Desigualdade social
Pouco para muitos, muito para poucos
Pesquisa do IPO, encomendada pela Assembleia Legislativa, mostra aumento da desigualdade social durante a pandemia no Estado
Carlos Queiroz -
Se muitos já achavam que a pandemia será ainda mais desafiadora para a sociedade e os governantes, os números confirmam a opinião. Com o avanço da vacinação e a manutenção do dever de cada um de manter o distanciamento social e o uso da máscara, aos poucos as dificuldades sanitárias vão dando espaço para as sociais. Isto é o que a pesquisa "A influência da pandemia na desigualdade social", encomendada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e realizada pelo Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), apresentada na tarde desta quarta-feira, em Porto Alegre, obteve como resultado.
O estudo, que teve como objetivos compreender a percepção dos gaúchos sobre as desigualdades sociais vivenciadas no Estado e verificar a necessidade de leis que possam subsidiar políticas públicas de combate à desigualdade social, foi feito com 1,5 mil pessoas, com idades a partir de 16 anos e de todas as regiões do Rio Grande do Sul. Questionados sobre o principal impacto da pandemia em sua família, 44,3% afirmaram que foram impactados financeiramente pela crise sanitária: 24,6% econômico/financeiro; 11,3% perda do trabalho/emprego; e 8,4% dificuldade para trabalhar.
A pesquisa mostra que as famílias com renda de até dois salários mínimos sofreram, principalmente, impactos financeiros como a perda de renda, de emprego e dificuldade para trabalhar. No total, 76,8% dos gaúchos declararam que a pandemia causou algum tipo de impacto na vida de sua família, como na saúde emocional/mental, na física, gerou problemas familiares e a questão do fechamento de escolas.
Segundo o IPO, mais de dois terços das famílias gaúchas tiveram a renda impactada pela Covid-19, principalmente aquelas já classificadas em classes sociais mais baixas. O destaque foi nas regiões de Porto Alegre, Metropolitana e de Pelotas, que tiveram mais famílias com a renda diminuída pela metade ou menos que a metade. "O impacto é menor no interior, mas quando vamos para grandes cidades, grandes eixos, é maior", explicou, durante a apresentação ao Legislativo estadual, a diretora do IPO e cientista social e política, Elis Radmann.
"Vacina contra a desigualdade social"
"As pessoas falavam que a vacina trouxe grandes resultados contra a Covid, trouxe esperança, e agora a Assembleia e o governo do Estado tinham que achar a vacina para combater a desigualdade social. Foi uma frase muito recorrente no campo [de pesquisa]", destacou Elis.
De acordo com a cientista social e política, apesar de a população seguir com medo de uma nova onda de contaminação, o receio de os governantes não tratarem as demandas reprimidas, como saúde e trabalho, também persiste. Se antes da pandemia 53,5% se consideravam pobre, de classe baixa ou classe média baixa, agora, durante o enfrentamento ao coronavírus, o percentual é de 70,6%. Os moradores da capital (60,9%), da região de Pelotas (59,8%) e da Região Metropolitana (57,2%) são os que mais declararam que estavam nas classes mais baixas antes da pandemia.
Com os dados em mãos, agora a Assembleia Legislativa e o governo estadual devem planejar e executar ações. A pesquisa "A influência da pandemia na desigualdade social" foi finalizada com três encaminhamentos dos gaúchos entrevistados: pensar em leis emergenciais que subsidiem cursos de qualificação profissional, investir na educação básica e dar suporte, através de bolsas de estudo, para o Ensino Superior.
Presente na apresentação, o presidente da Assembleia, Gabriel Souza (MDB) adiantou duas propostas que deverão ser encaminhadas ao plenário nos próximos dias. A primeira é sobre garantir o cumprimento do artigo 201 da Constituição Estadual em destinar 0,5% da receita do Estado para a educação comunitária - praticada por diversos programas sociais dirigidos às populações de baixa renda -, como despesa obrigatória. A segunda seria a proposta de criação de projeto de lei que aumente, gradual e progressivamente, a partilha da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) com os municípios, conforme melhores indicadores na Primeira Infância.
"Basicamente, nós temos dois focos que são a questão da Primeira Infância e do Ensino Superior, da qualificação profissional para que as pessoas tenham maior renda no mercado de trabalho. Quanto mais escolaridade, maior a renda. Da mesma forma, quanto maior o investimento na Primeira Infância, mais condições em diversos aspectos a criança vai ter", comentou o deputado.
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