Pandemia
Profissionais da rede básica cobram testagem
Trabalhadores reivindicam acesso a testes preventivos e periódicos, para verificar se estão ou não contaminados
Quase cinco meses depois de confirmado o primeiro caso de Covid-19, em Pelotas, os profissionais da rede básica de saúde seguem sem acesso à testagem preventiva. Agentes comunitários, técnicos em Enfermagem, enfermeiros ou médicos. Nenhum dos trabalhadores tem sido testado de forma periódica. Só os servidores que apresentam sintomas de síndromes gripais realizam o exame para verificar se estão ou não contaminados pelo novo coronavírus.
O cenário transforma-se em um misto de preocupação e indignação. “A gente pode ser um potencial disseminador da doença”, resume uma das servidoras que conversa com o Diário Popular, mas prefere não ser identificada. Afinal, é possível ser portador do vírus e não apresentar sintomas. Colegas de serviço, familiares e os próprios pacientes poderiam ficar em situação de risco.
O tema já motivou reuniões, foi levado ao Sindicato dos Municipários de Pelotas (Simp) e, mais recentemente, ganhou formato de ofício encaminhado à Secretaria de Saúde. “Nem as equipes que realizam o acompanhamento de quem está em isolamento, e é caso positivo, são testadas”, garante. E embora faça a ressalva de que este monitoramento ocorre sem entrar nas residências, reitera: “Ficamos expostos”.
Os enfermeiros, inclusive, engrossam a reivindicação nacional por aumento da insalubridade nos salários, mas o governo federal já vetou a proposta que o índice pudesse dobrar, ao passar de 20% para 40%. Isso sem falar na sobrecarga de trabalho, devido aos afastamentos dos profissionais que interromperam as atividades por pertencerem a grupos de risco.
Dados da própria Secretaria de Administração e Recursos Humanos apontam que dos 364 servidores afastados no momento, por apresentarem doenças crônicas, 229 estão vinculados à Secretaria de Saúde e 60 são técnicos em Enfermagem, enfermeiros e médicos.
A posição do Simp
Os relatos de angústia não param de chegar ao Sindicato. Sem perspectiva de ver a demanda atendida, parte dos trabalhadores tem pago exames do próprio bolso, para poder ter contato mínimo com a família - conta a diretora do Simp, Claudia Correia. A entidade tem ampliado a cobrança sobre o acesso à testagem.
“É uma situação angustiante, que abala o psicológico dos profissionais”, destaca. E atuar na linha de frente, como trabalhador da saúde - não raro diante de pacientes suspeitos ou positivos para Covid-19 -, diante do agravamento da pandemia e sem enxergar perspectiva de a curva de contágio entrar em queda, é altamente desafiador. Perigoso. E letal.
O que diz a prefeitura
A secretária de Saúde, Roberta Paganini, assegura que os profissionais são testados, com base em protocolo que define três situações: quando apresentam sintomas, são afastados e passam por exame RT-PCR; quando têm contato com caso confirmado para Covid-19, seguem trabalhando e realizam teste rápido após o período de dez dias; e quando uma das pessoas com quem residem testa positivo para a infecção. Os trabalhadores, entretanto, rebatem e afirmam não passar por testagem mesmo quando em contato com pacientes contaminados.
Atualmente, um grupo técnico avalia a possibilidade de criar plano de testagem preventiva que leve em conta o nível de risco a que o trabalhador está exposto. Divisões por atuação em área Covid ou não e também por rede hospitalar e atenção básica deverão ser consideradas - adianta.
Roberta Paganini ainda mencionou a janela imunológica dos testes, mais facilmente calculada depois de iniciados os sintomas. “Por esse motivo é difícil testar pacientes assintomáticos, pois se corre um risco alto de se obter falsos negativos, ou ainda, de fazer com que essa pessoa relaxe nas medidas de prevenção à doença”, argumentou a secretária.
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