Proibição
Conselho de Medicina proíbe prescrição de anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular e desempenho esportivo
Categoria está preocupada com alta nas complicações pelo uso indevido de hormônios.
Foto: Jô Folha - DP - De início, os músculos crescem, a gordura diminui e o corpo rapidamente definido aparece nas selfies, mas logo começam os danos à saúde
Por Joana Bendjouya
O Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou há poucas semanas uma resolução que proíbe a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética ou como único enfoque o ganho de massa muscular e melhora do desempenho físico e esportivo para atletas amadores ou profissionais. A decisão foi tomada após seis sociedades médicas divulgarem uma carta conjunta pedindo para que o CFM votasse uma regulamentação sobre o uso.
Ainda assim, a medida mantém a permissão da indicação a pacientes com diagnóstico comprovado da falta do hormônio no organismo e o quadro clínico compatível com a utilização desse tipo de tratamento. Porém, somente prescrito de forma pontual, acompanhada e segura, conforme explica o endocrinologista Eduardo Coelho Machado. ”Quando a gente usa testosterona em alguém, está se repondo esse hormônio, ou seja, teria que existir a deficiência deste hormônio para ter indicação de repor.”
Médicos em alerta
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) vem se posicionando há muito tempo em relação ao uso inadequado dos esteroides anabolizantes. São inúmeras preocupações dos especialistas em relação à segurança do seu uso a longo prazo para fins de ganho de desempenho no esporte amador, estéticos ou como agentes anti-envelhecimento. Nesse novo posicionamento da SBEM, estão alertas importantes em relação a efeitos colaterais, dosagens e a importância de ter cuidado com publicações nas redes sociais, sem nenhuma comprovação científica.
Os especialistas reforçam a necessidade de regulamentação e controle da prescrição médica dessas substâncias, preservando os tratamentos previstos para as indicações que são amplamente estabelecidas na literatura médica.De acordo com o Conselho, a norma destaca a inexistência de estudos clínicos de boa qualidade metodológica que demonstrem todos os riscos em homens e em mulheres, além da ausência de comprovação científica da necessidade da terapia hormonal com testosterona para a mulher.
“Algumas pessoas se utilizam do conceito de que existe na mulher, por exemplo, a menopausa para dizer que, ao longo da idade, do envelhecimento, haveria uma andropausa, que seria então a parada de produção de testosterona pelo homem. Porém, isso não existe. Não é fisiológico que nem é na mulher. O homem continua produzindo testosterona, ao longo da sua vida os níveis vão modificando”, salienta o endocrinologista.
Importância da testosterona
Um hormônio produzido nos testículos e nas glândulas suprarrenais, com efeitos para o corpo inteiro do homem, assim é a testosterona. Ela tem funções também na produção de proteínas e é essencial para o comportamento sexual normal e para as ereções. Além disso, também afeta atividades metabólicas, como produção de células do sangue na medula óssea, formação do osso, metabolismo de lipídios e de carboidratos, função dos rins e o crescimento da próstata.
Já nas mulheres, a testosterona também está presente, porém em baixas quantidades, sendo associada à regulação biológica e ao processo de reprodução.”Na mulher, a reposição de testosterona é ainda mais problemática. Elas produzem em nível bem mais baixo e essa testosterona tem algumas funções, que são principalmente no bem-estar e libido. Mas não existem estudos demonstrando que a reposição nas mulheres é segura. Pelo contrário, os estudos que existem sugerem efeitos colaterais e, para agravar, não existe no Brasil uma apresentação de um laboratório feita para uso em mulher.Ou seja, temos somente para homens, apresentação que vai promover níveis masculinos”, explica o endocrinologista.
A consequência do uso na mulher, aponta, é que primeiro haverá pausa na produçãodo estrógeno, com elas ficando mais viris e aumentando o risco cardíaco. “Pode gerar doença cardíaca, hipertensão, diabetes e também distúrbios do humor, como ocorre nos homens. Além das alterações estéticas, como pelos e músculos masculinizados”, diz Machado.
Complicações
O endocrinologista faz um alerta para os riscos potenciais do uso de doses inadequadas de hormônios e a possibilidade de efeitos colaterais danosos, ainda que com o uso de doses terapêuticas. Especialmente em casos de deficiência hormonal não diagnosticada apropriadamente, seguindo diretrizes e recomendações em vigor. “Sabemos que age também no sistema nervoso central. Lá no inicio do uso provoca bem-estar, a pessoa fica se sentindo forte, potente, capaz, com libido nas alturas. Mas esses efeitos são transitórios, rapidamente se modificam.”
Dentre os inúmeros efeitos adversos possíveis estão os cardiovasculares, incluindo hipertrofia cardíaca, hipertensão arterial sistêmica e infarto agudo do miocárdio, aterosclerose, estado de hipercoagulabilidade, doenças hepáticas, transtornos mentais e de comportamento, incluindo depressão e dependência, além de distúrbios endócrinos. “Os homens, no início, sentem um grande bem-estar e, logo na sequência,começam a ter distúrbios de humor. A depressão é muito comum, a disfunção erétil ocorre em quase todos os usuários. Existem distúrbios de comportamento que também vão acontecendo à medida que o uso vai sendo continuado, como infertilidade e a diminuição de libido”, complementa o médico.
Estas complicações costumam ser ainda mais preocupantes quando o uso ocorre de forma precoce, por pessoas muito jovens e saudáveis que não precisariam repor nenhum tipo de hormônio. “Existem muitos jovens usando e, nessa época da vida, costumam ser muito saudáveis. O corpo aguenta sem maiores problemas. No entanto, cinco, dez anos depois, eles começam a apresentar problemas que vão limitar a qualidade de suas vidas em uma fase em que ainda são muito jovens”, alerta Machado.
Apelo nas redes sociais
Segundo o endocrinologista um dos motivadores para a proibição é a preocupação com o aumento no número de casos de complicações pelo uso indevido de hormônios e todas as consequências de malefícios à saúde e, paralelo a isto, a grande quantidade de conteúdos publicados em redes sociais que promovem e incentivam o uso desses recursos.
“A internet, principalmente redes sociais, tem uma potencial responsabilidade sobre essa difusão do uso dos esteróides, pois a vida das pessoas nas redes não é a vida real. Lá todos são lindos, maravilhosos, muito magros e sem taxa de gordura. Mas na vida real não é assim. Nem os atletas olímpicos são assim. Basta ver fotos que, entre os períodos de competições, em que não estão treinando fortemente, eles tem corpos normais”, enfatiza.
Machado alerta que nem todas as modificações e alterações que os hormônios causam no corpo são visíveis e muitas vezes são percebidas somente ao logo dos anos, mesmo após a suspensão do uso. ”Não é só o músculo do braço, do peito que cresce. Todos crescem, inclusive o do coração. Este músculo crescido aumenta a chance de uma série de problemas. Insuficiência cardíaca, doença isquêmica do coração, infarto e morte súbita por conta disso. Aumenta o risco cardíaco porque aumenta o quadro de hipertensão e piora colesterol. O colesterol ruim se torna de pior qualidade, ficando mais agressivo para o coração e o cérebro”, explica o especialista.
Desta forma a terapia hormonal com testosterona e anabolizantes muitas vezes utilizados visando o ganho de massa muscular e a melhora do desempenho esportivo, é totalmente contraindicado. No entanto, o uso dos produtos sem a prescrição e o acompanhamento médico pode ser altamente perigoso.
Ganho de massa muscular e de saúde
De acordo com a personal trainer e educadora física Flávia Betemps Sperling, o assunto não é novidade no meio dos esportistas ou de quem simplesmente cultua o corpo perfeito. Ela relata que, sempre que possível, conscientiza seus alunos sobre o assunto alertando de todos os efeitos colaterais que são consequências do uso. “Os anabolizantes sempre foram e sempre serão um assunto que causam polêmica e curiosidade nas pessoas. Durante esses 17 anos que atuo dentro das academias, já tive inúmeras conversas com os alunos a respeito das vantagens e desvantagens do uso de tais substâncias. Meu posicionamento como professora e personal sempre foi claro e baseado no que a ciência traz de concreto através dos estudos. Ou seja, não existe dose segura. Doses fisiológicas também podem causar malefícios. Os efeitos colaterais aparecem em homens e mulheres e são ainda mais graves em adolescentes que fazem uso. Não existe uma forma de diminuir os efeitos colaterais, para isso é recomendado inclusive o uso de outros hormônios.”
A nutricionista Priscila Meirelles, que acompanha pacientes preocupados em perder os quilos extras, ganho de massa muscular ou que buscam muitas vezes reparar os efeitos do uso indevido dos hormônios para os fins estéticos, acredita também que o apelo em redes sociais é de grande influência nessas escolhas. Além de não haver um respeito aos efeitos que o avançar da idade traz, como, por exemplo, a própria perda de massa muscular.
“Acho que a questão mais importante é o imediatismo que as pessoas procuram, o senso mais estético do que de saúde. Acabam indo atrás do uso destes hormônios pela rapidez e o sonho de ter aquele corpo que idealizam perfeito, mas não pensam nas consequências e na individualidade. Que ninguém é igual a ninguém. Não dá pra se comparar ao amigo de academia, ao blogueiro que é acompanhado na internet. Mas enquanto forem oferecidos por profissionais e usadas sem cuidado, prometendo mundos e fundos com esse apelo físico, sem critério algum, fica complicado mudar a mentalidade.”
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