Doação
Quase 20 mil gaúchos aguardam por transplante
Com redução nas doações, fila de espera por órgãos tem aumentado
Divulgação -
Ato de amor e solidariedade, a doação de órgãos ainda é vista como tabu por uma parte da sociedade. Por conta disso, muitas pessoas permanecem aguardando ansiosas por uma nova oportunidade de viver. Somente no Rio Grande do Sul, de acordo com dados recentes da Central de Transplantes do Estado, a fila de espera por um transplante chega a 19,4 mil pessoas.
O dado é alarmante. Afinal, o alto número tem, por trás, uma corrida contra o tempo pela vida de mães, pais, filhos ou irmãos. Nessa triste lista, a esperança de contar com um doador de rim compatível é a maior, com 8.832 pessoas em espera. Na sequência aparecem demandas por córnea (5.124), medula óssea (2.885), fígado (1.464), pulmão (906), coração (150), esclera (34), pâncreas (24) e rim/pâncreas (16).
O número de pessoas que esperam por uma oportunidade de retomar a vida normalmente bate de frente com uma realidade negativa dos últimos dois anos: a queda na realização de transplantes. O quantitativo destes procedimentos realizados no Estado apresentou diminuição de quase 50% em comparação a 2019. Até agosto de 2021 foram 253 cirurgias como estas realizadas em hospitais gaúchos, enquanto que no ano que antecedeu a pandemia foram 689. A queda brusca reflete a diminuição no número de doações. Em 2019 foram 243, em 2020 redução para 182 e, até agosto de 2021, somente 96.
A Central de Transplantes não disponibiliza informações sobre as cidades de origem destes pacientes no aguardo de doações de órgãos. Consultada, a Secretaria de Saúde de Pelotas também diz não saber informar quantas pessoas precisam passar por procedimentos do tipo no município.
Mais que números, vidas
À espera por um pulmão, o ex-professor de telecomunicações do Instituto Federal Sul-Rio-Grandense (IFSul) Edelbert Krüger, 66, é um dos mais de 19 mil gaúchos na fila dos transplantes. Diagnosticado em 2016 com fibrose pulmonar idiopática, teve os dois órgãos comprometidos. Depois de uma investigação médica, foi constatado que a doença era consequência de uma pneumonia de hipersensibilidade, uma vez que, devido a diversas alergias desde a adolescência, o corpo criou anticorpos para barrá-las que, de tão fortes, causaram o enrijecimento do pulmão e a perda da capacidade de respiração.
Atividades do cotidiano, como um simples banho, tornaram-se um desafio. Por ser uma doença incurável, os últimos quatro anos foram de luta contra o avanço da fibrose e, no final de 2020, o transplante passou a ser a única alternativa. “Se perguntar como eu me sinto, eu respondo que não tenho opção de como me sentir. Temos que estar firmes nas nossas convicções: Deus, fé, família, que é fundamental que esteja junto. Amor, ciência e, principalmente, ter paciência. Não fico sentado esperando os acontecimentos, me envolvi em campanhas de doação, leio livros, faço origami, comidas e mantenho minha cabeça ocupada. Ou tu te ergues ou tu cai totalmente”, relata.
Os meses de dezembro do ano passado - quando levantada a hipótese do transplante de pulmão -, e abril de 2021 foram dedicados por Krüger a diversos exames, até que em maio houve o aceite para ingresso na fila. Morando em Porto Alegre há mais de três meses, uma vez que é necessário estar próximo ao hospital onde será realizado o transplante, o professor vive à espera de um telefonema. “Eu, agora, uso oxigênio dentro de casa, a partir de um condensador de oxigênio, estou diariamente conectado a um fio de dez metros, que me dá mobilidade de fazer algo durante essa espera.” Em deslocamentos fora de casa, Krüger carrega consigo um cilindro de oxigênio.
Sentindo a cada falta de ar a angústia da espera, ele apela por diálogo. “As pessoas precisam começar a discutir isso, a refletir. Se tu acredita na vida após a morte, ela pode surgir exatamente na caminhada dos teus órgãos passar para outras pessoas e esta ter uma vida longa, de dez ou 15 anos, em função de um órgão que um familiar acabou doando. É uma forma de dar quantidade à vida em momentos de dificuldade”, enfatiza.
Conversar é necessário
A importância para o diálogo com a família sobre o assunto torna-se fundamental, uma vez que ela será responsável pela decisão final. Dentre as motivações para o não consentimento familiar para a doação, a mais expressiva é de pessoas que não declararam-se doadoras em vida (48%), seguido pela contrariedade da família (13%) ou por parentes desconhecerem a vontade da vítima de doar (5%). Pela legislação brasileira, não há como garantir efetivamente a vontade do doador. No entanto, observa-se que, na maioria dos casos, quando a família tem conhecimento do desejo, este é respeitado. Por isso a informação e o diálogo são essenciais e necessários.
Atualmente, Pelotas conta com cinco hospitais notificantes (que realizam a manutenção do potencial doador até o momento da autorização familiar e cirurgia de coleta). São eles Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP), Santa Casa de Misericórdia, Sociedade Portuguesa de Beneficência e Hospital Clinicamp. Entretanto, apenas dois tipos de transplantes são realizados na cidade, de córnea e rim, no HE-UFPel e HUSFP, respectivamente.
Além da doação pós-morte, caso de pessoa com morte encefálica, há também a possibilidade de doação de órgãos em vida. Para isso, basta que o doador se disponha ao procedimento e que este não prejudique sua própria saúde. O doador vivo pode ceder um dos rins, parte do fígado, da medula óssea ou do pulmão. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores. Não parentes só poderão doar através de autorização judicial.
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