Debate
Sem comprovação e sem pílulas mágicas
UFPel debate as medicações que passaram a dividir a opinião da sociedade durante a pandemia
Uma medicação que previna ou cure a Covid -19 é o desejo de qualquer cidadão. Porém, essa necessidade precisa ser estudada e a eficiência comprovada cientificamente. Acontece que remédios como a hidroxicloroquina e a ivermectina, mesmo sem tal comprovação, vêm dividindo a opinião de profissionais da saúde e acendendo o debate no campo científico e provocando ações na política. No último dia 13, a prefeitura anunciou a disponibilização de um kit para que os médicos possam ter opções de tratamento. Já a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) protagonizou, dia 23, uma live com profissionais da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, com o tema Medicamentos para Covid-19: existe a pílula milagrosa?
Na oportunidade, os convidados foram mediados pelos docentes da UFPel, Marcelo Capilheira e André Fajardo. A pesquisadora da USP, Natália Pasternak, iniciou sua fala de forma objetiva: “O que ainda não existe é pílula mágica e vacina”. A bióloga explicou que antivirais são fórmulas complexas de fabricar, bem diferentes dos antibióticos. Ela completou, afirmando que não existe nenhum antiviral completamente efetivo para vírus respiratórios. “O próprio tamiflu, ele ajuda, mas não cura a gripe”, disse.
Quando questionada sobre as vacinas, a profissional falou que haverá, mas não será tão rápido. “Ela está vindo, mas não está na esquina”, explicou, de forma didática. O pedido de Natália é para que investimentos em vacinas e antivirais aconteçam de forma permanente. Dessa forma, ninguém será pego de surpresa, como aconteceu com a pandemia do novo coronavírus. As imunizações mais avançadas estão na fase três, ou seja, milhares de pessoas receberão as doses e serão expostas. Dessa forma, será possível saber a eficiência. “Os segmentos e efeitos colaterais seguirão sendo estudados”, adiantou. As primeiras vacinas poderão não ser as melhores, mas se forem seguras e com eficácia razoável serão produzidas e distribuídas. “Mas isso não quer dizer que deixaremos de pesquisar até encontrar uma mais robusta”, completou.
Também convidado a dialogar sobre o tema, o egresso da UFPel, médico e pesquisador na Universidade de Nebraska, André Kalil, explicou que mais de 80% dos contaminados ficarão com sintomas leves e irão se curar sem intervenção terapêutica. “Qualquer coisa poderá ser dita como eficiente, mas a verdade é que eles vão eliminar o vírus sem ajuda de ninguém”. Cerca de 15% desenvolverá a doença de forma mais severa, com sintomas como falta de ar e febre, podendo necessitar de tratamento em hospitais. “Parece um número pequeno, mas não é”, completou. Nesses casos, segundo ele, é necessário prover um tratamento de suporte, ou seja, profissionais da saúde com condições de se proteger para trabalhar, com os devidos EPI’s, medicações necessárias e estrutura hospitalar. “Se a gente minimizar a preparação dos hospitais os enfermos não terão os cuidados básicos quando chegarem no hospital, então não adianta pílulas mágicas e medicações fantásticas”, apontou.
Outro ponto destacado pelo pesquisador é sobre a taxa de mortalidade. Ele relatou que nos primeiros meses de pandemia, a China registrou muitas mortes por não conhecer a doença. Hoje, a letalidade já é menor porque “estamos mais preparados e temos maior entendimento científico no segmento de suporte que esses pacientes precisam”. O pedido dos profissionais não foi nada diferente do que toda população já sabe: “Usem máscara e obedeçam o distanciamento social”, disseram. Apenas com essas medidas, que são tão importantes como as pesquisas, será possível que o fato de se perder mil vidas diariamente deixem de ser algo normal no país.
A distribuição do kit Covid-19 na Farmácia Municipal
A secretária de Saúde, Roberta Paganini, comunicou que a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) reuniu a Comissão de Farmácia e Terapêutica do Município, que deliberou pela alteração da Relação Municipal de Medicamentos Essenciais (Remume), incluindo a ivermectina. Portanto, está sendo agora elaborada a portaria com a inclusão do medicamento. Depois disso, a SMS irá iniciar o processo de compra das medicações, mas já alerta que está difícil adquirir no mercado. Sobre a cloroquina, a SMS informa que é um remédio de competência estadual, então não foi incluída ainda, mas a pasta está verificando como conseguir a fórmula para também disponibilizá-lo na farmácia municipal.
A secretária Roberta reforçou que o município não recomenda o uso dessas medicações para o tratamento da Covid-19, porém deverá disponibilizá-los na farmácia municipal para os pacientes que receberem prescrição médica para o uso destes medicamentos. A gestora também diz que há alguns trâmites que estão em andamento, mas acredita que em breve será possível comprar as medicações.
Mais controle
No último dia 24, regras que proíbem a venda sem receita em farmácias de medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, nitazoxanida e ivermectina foram publicadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As orientações estão na Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 405/2020, publicada no Diário Oficial da União. De acordo com a agência, a lista poderá ser revista a qualquer momento para a inclusão de novos medicamentos, caso seja necessário. A compra desses produtos em farmácias e drogarias passou a ser permitida apenas com a apresentação da receita médica em duas vias. Cada receita terá validade de 30 dias, a partir da data de emissão, e poderá ser utilizada somente uma vez.
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