Justiça
Tribunal do júri condena os dois acusados pela morte de Salete Hasse
O ex-genro Marlon Petito, mentor do crime foi condenado a mais de 35 anos
Foto: Jô Folha - DP - Júri começo pela manhã e encerrou no começo da noite
Por Anete Poll
anete.poll@diariopopular.com.br
Em julgamento realizado nesta quarta-feira (14), em Pelotas, o Tribunal do Júri condenou Marlon Petito Rochedo e Júlio César Silva Ferreira pelo assassinato de Salete Hasse, ocorrido em abril deste ano. A pena de Marlon, ex-genro da vítima, é de 35 anos, seis meses e 20 dias de reclusão, em regime inicialmente fechado.
Contra ele foram reconhecidas a motivação torpe, o emprego de meio cruel e de recurso que dificultou a defesa da vítima, bem como a qualificadora do feminicídio e a causa de aumento decorrente da prática do crime na presença física dos descendentes da vítima. Além disso, também foi ponderado na sentença o cometimento do crime mediante o descumprimento de medidas protetivas de urgência vigentes em prol da filha de Salete e de seus familiares.
Já o réu Júlio César Silva Ferreira foi condenado à pena de 14 anos de reclusão, também em regime inicialmente fechado. Apesar do reconhecimento da atuação mediante promessa de recompensa financeira, do emprego de meio cruel e de recurso que dificultou a defesa da vítima, o Conselho de Sentença afastou a qualificadora do feminicídio, assim como foram consideradas as atenuantes relativas à sua idade (menor de 21 anos na época do fato) e à confissão espontânea.
Ambos são acusados de matar, a golpes de faca e pé de cabra, Salete Hasse, ex-sogra de Marlon. O julgamento iniciou pouco depois das 9h. Em seguida, o juiz Régis Adriano Vanzin leu a denúncia, relatando que o crime aconteceu no dia 21 de abril. No relato, consta que a vítima estava dormindo quando os dois acusados entraram pela porta dos fundos, surpreendendo a mesma. As facadas e os golpes atingiram Salete no rosto, pescoço, tronco, braços e costas. Ainda segundo a denúncia, o crime foi cometido com brutalidade.
A polícia apurou que Marlon foi o mentor do feminicídio e que pagou R$ 3.500,00 para que Júlio César fosse com ele. O inquérito apurou que o acusado abusava da enteada, a filha da sua companheira, desde que tinha oito anos (atualmente ela tem 15 anos). Marlon foi denunciado pela ex-sogra, que não o perdoou pelo crime cometido contra a neta.
Depoimentos
O primeiro a ser chamado pelo juiz Régis Adriano foi Júlio César, que afirmou ter matado a vítima sozinho, em uma espécie de vingança contra Marlon e que este não tinha responsabilidade nenhuma com o crime. Júlio César, 19 anos, sem emprego, sem endereço fixo, com estudo até a 8ª série e pai de um filho de um mês, contou a nova versão de forma fria. Disse ter desferido dois golpes no pescoço de Salete e dois na lateral do abdômen. Até então tinha um único antecedente, por roubo, quando ainda era menor de ida. Marlon, por sua vez, disse que já tinha prestado o seu depoimento quando foi preso e que não falaria novamente. “Sou analfabeto e não sou bem de lembrar”, enfatizou ele.
O promotor de acusação, Márcio Schlee, iniciou sua fala exaltando a rapidez do processo. “O julgamento está ocorrendo no mesmo ano em que foi cometido o crime. Efetividade é o que se fala. Aqui a Justiça é como deve ser, um trabalho dedicado e respeitoso”, evidenciou. Dirigindo-se aos jurados, apontou que “não acostumados com essa violência, até ficamos na dúvida da capacidade de fazer o mal que o ser humano tem”. Ele lembrou ainda que no dia do crime, este foi cometido com o neto de Salete, de oito anos, e a ex-companheira de Marlon (deficiente visual), na casa. “Foram vários golpes e todos com uma violência fora do normal”. No dia 18 de fevereiro deste ano, a ex-companheira fez a denúncia de crime sexual cometido contra a filha.
No dia 19 de abril, ele foi informado de que não poderia mais se aproximar das duas. Como a filha da vítima acabava voltando eventualmente para o criminoso, Salete decidiu encampar a denúncia de crime sexual contra Marlon. No dia 21 de abril, conforme o promotor, após o pagamento do valor combinado, Salete foi morta. “Foi um crime encomendado pelo ex-genro, um crime que não deu a ela nenhuma chance de defesa”. Schlee recordou ainda que tanto a perícia, quanto a investigação, colocaram os dois agentes criminosos como autores da morte de Salete. “Eles tiraram a vida de uma pessoa de forma desumana e merecem ser condenados por isso”.
Mobilização
A Frente Feminista 8M Pelotas, em acordo com a família da vítima, se mobilizou em frente ao prédio do Fórum durante todo o júri popular. “Este é o único caso de feminicídio cometido em Pelotas este ano, oficialmente, porque sabemos que existe subnotificação. Os números são crescentes e absurdos no Rio Grande do Sul. Nós fomos procuradas pela família da Salete que pediu ajuda nesta questão da mobilização para a condenação dos réus e para que houvesse justiça”, enfatizou Niara de Oliveira, integrante do movimento. “Este foi um caso bem rápido, no mesmo ano do crime se deu o julgamento. É uma questão de punição, porque em um mundo em que as mulheres são mortas simplesmente por serem mulheres, é fundamental a punição”, completou.
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