Pandemia
Qual o impacto da Covid-19 em autistas?
Pesquisa da UFPel quer mapear os efeitos da pandemia na vida de crianças com TEA; interessados em participar têm até o dia 31 para se cadastrar
Jô Folha -
Identificar os impactos do isolamento social no período da pandemia da Covid-19 na rotina das crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esse é o objetivo do estudo encabeçado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Cognição e Aprendizagem (NEPCA), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Toda a comunidade brasileira pode participar, desde que atenda ao critério da pesquisa: ter, pelo menos, um filho dos zero aos nove anos, com diagnóstico de TEA. Os interessados precisam preencher um formulário, disponível neste link, até o dia 31 de outubro.
Neste momento, o estudo está na fase da coleta dos dados. O instrumento utilizado para este recolhimento trata-se de um questionário de múltipla escolha, desenvolvido com base nos estudos realizados referentes ao tema da investigação. O formulário apresenta questões sobre o impacto da Covid-19 nas crianças com TEA e em suas famílias, sistemas de apoio, dificuldades, necessidades e formas com que esses núcleos familiares estão vivenciando o distanciamento social.
A professora responsável pelo estudo, Maria Teresa Nogueira explica que o grupo está acompanhando os questionários respondidos, mas até então os resultados não estão sendo analisados de forma sistemática “Muitos do que vêm sendo apontados na pesquisa já percebíamos no dia a dia e nos relatos de famílias, mas pretendemos divulgá-los quando tabulados e sistematizados”, completou. De acordo com ela, esse resultados poderão possibilitar o desenvolvimento de estratégias que possam promover a intervenção dos profissionais da saúde e educação, de forma remota e voltada para os contextos naturais da criança com o TEA e de sua rede familiar. “Também pretendemos trazer à tona estas realidades, para que as formas de apoio a estas crianças e suas famílias sejam buscadas em todos os âmbitos”, apontou.
O incentivo de pesquisar sobre o tema surgiu pelas outras investigações nesse mesmo âmbito que o NEPCA realiza. De acordo com os relatos que o grupo recebe das famílias com filhos com TEA, o cenário da atual pandemia no Brasil tem impactado diretamente a vida dessas crianças. “Estes impactos estão relacionados à saúde física e mental, causados pelo confinamento, em que algumas famílias tiveram de se reconfigurar para enfrentar esta realidade”, disse Maria Teresa. Entre as principais modificações, estão a suspensão das atividades escolares, o acesso às instituições especializadas e os atendimentos individuais, por exemplo.
Quanto à participação das famílias via questionário, será mantida a confidencialidade das informações e o anonimato. Ou seja, o nome não será mencionado em qualquer hipótese ou circunstância, mesmo em publicações científicas.
O dia a dia de quem convive com o TEA
E quem vem enfrentando uma série de dificuldades com a nova rotina são os primos Íris Dias, 14, e Bernardo de Oliveira, 8. Moradores do Laranjal e vizinhos de porta eles dividiam parte do dia a dia, como as idas à escola e ao Centro de Atendimento ao Autista Dr. Danilo Rolim de Moura. Apesar de ambos serem portadores do TEA, as características deles são diferentes. Enquanto Íris aprecia o silêncio e a calmaria, o Bernardo gosta da vivência social, de estar próximo das pessoas e acaba sendo mais agitado.
A rotina da Íris era normal para uma adolescente. Escola, atendimentos no Centro e passeios com a mãe, Rita de Cássia de Oliveira, 33. De acordo com ela, a família sempre foi caseira, mas, mesmo assim, o isolamento não está sendo uma tarefa fácil. “A Íris olha as notícias sobre as vacinas e fica feliz”, disse. A falta de convivência com os colegas e professores geram uma certa ansiedade na jovem, que, volta e meia, acaba perguntando para a mãe quando a pandemia irá acabar.
Porém, o tempo livre está sendo dedicado às atividades favoritas: desenhar e pintar. Ela coleciona dezenas de quadros, produzidos por ela mesma, inspirados em personagens de mangá. Estudante do 9º ano, ela confessa que já está com saudades das aulas. “Antes eu não gostava muito, mas agora faz falta”, brincou, enquanto pintava mais uma tela. Mesmo acumulando notas altas em matemática o sonho não envolve números, mas sim cores. “Eu quero ser artista”, disse.
Bernardo é o fã número 1 da prima. Enquanto presenciava a mãe, Berta de Oliveira, 31, conversando com a reportagem o pedido era um só: “quero uma foto com a Íris”. Com o isolamento, o pequeno trocou o dia pela noite. Acaba indo dormir muito tarde e acordando só depois do meio dia. “Ele chora muito e acaba questionando várias coisas sobre o futuro”, desabafa a mãe. A falta das aulas diárias no 3º ano e os atendimentos no Centro são os protagonistas do aumento da agitação do portador do TEA. “Ele precisa muito do convívio social”, falou. Agora, a principal atividade que consegue distrair o pequeno e, consequentemente, proporciona um descanso a Berta é os vídeos e os jogos na internet.
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