Abandono

Uma década depois, Escolas de Educação Infantil seguem no papel

Das 14 instituições anunciadas pela prefeitura de Pelotas, através do Proinfância, apenas duas estão em funcionamento e, pelo menos, duas não serão construídas

Carlos Queiroz -

a59590c2-d9ae-48c3-aacb-0322b85bca5eCavalo pasta em terreno onde deveria funcionar escola no Vasco Pires (Fotos: Carlos Queiroz)

O alicerce recebeu marcações no chão e a gurizada do loteamento Getúlio Vargas se diverte com as partidas de futebol ao ar livre. Há cerca de quatro meses, os jogos ganharam até traves. O local deveria abrigar uma das 14 Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis) anunciadas no final de 2011 pelo programa Proinfância. Passada uma década, com abandono de obras e troca-troca de empresas, apenas duas instituições entraram em funcionamento.

Na última semana, o Diário Popular cumpriu roteiro para verificar o cenário. E o que se viu foi um amontoado de dúvidas, lixo e vegetação. Em alguns casos, a comunidade não nega: é cética quanto à concretização dos projetos. Das 14 Emeis previstas, cinco podem não ser erguidas, mas já não são exatamente as mesmas como chegou a ser divulgado em 2019.

"O FNDE [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação] é um sistema muito moroso pra dar respostas", afirma a secretária de Educação e Desporto, Adriane Silveira, como um dos argumentos para justificar a demora nas decisões e liberação de recursos. Para garantir a execução das obras - das duas instituições que estão em atividade e das duas que estão em fase final -, a prefeitura já aplicou mais de R$ 4,5 milhões. Confira o panorama:

Paredes em pé e estagnação

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- Vasco Pires: No bairro Areal, o cadeado ainda está no portão, mas o furto de todas as telas do muro permitem a entrada. Um cavalo, inclusive, pastava no local. Ao invés de aulas, de risadas dos pequenos e de material pedagógico, as salas inacabadas acumulam lixo de todos os tipos - vaso sanitário, pedaços de TV, térmica, roupas e calçados - e tornam-se ponto para uso de drogas e namoro. Há anos. "Já tem até um sofá lá pra poderem se acomodar", contam moradores das redondezas.

Uma lona preta e um pedaço de tecido isolavam um dos ambientes, onde um casal passou a viver nos últimos tempos. Enquanto isso, a criançada que mora por perto precisa obter vaga em outras escolas e enfrentar o barro e os alagamentos em dia de chuva. É o caso de Artur, de dois anos de idade: "Pra nós seria perfeito. Moramos na frente", destaca a avó Clarinda Santos, 57.

Resposta: Será a nova prioridade: O reinício das obras deve ocorrer ainda em 2021. É a intenção da prefeitura. Em breve, deve ser publicado o edital de licitação. "Estamos buscando a repactuação com o FNDE para poder retomar", explica a secretária de Educação.

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- Laranjal: A vegetação cresce por todos os lados e engole parte dos detalhes da construção que começou a ser erguida no terreno da antiga quadra de esportes Praia Sete, no balneário Valverde. Como ocorre em outros locais, a estrutura começa a ser deteriorada: parte de um dos muros já veio abaixo. Nos fundos, um grande volume de aterro aguarda o retorno das atividades. O que, de fato, não deve ocorrer.

Resposta: Corre risco de ser cancelada: A hipótese é debatida junto ao governo federal. Questionada sobre o porquê de esta instituição ter sido escolhida, considerando que é uma das obras que ficou mais adiantada, Adriane Silveira ressaltou: "A decisão leva em conta as regiões que têm maior demanda". Não seria o caso do Laranjal.

Projetos não saíram do alicerce

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- Loteamento Dunas: Os buracos abertos para receber a sapata de concreto se transformaram em risco. Em alguns pontos, a água acumulada atinge quase um metro de profundidade, conforme o DP conferiu na manhã da última quarta-feira. Sem qualquer muro ou tapume, que represente bloqueio ao local, o cenário é de perigo para as crianças, já que parte dos buracos está escondida pelo capim alto. O terreno também apresenta resíduos de fogueiras e embalagens de preservativo. Em frente, há um amontoado de roupas e de calçados.

Resposta: Corre risco de ser cancelada: A Emei do loteamento Dunas também integra a lista das instituições em processo de cancelamento; neste caso desde 14 de novembro de 2019. A tendência, portanto, é de que não seja mais construída.

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- Residencial Eldorado: João Victor, de cinco anos de idade, poderia estar do lado de dentro, matriculado na Pré-Escola. Não é o que acontece, embora bastaria ele atravessar a rua para chegar a aula. "Não fizeram mais nada. Acho que caiu no esquecimento", lamenta a jovem Talia Silva, 22. Sem qualquer perspectiva de o filho estudar na Emei, que segue apenas no papel, o jeito tem sido pedalar até a Escola Lobo da Costa, no Pestano, para que o caçula possa ter contato com o ensino presencial.

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- Getúlio Vargas: O alicerce da escola - único rastro de que ocorreram obras por ali - virou quadra de futebol improvisada. A própria prefeitura instalou as traves, em ação do projeto Bairro Bem Cuidado. Ainda assim, demonstra a ausência de áreas públicas de lazer para os adolescentes. Mesmo sem redes nas goleiras ou marcações adequadas no chão, a gurizada se diverte: pega a bola molhada e embarrada, bate lateral, escanteio ou tiro de meta e segue a diversão.

Resposta: Devem voltar aos planos entre 2022 e 2025: A etapa também é de negociações junto ao governo federal para tentar assegurar a liberação de recursos. Adriane afirma, entretanto, que as obras das escolas do Residencial Eldorado e do loteamento Getúlio Vargas seguirão nos planos, mesmo que as verbas precisem sair do caixa do município. As construções só serão priorizadas no intervalo de 2022 a 2025.

Finalmente, prestes a concluir

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- Vila Princesa: A fase é de acabamentos e de revisão em rodapés e na parte elétrica. O colorido já está por todos os lados, com salas que têm ligação direta com banheiros devidamente projetados para atender a criançada. Quem acompanha o andamento da obra não vê a hora de poder assegurar uma vaga. "Vai ser muito importante pra nós", resume a moradora Viviane Nunes Ribeiro, 33. E torce para que a caçula Kethelin, de um ano e dez meses, possa ter a primeira experiência na escola. "Ela adora pintar".

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- Sítio Floresta: Há entulho na frente, mas o colorido das paredes demonstra que a obra está na reta final. Mais uma vez, entretanto, o prazo para entrega foi descumprido. Está na placa afixada, ao lado: término em 19 de janeiro de 2021. Quem mora por perto, torce para ter os filhos contemplados com uma vaga. É o caso de Miriam Bilharva de Oliveira, 25, que tem os pequenos Myguel, de quatro anos, e Tainã, de nove meses de idade. "Por enquanto, o Myguel tá estudando na Escola Maria Joaquina, mas tá só online", conta.

Resposta: Devem inaugurar para o ano letivo de 2022: A previsão é de que as duas escolas entrem em operação no começo de 2022. A obra da Vila Princesa está 98,41% pronta e deve ser entregue neste mês. Já a do Sítio Floresta atingiu 64,56% do andamento e tende a ser concluída até dezembro.

O passo a passo para inauguração ainda incluirá detalhes, como mobília e contratação administrativa temporária para montagem das equipes - em torno de 25 a 30 profissionais para cada uma das escolas. "Devido à lei complementar 173, em vigor durante este período de pandemia, não podemos criar novas vagas", afirma a secretária de Educação, para justificar a não realização de concursos públicos. Passadas as restrições impostas pela Covid-19, cada uma das escolas terá capacidade de 135 alunos em turno integral.

Os outros dois extremos

- Entraram em funcionamento: São somente duas. A Emei do Navegantes abriu as portas em 2019 e a Escola Luís Artur Borges Pereira, da Sanga Funda, foi concluída e aberta neste ano de 2021.

- Não serão mais construídas: Duas obras permanecem canceladas: a da vila Governaço e a do Monte Bonito, no 9º distrito de Pelotas. A decisão envolve tratativas com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

- Voltaram a ser prioridade: Depois de terem sido anunciadas como, possivelmente, canceladas em julho de 2019, as escolas da Vila Farroupilha e da Colônia de Pescadores Z-3 agora já estão inclusive no Plano Plurianual (PPA), que estabelece um planejamento de médio prazo. "Mesmo se não conseguirmos reverter com o FNDE, iremos construí-las só com verba própria", assegurou a titular da Smed. Ainda não há previsão, entretanto, de quando começam as obras.

- Deve permanecer suspensa: A Escola de Educação Infantil prevista para a localidade de Eucalipto, no bairro Três Vendas, também está na lista das instituições em processo de cancelamento.

Relembre

Depois de visitas à rede municipal de Educação Infantil de Pelotas, entre 2011 e 2012, o então promotor da Infância e Juventude, José Olavo Bueno dos Passos, elaborou relatório em que apontava problemas que iam desde a falta de espaço, de iluminação e de ventilação até alimentação inadequada para bebês e condições precárias de higiene.

Foi quando decidiu ajuizar ação civil pública contra a prefeitura, em outubro de 2012, para forçar as melhorias. Na sequência, iniciava um processo para qualificação da rede; seja com reformas, seja com negociações para viabilizar as novas instituições. Algo que até hoje se arrasta.

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