e como reagir para conseguir o leite".
Abrindo espaço
A mãe - neste caso, representada pela pessoa que cuida, independentemente do parentesco ou gênero - tem que ter paciência e tempo disponível, destaca Lúcia. "O adulto de hoje não terá esse tempo se não tomar consciência de que precisa dele. Assim, acaba levando o bebê a se adaptar ao seu ritmo, o que não é natural", diz.
Um exemplo simples é a cena clássica em que a criança dá os primeiros passos em direção ao abraço da mãe. "A criança não tem noção do espaço. Só tem noção do vínculo que ela estabelece, a pessoa que ela confia. Ela precisa desse vínculo para se movimentar no mundo, que é tão complexo pra ela no início. É essa relação de apego seguro que possibilita o aprender a caminhar", observa a professora. "Ela nem olha pros lados. O que segura ela é o olhar, a voz e a disponibilidade da mãe."
Porém, a tecnologia e o auxílio de amigos ou parentes não são abomináveis. Lúcia destaca que há diferença entre ser ajudado por esses elementos e substituir a relação parental por eles. "Com certeza um terceiro ajuda uma mãe ou pai a educar, mas é diferente de substituir", distingue.
Laura Bastos entende bem essa diferença. Tornou-se mãe do pequeno Henrique Bastos, hoje com cinco meses, aos 19 anos de idade. Mãe de primeira viagem, Laura reconhece a pouca experiência, mas já opta pela educação e criação com base no apego. Inclusive decidiu pausar os estudos no Ensino Superior. "Faz dois meses que cancelei minha matrícula em Pedagogia na UFPel (Universidade Federal de Pelotas). Preferi me dedicar única e exclusivamente a ele agora", conta.
"Se eu tivesse que voltar para a faculdade, quem teria esse papel de mãe não seria eu. Mesmo que ficasse todo tempo livre com ele, algumas partes importantes do dia eu não estaria presente. As primeiras conquistas dele eu não estaria ali para ver. Eu quero dar pra ele esse contato exclusivo comigo", conta.
Essa mesma vontade está relacionada com a fonte de renda de Laura. Com a ajuda da mãe e do padrasto, produz pizzas em casa, no Barro Duro, para tele-entrega. Fora a produção das pizzas, durante a tarde, toda sua rotina gira em torno do bebê.
Nem acesso a TV possui. "Não quero que tenha tanto contato com a tecnologia. Eu vejo pelos meus afilhados e outras crianças que perdem toda atenção para outras coisas se tem uma TV ou celular. Acabo aprendendo com o erro dos outros", fala. O contato físico também é fundamental. Carrega Henrique no método canguru, através do suporte de tecido que proporciona contato direto entre mãe e bebê. Além disso, o cuidado se estende também para a alimentação. "Eu vejo que ele tem interesse nas coisas que eu estou comendo. Se eu não me alimentar bem, fizer as coisas certas, ele também não vai fazer, porque ele se espelha em mim", acredita.
Políticas públicas
Se a contemporaneidade não é conivente com o processo de desenvolvimento do bebê, quais direitos restam para a mãe que reconhece a importância dessa dedicação à função parental? No Brasil, a legislação estabelece um período de 120 a 180 dias de licença-maternidade. Já a licença paternal é de apenas cinco dias, de acordo com artigos previstos na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), não alterados pela Reforma Trabalhista. Ou seja, os pais têm de voltar para a rotina de trabalho ainda em um período de essencial desenvolvimento para a criança. "A tomada de consciência a respeito da função parental tem que vir não só dos pais, mas também de quem administra as políticas públicas. É preciso ter uma noção do que é ser bebê. Em Canela, isso tomou um lugar bem especial. Tinha o Dia do Bebê e da Família em toda a comunidade", conta a professora sobre o projeto coordenado por um dos pioneiros da psiquiatria da infância no Brasil, Salvador Celia. "O reconhecimento do lugar do pai está se construindo. Os direitos de uma mãe e de um pai são diferentes. Muitas vezes estão batalhando na Justiça. Os pais, para terem tempo. As mães, para terem mais. Ainda temos muito a caminhar e isso vem com o diálogo", acredita.
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