Despedida
Um ano que entrou pra história
Mesmo diante de tantas perdas, 2020 finaliza com gostinho de esperança e promete - espera-se que cumpra - ser um ano de mudanças
Carlos Queiroz -
O ano que entrará para os livros de história foi embalado por uma pandemia mundial e, também, marcado por palavras como incertezas, reinvenção e confinamento. Porém, em meio a tantas perdas, ele acaba com gostinho de esperança, já que quase cinco milhões de pessoas em mais de 40 países já foram vacinadas contra a Covid-19. Em tempos de polarização, a política foi protagonista no ano que se encerra. Além dela, a saúde mental, as dúvidas sobre a nova doença e os empreendimentos familiares ganharam voz e vez. E para renovar os votos, 2021 chega com a vontade de mudança e de abraços.
Por questões de necessidade, milhares de famílias brasileiras precisaram colocar em prática uma palavra que talvez, até então, só tivessem ouvido na televisão: reinventar. Diante de um cenário de crise e de uma série de regras que sabiamente proibiram as pessoas de praticarem seus ofícios, a palavra precisou ganhar força no vocabulário de quem perdeu o emprego, de quem viu seu negócio quebrar e a renda cair. Esse é o caso da família Tomaz. Com a queda mensal do dinheiro que sustentava a casa e as contas chegando normalmente, eles decidiram na volta da mesa que outros lares iriam saborear as delícias que passavam por ali.
O empreendimento ganhou vida em junho e seis meses depois, Zeni, 52, garante: “Nos ajudou muito e não vamos parar por aqui”. Usando a internet e os cursos gratuitos, mãe e filha, Gabriela, 19, aprimoraram o que já sabiam fazer e hoje adoçam a casa de diversas pessoas com suas tortas, palhas italianas e pães de mel. Por lá, 2021 também chega com esperança e os pensamentos de produção e ampliação de atendimento e de cardápio não param. “Já estamos pensando na Páscoa”, brincaram.
O contexto político
Sem dúvidas, foi o ano em que o brasileiro mais precisou e dependeu de seus governantes e das políticas públicas criadas por eles. Mas também é um aspecto que mesmo em um cenário de incertezas acaba com com uma pontinha de esperança em dias melhores. De acordo com o cientista político e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Luís Gustavo Teixeira, infelizmente, 2020 ficará marcado por tragédias e pelos dois milhões de mortos em decorrência da Covid-19. Além disso, destaca uma das consequências da onda populista de direita: o questionamento da ciência e do conhecimento especializado. “O conhecimento técnico e científico precisa estar acima de perspectivas religiosas e culturais”, afirmou. E apesar do atual momento estar sendo marcado pelo negacionismo, ele analisa que a pandemia mostrou que um dos principais avanços mundiais foi o saber científico. “A resposta para as perguntas não chegou através dos setores militares, mas sim da ciência”, completou.
Apesar de crer que 2021 será um ano difícil nos aspectos econômicos e sanitários, Teixeira enxerga os discursos mais radicais perdendo fôlego.
Como exemplo, cita a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos e a força do chamado “centrão” nas eleições municipais do Brasil, que fizeram com que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não elegesse nenhum dos candidatos que apoiou. “O cenário é incerto, mas podemos acreditar no retorno de uma perspectiva mais civilizada”, apontou. A esperança no campo político para o ano que chega vai para a expectativa de que a ciência, junto com seus profissionais, seja mais valorizada e que movimentos que insistem em desqualificar o conhecimento percam ainda mais adeptos. “A lição é que a política é feita de ciclos e não convém subestimar esses ciclos”, falou.
Um ano para seguir cuidando da saúde mental
Em um ano que a adaptação foi regra, os impactos foram sentidos. O psicólogo e professor da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Luciano Souza, explica que as consequências da pandemia foram sentidas por todos, uns mais outros menos. Segundo ele, ter que se adaptar a uma condição de ameaça real faz com que as pessoas se protejam. “O medo e a angústia são necessários para enfrentar a doença de forma efetiva”, falou o docente, enfatizando a importância de seguir se adaptando.
Destacado por ser um ano de luto e perdas, não só de pessoas, mas de pequenos gestos como poder encontrar os amigos em uma praça, o profissional afirma que é necessário significar todos os sentimentos de 2020. Marcado pela mudança brusca de rotina, os consultórios dos psicólogos - que também se adequaram e foram para frente da tela de um computador - encheram. “As pessoas tiveram um cotidiano diferente, suas cargas de serviço desordenadas, isso faz com que a ajuda seja necessária”, disse. Para 2021, as expectativas são positivas. Entretanto, Souza considera a importância de não buscar estabilidade com a aprovação da vacina. “Tem que ser encarado de forma positiva pelo fato da população já estar consciente de se adaptar rapidamente”, apontou, destacando os aprendizados que o ano que se encerra trará para 2021. Outro aprendizado destacado é o resgate do senso coletivo e o lembrete que mesmo com o fim da pandemia, os outros problemas, provavelmente, seguirão.
O futuro da pandemia
Para o epidemiologista e reitor da UFPel, Pedro Hallal, a palavra do ano foi incerteza. “Quando a doença chegou sabíamos pouco, aprendemos rápido e coisas que não acreditávamos deu certo”, recordou. Para ele, o pior já passou, não em questão de números e das mortes que ainda virão, mas no sentido de saber como tratar o novo vírus e da aproximação da vacina no Brasil.
Mesmo com a certeza de que 2021 será pautado pela Covid-19, ele acredita que a virada seja a chegada dos imunizantes e que invés da necessidade de contabilizar óbitos, seja necessário contar os vacinados. “Mas também foi um ano que nos mostrou coisas que não podemos esquecer, como o SUS e a ciência”, disse. E falando em conhecimento científico, a universidade pública pelotense deu aula e encabeçou as maiores pesquisas sobre a doença, além de, através de alunos e professores, produzir máscaras, álcool em gel e acolher pacientes em ala exclusiva no hospital universitário. “Como nunca na história a UFPel cumpriu o papel esperado pela sociedade”, falou. A chegada do novo ano será marcada pelo início da vacinação e através dessa ação que, segundo Hallal, o sentimento de dever cumprido tomará conta. Mesmo consciente que os imunizantes chegarão de forma tardia, com doses insuficientes e cercado de notícias falsas, ele garante. “Estou louco para começar a ver as pessoas vacinadas”.
O reitor destaca que o Brasil não tinha o direito de ser irresponsável na comercialização do produto. “Não tenho notícias de nenhum chefe de estado do mundo que não estimule a vacinação”, completou, referindo-se às inúmeras declarações na contramão do presidente do Brasil. Se a palavra que iniciou 2020 foi a incerteza ele se encerra com a necessidade de mais uma adaptação. “Vai ser como a experiência de uma criança tirando as rodinhas da bicicleta”, analisou o reitor que acredita que todos terão que reaprender a viver o “normal”, mais uma vez. E o desejo dessa mudança é que ela seja marcada por saúde, afeto, abraços e mais abraços.
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