Ainda sem respostas

Quase 600 dias sem lar

Moradores do bloco C do Residencial Regente permanecem sem previsão de retorno para casa

Carlos Queiroz -

Imagine chegar em casa à noite, depois de um longo dia de trabalho, e descobrir que o Corpo de Bombeiros interditou o seu prédio e que é preciso deixar tudo para trás em poucas horas. Imagine também que a reforma, prevista para durar quatro meses, um ano e meio depois sequer começou. Pois essa é a história de 15 famílias, que estão há quase 600 dias longe dos seus lares e não tem nenhuma previsão de retornar tão cedo.

O Residencial Regente, construído através do Programa de Arrendamento Residencial (PAR), foi entregue aos proprietários no início de 2006. E segundo uma moradora, a advogada e assistente social Melaine Mazon, 46 anos, o bloco C já começou a apresentar algumas pequenas rachaduras nos corredores do edifício desde o primeiro ano. Dentro do apartamento os primeiros sinais apareceram no piso, mas até então eles entendiam que era uma falha na colocação do mesmo.

A situação ficou mais série em 2019, quando outra morada resolveu tomar a frente e acabou fazendo uma denúncia para os Bombeiros. "Apesar de muita gente não ter para onde ir não houve nenhuma resistência. Porque a gente já sabia das irregularidades e dos problemas do prédio. Mas é aquela coisa, tu acabas acostumando, tu passa todos os dias por aquelas rachaduras e acaba não vendo o perigo da coisa. Até que uma moradora denunciou para os Bombeiros e eles interditaram na hora", contou.

A podóloga Domingas da Silva Lira, 46 anos, lembra bem do susto vivido no dia 6 de agosto de 2019. "Eu estava atendendo em Canguçu quando recebi a notícia que estavam interditando e eu tinha duas horas para pegar uma roupa e sair de casa. Vim de Canguçu desesperada. Quando cheguei só conseguir pegar os cadernos e os livros da minha filha, umas roupas para passar alguns dias e fui para a casa da minha irmã."

Caixa assume a responsabilidade

A história teve inúmeros desdobramentos nos meses seguintes. Alguns moradores chegaram a retornar ao prédio, mas foram obrigados a sair pouco depois. Enquanto isso, um procedimento administrativo no Ministério Público Federal (MPF) deixou a Caixa Econômica Federal (CEF) - agente executora do PAR Inovare - como responsável pelas reformas. A CEF, inclusive, disponibilizou apartamentos temporários para todas as famílias. Mas o que era pra ser um lar temporário virou, por hora, uma moradia fixa.

"O apartamento é emprestado, tanto é que meu ar condicionado está aqui (Regente), porque eles deram quatro meses para fazer as reformas e aí nem quis retirar o aparelho para instalar no outro. Aí fica uma coisa que a gente não pode arrumar algumas coisas porque não pode gastar e também porque não é nosso. Nada foi feito. Voltamos ao Ministério Público e eles informaram que o procedimento licitatório é que estava atrasando e até agora nada", relatou Melaine.

Mesmo sem nenhuma previsão de quando poderá voltar para casa, recentemente ela recebeu uma notificação para fazer a escritura do apartamento. Em fevereiro a gente quitou o apartamento, porque a gente continuou pagando o apartamento, continuou pagando o condomínio. Até recebemos uma notificação para a gente escriturar o apartamento", completou.

A saga de Domingas também não foi nada fácil. Após passar uma semana com a irmã, ela conseguiu um apartamento emprestado com uma amiga, onde ficou por cinco meses, até se realocar para o apartamento cedido pela Caixa. "O administrador da Inovare trouxe a chave do apartamento errado, também mandaram a documentação errada pra CEEE. Agora estamos com essa situação que não desenrola. Os apartamentos estão com as rachaduras cada vez piores. E a gente fica muito preocupada com isso tudo, pagamos 15 anos um apartamento e a gente precisa passar por isso. A situação é desesperadora. É o nosso canto, é humilde, mas é o nosso canto. Era o que a gente tinha condições de comprar, foram anos pagando", finalizou.

Sem resposta

A reportagem do Diário Popular tentou contato com a Caixa Econômica Federal e com o PAR Inovare, mas não obteve resposta.

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